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Religião

Ciência e Religião. A incompatibilidade.

Ciência e Religião. A incompatibilidade.

Inconciliáveis? Não. Diríamos que são ambivalentes – têm dois valores ou aspectos. Como animais racionais, temos a faculdade de raciocinar (sensibilidade marcada pela ancestralidade), numa operação mental pela qual, de dois ou mais juízos, se tira outro por conclusão e fazemos disso um tirocínio. A persuasão íntima, uma vez firmada, pode deflagrar um processo de radicalização e, portanto, nos levar à ambiguidade pela falta de clareza e indecisão, quando da abordagem da presente questão. A “ciência lógica” é um conjunto de conhecimentos sistematizados, precisos e objetivos, relativos a uma ordem de fenômenos comprobatórios. Com suas descobertas, o cientista tenta brincar de Deus numa realidade material. A religião é um sistema de princípios filosófico-espirituais que liga o homem a Deus, através da sua crença (fé) – método religioso não lógico e dogmático.

O devoto, observando os preceitos de sua religião, pela “experiência sensível”, encara-a como “ciência apologética”. Há diferentes graus de utilização do saber; da inteligência inclusa: inventos científicos voltados tanto para a preservação da vida, como para a destruição do homem e do seu habitat; enquanto a fé pode aproximar os povos, como o fundamentalismo religioso os separa definitivamente pela estupidez explícita quando estimulada. A política, com os seus mitos, ideologias e dialética, entra nesse contexto como ponto de equilíbrio e acaba tendendo para um dos lados, por razões que o próprio bom senso desconhece – ou pelo obscurantismo generalizado.

A evolução da humanidade nas últimas seis décadas foi mais intensa e decisiva do que a conseguida no somatório de toda a sua história, até então. Por um lado, não existiria desenvolvimento gradativo, crescimento, transformação progressiva, sem as maravilhas alcançadas pela ciência e pela tecnologia aplicada e, pelo outro lado, sem a crença religiosa que, por indução, faz com que grande parte dos beneficiários possa creditá-las diretamente a um ente metafísico. Sem ceticismo.

Judas não teria traído Jesus. Essa é a revelação que os cristãos gostariam de ter, talvez para mudarem o conceito que fazem do algoz do filho de Deus. O manuscrito, chamado “O Evangelho Segundo Judas”, datado do século IV e encontrado na década de 70, não revela todos os mistérios, até porque sobre as escrituras recaem inúmeras interpretações. Provavelmente Judas teria sido o mais comum mortal dos doze apóstolos, dessa forma compreendeu o verdadeiro significado dos ensinamentos de Cristo, oferecendo-o aos soldados romanos.

As pessoas do século XXI continuam precisando de um “Judas moderno”, estimulados pela manifestação da Besta. Os “Judas” são os outros, e necessitamos deles todos os dias – estamos sempre dispostos a sacrificá-los, em nome das nossas verdades. Nos Sábados de Aleluia elegemos os “Judas da vez” para novas imolações – segue-se o ritual macabro do linchamento popular. Portanto, Judas não teria traído Jesus. Somente duas pessoas sabiam da verdadeira história: Jesus Cristo e o próprio Judas Iscariotes. Judas, enquanto apóstolo, traiu ou se deixou trair? Eu não sou um indivíduo investido de ordens sacras, tampouco prego o ministério do sacerdote, porém, coloco outro questionamento: estamos traindo Jesus? O simbolismo me leva a crer que a traição em si não faria parte do plano de Deus para redimir a humanidade – Judas Iscariotes teria sido o escolhido de Deus para simbolizar a punição para quem trai. Esse é o objeto de fé inacessível à razão – um dos mistérios da religião pregada.

Recentemente os bispos católicos do Espírito Santo publicaram nota alertando que ser fiel da Igreja Vétero-Católica é “viver na excomunhão”. A verdadeira Igreja Vétero-Católica, no Brasil, foi ressuscitada no dia 05 de julho de 2001, tendo todos os seus registros transferidos do Estado do Paraná (onde foi instalada no dia 22 de maio de 1932, na cidade de Curitiba, pelos padres missionários da Polônia) para o Estado de Minas Gerais, onde a sede nacional da Igreja está localizada. A fé católica e apostólica, transmitida pelos padres polacos, fundamenta a Igreja, donde se conclui que a fé dos Vétero-Católicos é a mesma fé pregada pela Igreja Católica que conhecemos.

A aderência fiel à Bíblia Sagrada e à Tradição Apostólica se constitui a regra de fé dos Vétero-Católicos, conforme os ensinamentos apostólicos. Alguns pontos de diferenciação separam os Vétero-Católicos da Igreja Católica Apostólica Romana. O Celibato Clerical (pessoa solteira) é opcional entre os Vétero-Católicos, podendo ser ordenados homens casados e até mesmo os padres podem casar, mesmo depois da ordenação. Outra questão diz respeito à Expressão Litúrgica, sempre voltada à renovação, adaptando-se ao perfil das comunidades locais. Fato é que as comunidades Vétero-Católicas são ainda pequenas, por natureza, o que faz com que os fiéis se aproximem dos padres e dos bispos, numa relação familiar, quebrando sistemas litúrgicos de poder e estruturas religiosas rígidas.

