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Crônicas Aforísticas

Lixo humano – 1ª parte

Lixo humano – 1ª parte

A propósito do evento RIO + 20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a ser realizado na cidade do Rio de Janeiro, de 20 a 22 de junho de 2012, portanto, daqui a 37 dias, volto a me preocupar com as agendas de discussões trazidas pelos países participantes, sobretudo por parte do bloco do primeiro mundo. Acredito não diferentes de encontros similares outrora acontecidos, quando constatamos intenções angelicais próprias de quem defende o planeta como reserva de mercado; quando comprovamos discursos de cunho informal sem garantias de cumprimento legal. Ao bater dos tamborins, a festa promete ser boa, com direito a refresco de banana, presença de políticos honestos em campanha e exposição do jogador Neymar da Silva Santos Júnior como produto sustentável.

Os gases provindos de fogueiras internas para cozimento matam mais de 2 milhões de crianças por ano no mundo em desenvolvimento. O futuro da energia no planeta e a imperiosa necessidade que aconteçam “milagres” para se evitar uma catástrofe planetária. Compromisso com a emissão “Zero” de carbono no mundo até o ano de 2050. Mudanças climáticas radicais. O papel das florestas para alcançar uma economia verde. A biodiversidade em perigo iminente. Será que alguma autoridade presente ao evento RIO + 20 estará preocupada com isso; além de tantos outros temas de vital importância e igual gravidade, que aguardam soluções, sem as quais a sobrevivência da humanidade estará comprometida? O que acontecerá com as próximas gerações?

Dez anos faz que escrevi matéria de título “Lixo humano”, dividida em três partes, movido por uma profunda indignação com o ser humano concernente ao desrespeito com o meio ambiente. Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente realizada na cidade de Estocolmo, capital e maior cidade da Suécia, no ano de 1972 (há 40 anos), definiu-se o Meio Ambiente: “O Meio Ambiente é o conjunto de componentes físicos, químicos, biológicos e sociais capazes de causar efeitos diretos ou indiretos, em um prazo curto ou longo, sobre os seres vivos e as atividades humanas”. Desta sorte, podemos simplificar dizendo que o Meio Ambiente é o local, o lugar onde vivemos e que, dependendo dos impactos que lhe causamos, extraímos vida ou morte. Transcorridos dez anos, nunca um tema abordado está tão atual.

1ª parte

Morávamos em Manaus, capital do Estado do Amazonas – para quem não se lembra de geografia, o que é comum –, lá pelos idos da década de 90. Até aí, nada mal; até descobrirmos que por lá, outros espécimes de brasileiros perambulavam e outros tantos com residência fixa. Gostamos de folclore. O Brasil é rico em cultura festiva. Uma vez por ano, no mês de junho, acontece o Festival Folclórico de Parintins, o “Boi-bumbá”, derivado do “Bumba-meu-boi”, levado para o Amazonas pelos maranhenses na época áurea do ciclo da borracha, e lá, se mesclou com a cultura indígena. As más línguas, e as boas também, dizem que os maranhenses eram mais resistentes às picadas dos insetos amazônicos e, comprovadamente, imunes aos animais peçonhentos, além de não reclamarem tanto do salário, segundo o ex-presidente José Sarney. Os “sulistas”, de Minas para baixo, só queriam comer as silvícolas e as suas descendentes; nada de se embrenhar nas matas; nada de exploração de borracha – só sexo e comer pirarucu, depois de pescado, abatido, limpo e preparado ao estilo.

Cumprindo promessa – não a santo, mas à minha companheira –, entramos numa dessas gaiolas de madeira que navegam pelos rios da região e partimos de Manaus, com bom estoque de Uísque, rumo a Parintins, cidade amazonense ribeirinha, banhada pelo rio Amazonas, distante da capital quase quatro centenas de quilômetros; fica pertinho da divisa com o Estado do Pará. Devidamente alcoolizados, eu e a minha companheira inseparável (até no copo), não só pelo motivo da curtição, sobretudo porque descobrimos que barco de madeira não era coberto por nenhuma seguradora; pelo menos não o era até aquela altura. Se morrêssemos, os nossos herdeiros ficariam desamparados. Em terra firme, defendi uma tese sobre isso e fui ameaçado de morte pelas seguradoras, mas os espíritos dos índios me salvaram.

Na viagem de 36 horas, infelizmente com brasileiros a bordo, indispus-me com um grupo de porcalhões que atiravam latinhas de cerveja dentro do rio Amazonas. Tambaquis, surubins, pacus, pirarucus, dourados, tartarugas, jacarés e outros peixes, ou outros animais campeões ou não de natação, não comem latinhas de cerveja, nem bebem o seu conteúdo. Não fosse o meu compromisso, já firmado com os repórteres da TV Amazonas para que concedesse entrevista exclusiva sobre o evento, eu teria arrebentado a cara de todos eles, caso não me obedecessem a parar com aquela prática intolerável. Pois bem, antes que todos os holofotes fossem ligados, chamei o capitão do barco – que estava mais alcoolizado do que eu – para que exercesse o seu papel de comandante e colocasse fim naquilo tudo. Até então achava que o alcoolizado capitão, assim como eu, era um ferrenho defensor da natureza, um indivíduo, portanto, ecologicamente correto, ou quase. A fauna, conjunto dos animais próprios de uma região que jamais comem latinhas de cerveja, agradeceu antecipadamente. Lembro que só os macacos treinados bebem o conteúdo das latinhas como atração circense – tem cavalo também bebendo Coca-Cola diretamente nas garrafas. Mau exemplo!

