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Crônicas Aforísticas

Lixo humano – 2ª parte

Lixo humano – 2ª parte

Domingo não é dia de se ler nada. Domingo é dia de ficar de pernas pro ar (ou de cabeça pra baixo, para quem preferir), tentando degustar a carga excessiva de informações, quase úteis, acumuladas na semana de cinco dias que passou. Sábado, a rigor, é dia de encher a cara, e bem, independente de convite. Quem preferir hibernar no sétimo dia, de descanso divino, que o faça, por merecimento próprio; se não for inútil.

O último domingo não foi diferente. Fiz o que tinha que fazer. Obedeci algumas ordens da minha mulher; depois me escondi no quintal pra espantar os bem-te-vis que todas as manhãs vêm comer as jabuticabas, caso contrário, não sobra nada para mim. Os bem-te-vis só enchem a barriga cinco dias na semana. Sábado, eles semeiam a natureza, enquanto bebo. Neste domingo eles pretenderam quebrar as regras, atraídos pela boa safra de jabuticabas, mesmo porque pássaros não hibernam – e conseguiram quebrá-las.

Costumo comprar todos os jornais de domingo para os outros lerem, independentemente da facção ideológica. As páginas que sobram, leio-as homeopaticamente até quarta-feira. Na terça, ainda dentro do prazo da leitura semi-obrigatória, encontrei um pedaço da “página 30. Rio” do jornal O GLOBO; acredito que ainda dentro do primeiro caderno, que é subdividido em várias partes, misturadas nas outras partes restantes pelos jornaleiros, e que a gente perde tantas partes do dia para organizá-las, para depois ler em partes, ou parte das partes. Naquele fragmento de jornal, a manchete saltava aos olhos: “Carioca joga 39% do seu lixo na rua”. Muito embora saibamos que a maior lata de lixo é o chão, porque nunca falta espaço para mais um papel amassado, ou coisa descartada. Exigirei daquele periódico a publicação de uma errata: “A população do Rio joga 39% do seu lixo na rua”. Não é só carioca que é porco! Ora bolas! Entenda-se por ‘população’ o número ou o conjunto dos habitantes de um país, estado ou cidade, etc, portanto, quando falamos na cidade do Rio de Janeiro, nela estão contidos os que nasceram em outros municípios do estado do Rio de Janeiro, pessoas oriundas de outros estados da federação e os estrangeiros, que, no conjunto, também jogam lixo nas ruas.

Para nove, entre dez brasileiros, lugar de lixo é nas vias urbanas, abrigado ou não do sol ou da chuva, do vento, da poeira, do homem, porque é lixo; lixo, porque é a “mistura das sobras” do consumo comercial obrigatório do homem – ensacadas ou avulsas – que o faz assim, sem preconceitos, sem senso de estética, sem pudor, sem educação, porque é homem, um ser pensante, imortal, eterno, um Deus acima de qualquer coisa viva ou morta, como ele, produto acabado da insensatez.

Continuo afirmando que não é só carioca que é porco! Se não conhecesse o Brasil de cabo a rabo, rasgaria em pedacinhos a minha certidão de nascimento. Continuo Carioca, mesmo que a mídia me convença que “Carioca joga 39% do seu lixo na rua”. Na verdade, quem joga lixo na rua – Carioca ou não – deveria comê-lo ou guardá-lo debaixo da cama, deveria usá-lo como peça de decoração, enfim, esta grande parcela de desqualificados e porcalhões deveria ser jogada junta com o lixo, porque não se diferencia dos detritos lançados à própria sorte. Detritos também podem deixar de ser lixo, quando selecionados e reciclados – como deveriam ser os homens porcos, Cariocas e de outras naturalidades, tendências sexuais ou facção político-ideológica. Cada detrito tem a sua função específica neste planeta e o homem parece que ainda não conhece a sua.

A matéria revelou um dado assustador: “Por dia, 3.200 toneladas são recolhidas fora das latas e cestos”. Este número deixa de ter importância e o quanto ele representa em termos percentuais sobre o total do lixo produzido diariamente pela cidade do Rio de Janeiro. O que está em jogo não é a defesa de tese estatística, mas sim o lado conceitual do problema. Estava demorando muito para a imprensa trazer à tona esta importante questão, que tanto incomoda os que se julgam limpos e denigre a nossa imagem de Carioca, dantes, referência de cultura e comportamento. É lixo errante, e outras espécies de sujeira, convivendo pacificamente conosco, lado a lado e não nos damos conta. Este não é um problema exclusivo da cidade do Rio de Janeiro, é dos brasileiros, independente dos níveis cultural e educacional, ou dos níveis pessoais de sujeira. O efeito multiplicador daquelas 3.200 toneladas no restante do Estado do Rio de Janeiro e, por extensão, em todo o país, pode trazer consequências catastróficas, sobretudo na questão da saúde pública, provenientes da poluição ambiental e atmosférica. Portanto, vamos deixar o bairrismo e a hipocrisia de lado. É prudente. Lixo é lixo, merece o nosso respeito. Imaginemos o resultado desses milhares de toneladas de lixo jogadas nas encostas dos morros, nos esgotos, nos canais, em meio a temporais.