Fala-se na probabilidade da ordenação de mulheres e celibato opcional para o clero na igreja católica. Ainda que me considere eclético, sou de opinião que as mulheres também podem receber a colação de ordens eclesiásticas, nem por isso a sua fé será mais ou menos intensa do que a dos homens, portanto, o sacerdócio pode ser exercido plenamente por elas, sem prejuízo dos mandamentos sacros. A Igreja Católica, por tradição, sempre glorificou a figura masculina – Jesus Cristo abriu o caminho quando nomeou os doze apóstolos (todos homens); e Pedro, enquanto seu fundador, ratificou o intento. Hoje, no Vaticano, paira a expectativa de renovação da Igreja Católica, e que o novo Papa saiba corresponder às demandas naturais da modernidade. Sou também defensor do celibato facultativo para os sacerdotes e ministros cristãos – manter obrigatória a condição de solteiro não é garantia de “entrega absoluta” do sacerdote aos serviços de Deus. Assim fosse, padres pelo mundo afora não estariam envolvidos com pedofilia, caracterizando a quebra de valores humano-espirituais. Este é um fato que não pode ser negligenciado pela Igreja Católica. O ecletismo tem que prevalecer acima de tudo, até porque o sacerdócio para mulheres e o celibato opcional vigoram, há algum tempo, em Igrejas Evangélicas tradicionais e acredito que a Católica não quererá perder terreno no mundo da religião, até porque isto significaria um incomensurável prejuízo para os cofres da Igreja. De tal modo, os procedimentos mercantilistas exercidos pelas Igrejas não são metafísicos, obedecem a regras de resultados. Todas têm na fé um ‘produto vendável’.

Religião é poder. A discutida educação religiosa, enquanto imperativa, conduz à obediência cega. Seja qual for o credo seguido, por convicção, a preocupação recai sobre o poder de manipulação e dominação da massa reunida e tirar dela a capacidade de discernimento, já que a de nova escolha lhe foi roubada quando se subjugou ao movimento. Durante séculos, as religiões promoviam o medo e a punição como forma de intimidar os membros de uma igreja, ou de uma seita, ou seguidores de uma doutrina, e a partir daí, “conquistar as suas almas” pela força da coação subliminar. O temor a Deus em troca da salvação. Não podemos aceitar a volta da Inquisição, bem como admitir que esse Tribunal Eclesiástico, em pleno terceiro milênio, estabeleça penas (excomunhão), excluindo os fiéis da Santa Igreja Católica, não podendo estes participar dos sacramentos ou de outros bens espirituais.  Os Reverendíssimos Senhores Prelados, que governam dioceses, deveriam professar o catolicismo sem uma visão anacrônica; sem autoritarismo doutrinal. A busca do consenso religioso parece ainda distante – todos os ensinamentos deveriam convergir para um só Deus. As leis dos homens vão acabar prevalecendo sobre as de Deus, e este, invocado a segui-las. A ciência caminha na paralela, sem se importar com isso.

Existe vida após a morte? De onde viemos? Para onde vamos? Na nossa vã filosofia não conseguimos explicar o que para muitos seria inexplicável. Conceituando “vida”, o estado de atividade funcional da matéria orgânica, nada existe depois da morte, além de substâncias em transformação. Quando o homem dorme, as informações armazenadas na sua mente se manifestam através dos sonhos, daí a falsa ilusão de que o espírito sai do corpo – a má interpretação desse conjunto de imagens, ideias, etc., surgidas durante o sono, provoca a construção de mundos metafísicos e acreditamos que deles fazemos parte indissolúvel. Tudo é mente; que cria o conceito de ‘Céu’ e deturpa o sentido de ‘Inferno’. Talvez assim possamos amenizar a dor da morte, ainda que vivamos e nos comportemos como se a vida carnal fosse eterna.

Por prepotência, nos consideramos criação divina, um ser especial, diferentemente das plantas e dos animais irracionais, que também nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Se ao menos pudéssemos fazer uma rápida viagem pro “outro lado” e depois voltar trazendo informações concretas do “abstrato”, poderíamos continuar vivendo com algumas certezas. A humanidade, refém de si mesma, tenta descobrir outros mundos, mas o universo não responde. Continuamos viajando no tempo e no espaço em busca do conhecimento e quanto mais nos aproximamos dele, compreendemos que os caminhos ainda a percorrer, surgidos à nossa frente, apresentam-se longínquos. A Ciência tenta seguir rotas alternativas, contudo, diante de bifurcações ou cruzamentos perigosos, constata que uma força maior comanda os seus passos.

Talvez as respostas que tanto buscamos não passam do limiar da nossa compreensão, porque ainda não entendemos o significado da nossa própria existência – a incompatibilidade decorre desse processo; daí afirmar que fica difícil estabelecer um meio-termo entre ciência e religião, porque as leis políticas fazem cada qual defender suas verdades, enquanto Deus, à distância, não conseguiu evitar que Karol Wojtila (João Paulo II), conhecido como “O Papa viajante”, sofresse um atentado na Praça de São Pedro em 1981, quando o turco Ali Agka o atingiu com dois tiros. Por ironia, a ciência o salvou!

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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