Terminada a entrevista, percebi que o bafo de cana, que saía da boca do velho capitão, convenceu os temporariamente ex-porcalhões a depositar as latinhas de cerveja, vazias, dentro de um saco. Enfim, passamos aquela noite com total descontração. Ninguém conseguia dormir, por dois motivos, já esperados: primeiro motivo, tamanho o ruído provocado pelos animais de hábitos noturnos que vinha das águas turbulentas do rio Amazonas e da distante floresta; segundo motivo, muita festa a bordo da embarcação de madeira – eu disse festa, não orgia. Tinha um grupo cantando toadas de Boi-bumbá. Um dos cantores, o nosso amigo Rainier de Carvalho, era o mais amedrontado. As dançarinas não estavam nem aí.

Amanheceu. A alvorada foi anunciada. Impelido pela fome, minha e dos outros participantes da roda, desci até o porão com a triste missão de subornar o auxiliador do auxiliar de cozinheiro – ele é o único da tripulação que não dorme porque fica comendo e bebendo o que há de melhor na despensa –, para que me fornecesse algumas iguarias. Não paguei nada por isso porque ameacei denunciá-lo ao chefe. Foi aí que eu vi o Capitão do barco, que também não dormira (era cúmplice do auxiliador de cozinha), despejando, sim, ele próprio, estava jogando dentro do rio Amazonas aquele dito cujo saco, repleto de latinhas de cerveja. Entre um gole e outro, o desgraçado do auxiliador de cozinha também arremessava dentro do rio as embalagens de plástico que encontrava pela frente (garrafas Pet, pratos, talheres e copos descartáveis, canudos, enfim, até as embalagens de frangos congelados). Perdi a fome… Quis me matar! Os macacos treinados não deixaram.

Subi ao convés, encontrei minha mulher debruçada sobre o parapeito. Contei-lhe aquela história macabra e combinamos mudar de barco, tão logo surgisse outro. A rota Manaus até a ilha de Parintins estava congestionada e não demorou muito para aparecer um. Era um iate. Que maravilha! Acenamos, e tudo bem! Os capitães entenderam-se e em poucos minutos o nosso barco foi abalroado pelo iate. Quando íamos pular, percebemos que os seus “habitantes” jogavam as latinhas de cerveja dentro do rio. Pulamos sim, só que dentro do rio Amazonas e fomos a nado até Parintins.

Noutro dia, ainda tendo como cenário o Estado do Amazonas, na estrada que liga Manaus à cidade de Itacoatiara, o motorista do carro da frente simplesmente jogou uma lata de cerveja na estrada – o pessoal de lá bebe muito, talvez pela forte sensação de calor, ou porque gostam do bafo do álcool, ou, para tomar coragem no ato de colocar os tracajás vivos sobre as brasas –, só que a dita cuja lata de cerveja, antes de cair no chão, bateu no para-brisa do meu carro que vinha logo atrás e quase fui parar no braseiro junto com os tracajás. Fiquem calmos; tracajá é uma pequena tartaruga. Não me perguntem mais nada. É caso de polícia eu sei, mas também é conivência do IBAMA. Vamos esquecer, momentaneamente, a cultura dos índios e das pessoas que bebem cerveja em lata. Os tracajás são assados vivos em braseiros, de casco para baixo, e as suas perninhas ficam balançando como estivessem dando adeus.

Roraima, Rondônia, Acre, Pará, Amapá, são outros Estados que compõem a região Norte do Brasil – perdão, esqueci-me do Estado do Tocantins. Parece que quem não conhece geografia sou eu. As experiências vividas por lá, no que tange ao tema abordado, são de tal monta numerosas que me obrigaria a relatá-las por um período de tempo não menos inferior a 587 dias – penso em 589 –, caso o fizesse. Como há uma possibilidade real de voltar a morar por aquelas bandas, tenho que pegar leve. Até porque, gostamos de comer filé de pirarucu à moda e de outros peixes também, e, por motivos óbvios, detestamos tracajás, principalmente os assados, vivos, em braseiros. Dá pena de ver! Quem gosta de ver, por instinto sádico, eu conheço poucos, mas, gostar de comer, conheço muitos. Não critico quem aprecie uma das duas coisas por respeito à cultura. Antes, como tenho pena de mim, também tenho pena dos infelizes tracajás, por respeito à espécie, coisa que pouca gente tem, lá por aquelas regiões cobiçadas; podem ter a certeza disso. O importante é salvar a nossa pele.