A ordem do dia é gritar por socorro, antes que o lixo caia sobre nós e sejamos confundidos com ele. Por onde quer que andem os seres humanos, os exemplos de imundície multiplicam-se geometricamente. São centenas, são milhares, milhões de casos acontecendo a cada instante, registrados pelos olhos da natureza, e esta, algum dia, rebelar-se-á contra tudo isto. Onde houver praias, mares e oceanos; onde houver rios, lagos, igapós e igarapés; onde houver água potável ou não; onde houver matas, florestas e matagais; onde houver terra para pisar; onde houver ar para respirar; onde houver animais indefesos ou agressores por instinto; onde houver humanidade racional, os rastros, os vestígios, as pegadas, os indícios e os sinais da desolação, da devastação, da ruína, da consternação e da tristeza profunda, far-se-ão provas indeléveis e irrefutáveis da existência do homem, da sua efêmera passagem por este planeta. Repito.

O descaso generalizado, a comprovada negligência e o contínuo desinteresse de todos, indistintamente, ocultaram esta realidade, por receio da possibilidade de algum dedo ser apontado bem na direção do nosso próprio nariz, sem piedade, e com todo o rigor, nos acusar veementemente: “Você também é porco; você também é culpado”. Você pertence ao grupo dos nove, entre os dez brasileiros. Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra e, na falta dela, que atire o seu lixo de estimação.

Leis sem autoridade – outra lamentável realidade. Em 6 de setembro de 2001 foi sancionada pelo Prefeito do Rio, César Maia, uma lei municipal para punir as pessoas que sujam as vias públicas, ou seja, os porcalhões, os “sujismundos”. Mas que lei é essa que ninguém a conhece? Qual o seu nº, o seu código, alínea, parágrafo, enfim, que lei é essa? Em qualquer nível de administração pública, nenhuma lei é de difícil aplicabilidade, basta divulgá-la em primeira instância e depois exercer o poder de polícia, do qual, se espera que as autoridades sejam e estejam imbuídas. As leis não funcionam quando a população não tem espírito de cidadania, tampouco consciência plena dos seus direitos e obrigações. Quando o desmando é total e generalizado, vontade política só não basta para a resolução dos problemas. Faltam ações, repressão, penas severas e não multas, respeito e atitude legal.

De cada dez brasileiros, nove são porcos, de livre vontade ou por necessidade de imitação. Fica difícil para o único brasileiro limpo cobrar dos outros nove, sujos, uma postura de civilidade e urbanidade, sobretudo quando se sabe que o problema transcende à questão da falta de educação, desrespeito à natureza e ao seu habitat. É uma baderna só. Há saída? Alguma porta abrir-se-á, para que alguns saiam e outros entrem. Querer mudar ou aceitar a mudança? De que adianta discordar do descaso das autoridades ou simplesmente concordar com ele, o descaso, fazendo uso da omissão? As atuais regras de comportamento em sociedade, fizeram do errado, regra, e tornaram o certo, exceção. Na questão de sujeira, as classes menos favorecidas pelo capital perderam alguns privilégios.  As classes médias e os mais ricos aderiram também à ideia de maltratar o lixo e de não tratá-lo com o devido respeito, como cidadão lixo. Lixo cidadão. Acabei de sair de um posto de gasolina e tive o desprazer de ver um ‘bacana’ jogando no chão do posto (diga-se de passagem, estava mais limpo do que a sala de estar de muita casa) uma sacola de papel com logo do Bobs contendo copo, canudo, guardanapo, a embalagem do sanduiche com pedaços de sanduiche não comidos ou cuspidos, alguns palitos de batata frita ou coisa que o valha – sei disso porque ventava muito na hora e espalhou tudo. O frentista chamou a atenção do ‘bacana’ e quase levou uma bordoada.

