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Olha como você está se expressando!

Olha como você está se expressando!

Estava observando a minha nora conversando com um parente ao telefone, não que estivesse interessado no assunto, mas, por mera curiosidade. Eu juro! Chamou-me a atenção o número excessivo de perguntas que ela fazia à pessoa que estava do outro lado da linha – confesso que perdi as contas. Uma dessas perguntas foi a seguinte: “Você não quer vir aqui em casa não?”. Observe que nesta interrogativa a palavra NÃO foi empregada duas vezes, o que sugere que a pessoa, para qual foi dirigida a pergunta, ou neste caso o convite, de antemão, ficou estimulada a responder simplesmente NÃO, valendo-se do mesmo expediente: “Não, não quero não!”. É muito “não” para pouco resultado comunicacional. Ficaria melhor se a minha nora dissesse: “Dê um pulinho aqui em casa para conversarmos, a galera está toda aqui, venha.”. Nesse caso, o estímulo-resposta seria positivo e o intento alcançado. Tenho observado que nem sempre os programas de treinamento adotados pelas empresas comerciais citam o problema do uso indiscriminado da palavra “não” no diálogo entre a equipe de vendas e os clientes, aumentando de forma considerável o risco do negócio, distanciando o fechamento da venda com êxito. Mas, este tema será explorado com mais propriedade em artigo futuro.

Há um fenômeno interessante nesse processo, estamos o tempo todo “pensando” com tanta rapidez que perdemos o sentido das palavras e a sua colocação no texto, seja oral como escrito, fica sobremodo comprometida, a ponto de prejudicar o feedback e, o que é pior, podemos ser mal interpretados. O mundo está assim mesmo no início deste 3º milênio; é uma correria só, parece um cavalo de corrida no Hipódromo da Gávea – quem não tiver boas pernas fica para trás. Todos, invariavelmente, já passaram por essa experiência, de sorte que você não deve se sentir o único apontado. Um dia desses um cliente me convidou para almoçar: “Você não quer almoçar comigo não?”. Parecia a minha nora falando. Pelo visto isso pega! A minha resposta todos vocês devem imaginar qual foi. Seria positiva se tivesse dito: “Almoce comigo, precisamos colocar o papo em dia.”. Tudo fica mais fácil e o mundo cor de rosa quando simplificamos as coisas. Agimos como macacos de imitação, absorvemos modismos e criamos regras próprias, porém, todo o cuidado é pouco nas tratativas.

No mundo corporativo a coisa não é muito diferente, todavia, a preocupação deve ser maior no tocante às formas de se expressar. Às vezes, para um bom entendedor meia palavra não basta. Por enquanto não pretendo me ater no conteúdo, considerando as regras gramaticais e linguagem técnica que influenciam diretamente na qualidade da comunicação. As pessoas estão ficando cada vez mais acostumadas a responder perguntas, e mal. Uma pessoa pergunta de um lado e a outra responde do outro, ambas valendo-se de palavras isoladas, soltas, frases resumidas, parágrafos sintéticos, e isso acaba virando a tônica do processo de comunicação, o ‘modus operandi’ incidente nas relações. Os funcionários, colaboradores por excelência, que não se prendem com “detalhes supérfluos”, a seu juízo, podem deixar escapar importantes informações para uma tomada de decisão.

Será que estamos perdendo a capacidade de descrever fatos, de contar histórias, de nos expressar corretamente? A influência das redes sociais é preponderante. Entramos no Facebook e de repente estamos conversando com 10 pessoas ao mesmo tempo, ou mais, e então somos obrigados a “entrar no jogo” das comunidades virtuais, o que nos torna limitados no emprego da língua portuguesa, o raciocínio fica confuso, as bolas são misturadas e dane-se o entendimento na plenitude desejada. Dos internautas é exigida pressa na comunicação, caso contrário os “molengas” são excluídos do grupo. Estamos levando esta cultura para o nosso dia-a-dia e, sem que percebamos, vira rotina.

Um dia desses sentei-me ao lado de uma amiga e pude comprovar as teorias descritas acima. Perguntava sistematicamente na rede: “Tudo bem?”“O que você está fazendo agora?”“Saiu ontem à noite?”“Mesmo namorado?”“Rolou?”“Há quanto tempo não pinta?”“Está bebendo o quê?”“Tem companhia?”“Qual é?”“Vamos nessa?”. Anotei as dez respostas dadas por um dos seus contatos femininos: “Legal”“Xavecando”“OK”“Troquei”+ ou “Sei lᔓVeneno”“Vizinho”“O teu”“Fique aí”. Cheguei à conclusão que os personagens dessa trama muito provavelmente sentem dificuldades no trabalho quando são solicitados a redigir um e-mail cujo assunto requer certo desenvolvimento da ideia central, um texto mais elaborado. Passado um mês, reencontrando a referida amiga, ela confirmou a minha suspeita. Por outro lado, cabe ressaltar que talvez não seja falta de competência, mas sim que desaprenderam a “fazer” o certo, ensinado nos bancos das escolas.

Ah! Bons tempos aqueles que se podia sentar para fazer narrativas, interpretações, escrever contos e redações – tópicos frasais recheados de boas lembranças. Isso é passado, agora, a atual geração “está em outra”, surfando nas ondas cibernéticas, tentando se equilibrar na prancha da modernidade e fugindo para não ser abalroada por uma velha traineira. Desse modo, outras noras e genros continuarão perguntando: “Você não quer provar deste salgadinho não?”. Dessa forma, amigos e amigas insistirão em economizar palavras quando se comunicarem através das redes sociais. Diante disso, as corporações encontrarão um meio de se adaptarem à metodologia comunicacional inventada pelos internautas e afins.

Frase do dia:

“O melhor caminho para o entendimento é o diálogo”.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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