De volta à civilização. Por onde quer que andem ou passem os seres humanos, os exemplos de porcaria, imundície, sujeira e coisas malfeitas multiplicam-se geometricamente. São centenas, são milhares, milhões de casos acontecendo a cada instante, registrados pelos olhos da natureza, e esta, algum dia, rebelar-se-á contra tudo isto. Gosto muito de exemplos, mesmo sabendo que, às vezes, eles não servem pra nada, só pra encher o saco de quem anda errado. Não é verdade? Mas, de quem anda certo também. Quem paga a conta, nessa história toda, é a mãe natureza; que se mantém calada e assustada. Até agora.

De volta à civilização dos socialmente corretos – é assim que dizem os nascidos da linha de Salvador para baixo, quando saem da região amazônica –, contemplamos praias magníficas, desde o litoral da Bahia, passando pelo Espírito-santense, até o gaúcho, considerando apenas o conjunto água, ilhas, montanhas, vegetação, fauna, linha do horizonte e céu. De norte a sul, de sul a norte, as areias são umas grandes merdas, sob o ponto de vista da não menos magnífica exibição de “lixos”, produzidos incansavelmente pela sociedade organizada: cocos inteiros com ou sem água, cocos partidos, canudos de plástico, copos descartáveis, copos de vidro quebrados, copos de vidro inteiros, pratos descartáveis, pratos de porcelana quebrados, pratos de porcelana inteiros, garrafas descartáveis, garrafas de vidro quebradas, garrafas de vidro inteiras, embalagens de biscoitos sem biscoitos, embalagens de biscoitos com biscoitos, só os biscoitos, pães dormidos ou frescos, papéis e palitos de picolés, jornais inteiros, jornais em pedaços, idem revistas e outros escritos, espinhas de peixes, peixes podres ou frescos, cascas de siris e caranguejos e de outros crustáceos, guardanapos usados, guardanapos limpos, palitos usados, palitos virgens, restos de comida, ossos de frangos fritos, ossos de frangos assados, ossos de galinhas ensopadas, merda dura de cães, merda mole de cães, merda dura de gatos, merda mole de gatos, merda dura e mole de outros bichos, merda dura e mole do bicho homem, maços vazios de cigarros, maços de cigarros cheios de pontas dos mesmos, pontas de cigarros acesas, pontas de cigarro apagadas, brinquedos quebrados, camisinhas com esperma, camisinhas sem esperma, seringas descartáveis com drogas (com e sem agulha), seringas descartáveis sem drogas (sem e com agulha), animais mortos, quase mortos ou fingindo, catarros e vômitos generalizados, restos de roupas de cima, restos de roupas de baixo, latas de cerveja com e sem líquido, latas de refrigerantes com e sem líquido, despachos de macumba, estátuas de santos, mijo em estado real, mijo evaporado, rolhas metálicas de garrafas de cerveja, panfletos, comunicados, propaganda política, lixo nacional jogado por navios e embarcações de bandeira nacional; lixo internacional jogado por navios e embarcações de bandeira internacional, etc, etc, etc. Só não se acha dinheiro!

Tudo isto convivendo lado a lado com o homem, por sua opção, por sua escolha, por sua inteira criação. Tenho a certeza de que não só os baianos, como os capixabas e os espírito-santenses, como o resto da população que vive no litoral, vão me perdoar, porque esta lamentável situação é um retrato-falado de todas as praias, indistintamente. Qualquer manifestação de bairrismo só irá agravar o quadro, assim como agravam os porcalhões de final de semana. É claro que existem raríssimas exceções, momentâneas. O Rio de Janeiro, São Paulo, a Bahia, os Rios Grandes do Sul e do Norte, Alagoas, Pernambuco, Ceará, Pará, Maranhão, e os demais Estados brasileiros banhados pelo mar têm muito que se envergonhar. Os quadros assemelham-se no geral, na verdade, não diferem muito um pelo outro. O litoral brasileiro, apenas, foi escolhido e pego como bode expiatório – o pior ainda está por vir. O banho de mar deixou de ser prazer, virou aventura. Contudo, onde houver praias, mares e oceanos; onde houver rios, lagos, igapós e igarapés; onde houver água potável ou não; onde houver matas, florestas e matagais; onde houver terra para pisar; onde houver ar para respirar; onde houver animais indefesos ou agressores por instinto; onde houver natureza; ou melhor, onde houver humanidade racionale desta provêm os homens porcos –, os rastros, os vestígios, as pegadas, os indícios e os sinais da desolação, da devastação, da ruína, da consternação e da tristeza profunda, far-se-ão provas indeléveis e irrefutáveis da sua existência, da presença do homem ou da sua passagem. Até quando? Não sabemos. A resposta, de que serviria, se não sabemos ao certo quem somos? Se soubéssemos, de que adiantaria? Não sabemos. A vida efêmera passa. O planeta sujo, este fica, para quem nasce limpo, ou quase.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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