Rio sem lei. Brasil sem lei. A “Ordem e Progresso” cedem lugar à “Desordem e Atraso”. Se cada um não fizer a sua parte e não houver cobrança mutua – população e governo –, as leis deste país continuarão sem autoridade nenhuma. Seremos os mesmos de sempre, e talvez permaneçamos na prática do errado, achando que é o certo. Isto é certo, sem dúvida. Quem duvida? O errado é quem faz o certo. Errado? Vamos levando. Fazer o quê? E aí, José? Fazer o quê? Por si só, meras, puras e simples sugestões não resolvem absolutamente nada. Ideias viram discursos momentâneos – entram por um ouvido e saem pelo outro. Se não houver uma conscientização geral, nenhum programa educacional terá seu efeito prático e desejado. Estou convencido (o Lula usa muito esta expressão – até em demasia –, convicto, persuadido, cheio de si, presunçoso que todos que o ouvem compartilharão com ele as mesmas ideias), após estudos comportamentais, que se torna cada vez mais difícil dar sugestões, e como, mesmo “convencido” que sou o único limpo no meio de dez – no meu julgamento.

Quer ver uma coisa? Vou listar, abaixo, dez sugestões, se implementadas, ajudarão a reduzir sensivelmente o problema do “lixo sem dono” que vagueia, anda ao acaso, pelas cidades brasileiras, mesmo “convencido” que serei taxado de maluco; sei lá, adoidado, sem juízo, pessoa estróina, desequilibrado, enfim, tudo, menos de santo, de cientista planetário, de cidadão brasileiro, ou coisa que o valha – já estou devidamente vacinado contra o lixo.

Primeira, adicionar, obrigatoriamente, ao currículo escolar dos ensinos básico e fundamental, matéria relacionada à Higiene e Limpeza, seja no campo pessoal, no grupo social ou coletivamente, e estudo objetivo das suas consequências no meio ambiente e no destino do planeta.

Segunda, estimular os próprios moradores a promoverem a limpeza de seus quintais, da sua rua, dos terrenos baldios, sistematicamente, através de campanhas articuladas pelas Prefeituras Municipais, num sistema de parceria, que faculte aos mesmos moradores o retorno dos seus esforços em forma de redução de impostos (IPTU), doação de cestas básicas (sem retorno de votos), de remédios e outros benefícios. Convocar as Associações de bairros.

Terceira, todos os meios de transporte, inclusive veículos particulares, seriam obrigados a portar lixeiras e/ou coletores de lixo com design apropriado para cada um, especificamente. Algumas empresas de ônibus já aderiram ao programa, porém, faltam divulgação e campanhas educativas. Como ando de ônibus, percebo que muitos usuários continuam jogando lixo pelas janelas dos coletivos. Alguns coletores são inadequados, sobretudo pelo pequeno tamanho.

Quarta, fazer da reciclagem uma realidade presente, como prioridade indiscutível, envolvendo todos os setores da sociedade organizada, os empresários e governos. Tratar o lixo de forma seletiva (prevista em lei) no âmbito doméstico e coleta pelas Prefeituras Municipais, como forma de promover uma fonte inesgotável de renda e receita. O meio ambiente agradece.

Quinta, por toda a cidade, a cada 100 metros, instalar uma lixeira e programar o serviço de coleta diariamente.

Sexta, punir severamente os “sujismundos”, estejam eles classificados na categoria dos descarados ou dos sonsos. Aqueles que forem pegos em flagrante delito deverão prestar serviços à comunidade, que vão desde a limpeza imediata da sujeira que eles mesmos fizeram (para isto, a força policial tem que ser mais limpa do que eles, para se habilitar ao uso da força, e, claro, com o aumento do seu efetivo, caso contrário vai faltar policial e sobrar porco; neste caso, a população civil também precisa estar cônscia), até mesmo exercerem as funções de gari – devidamente uniformizados –, por um período mínimo de uma semana de trabalho árduo que, geralmente, não é reconhecido pela maioria dos porcos.

Sétima, puxar a descarga e deixar o planeta Terra ser sugado pelo vaso sanitário universal.

Oitava, reunir uma comitiva formada pelos limpos e mudar para outro sistema solar, deixando para trás os seres humanos porcos, que já estão totalmente adaptados à pocilga chamada Terra. Os animais, classificados como porcos, não embarcarão na espaçonave.

Nona, na possibilidade da não realização das sugestões sétima e oitava, convocar o Duda Mendonça (este indivíduo foi o culpado pela vitória do Lula) para desenvolver uma campanha publicitária que convença o Tio Sam a ficar ganancioso pelo lixo dos brasileiros e deixar o petróleo dos iraquianos em paz. Segundo previsões, países europeus mandarão o seu lixo para o Brasil, seja ele classificado como atômico, hospitalar, ou de diferentes origens. Há quem veja o Brasil como uma grande lata de lixo mundial.

Décima, pedir a Deus que nos proteja e salve, postados de joelhos e olhos cerrados, enquanto não nos tornemos lixo humano – não reciclável.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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