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Crônicas Aforísticas

20ª Crônica

20ª Crônica

De volta pra casa – 2ª parte

Entrei no primeiro bar porque me deu uma vontade incontrolável de beber uma cerveja preta, desde que fosse amarga. Pintou um clima, uma onda de saudosismo que tomou conta de mim naquele momento. Queria a todo custo beber uma cerveja barriguda do tempo do meu pai e avós. Lembro-me que ia comprar, nos anos 50, no botequim da dona Preciosa, as marcas Black Prince, Pan-americana, Brahma Porter, Brahma Hércules, enfim, outras também de menor fama. Fiquei na saudade porque não existem mais tais marcas no mercado.

O que é bom um dia acaba por falta da continuidade cultural. Contentei-me em beber uma Malzbier, mesmo, de sã consciência, sabendo como é produzida: cerveja clara com adição de caramelo industrial ou cervejeiro, como queiram. Se a Malzbier foi inventada por algum mestre cervejeiro para não jogar a cerveja clara no ralo, julgada inservível para consumo, eu realmente não sei. Só sei que dá leite, segundo contam as mulheres que amamentaram seus filhos diretamente nos seios, enquanto seus maridos se alimentam a seu modo. Para se ter uma idéia, a cerveja Caracu é feita com um malte especial, açúcar também, é de alta fermentação, mas, infelizmente, o boteco estava com estoque zerado. Faltou trabalho de reposição por parte do vendedor. Pedi a segunda Malzbier, só pra lembrar os grandes seios amamentando.

Do meu lado direito, sentado estava um cara, que não conseguia esconder o seu “estado de putez”, ou seja, puto extremo. Disse que trabalhou quinze anos numa empresa da qual foi demitido faz dez dias. Quando foi fazer os exames demissionais de praxe, ele se sentiu um estranho aos olhos dos seus ex-colegas de trabalho – gente que conviveu com ele nessa década e meia, já não era a mesma pessoa. Pediu a décima segunda cerveja. Pelo visto, vai gastar toda a sua indenização num porre só.

O cara que estava sentado do meu lado esquerdo, socando o balcão, comentava: “Aquele pedreiro, filho de uma grande puta, levou 50% do orçamento da obra e nunca mais voltou. Bem-feito pra mim, porque esse dinheiro eu peguei emprestado com a minha sogra, jurei não pagá-la, mas sei que a infeliz não me deixará em paz”. Só tinha bebido quatro garrafas.

Notei que entrara no bar um indivíduo querendo também desabafar com alguém e, como eu queria ficar de fora das discussões, tratei logo de me mandar.

Andava devagar e, no caminho, reflexões e um pensamento atrás do outro sobre a vida de um modo geral. Não conseguia chutar as pedras encontradas no trajeto porque o meu par de tênis nem biqueira tinha mais de tão surrado. Quando o dia parece ser diferente dos demais, a gente fica se masturbando mentalmente. Veja só o caso da violência urbana; colocar a cadeira na calçada – como no tempo dos nossos avós –, para prosear com os vizinhos ou mesmo pra tomar uma fresca é, absolutamente, um ato de alto risco, porque bala perdida sempre acha um dono. A liberdade para alguns é sinônima de baderna. A rotina do brasileiro é sacanear os outros, sempre, e achar que nunca vai ser sacaneado. A transferência de responsabilidade é um fato. Jogá-la pra cima dos outros, quando se tem culpa no cartório, é expediente corriqueiro. Não adianta cobrar do governo soluções para muitos problemas sociais que nós próprios criamos com a nossa intransigência. A capacidade de mudança está dentro de cada um de nós. Cacete!

O que fazer, então, para mudar ou aceitar a mudança sem revolta? Não basta, apenas, cada qual fazer a sua parte. O buraco é mais embaixo; podem crer. O processo educacional está em julgamento. Todos cobram os seus direitos, mas, infelizmente, não têm noção dos seus deveres. Deveres? O exercício da cidadania parte do pressuposto, do prévio conhecimento, dos limites entre direitos e obrigações. Onde termina o meu espaço e começa o do vizinho? Comportamentos individuais e coletivos são alvo de profunda análise. Uma sociedade se organiza a partir de regras específicas. O certo e o errado podem perder o sentido dependendo da ótica. Valores, ética, respeito e educação, também. Em que fórum podemos dar início às discussões? Puta que o pariu. Mero exercício de elucubração ao longo de um quilômetro e meio. Ninguém merece. Que dá vontade de encher a cara, isso dá!

Cheguei à minha casa, graças a Deus. São e salvo pelas mãos e bênçãos divinas.

Como sempre, para não sujar o tapete, entrei pela porta dos fundos. Na copa, escuto uma amiga para minha mulher: “Você sabia que o caracol faz sexo uma vez na vida durante doze horas? O meu marido faz sexo comigo quatro vezes durante doze horas, mas só que o problema é a duração de cada uma das vezes: 30 segundos”.

Ponho a cabeça pra dentro da sala para saber o que se passava. Vejo o meu filho mais novo, Thiago, na roda de amigos e o papo corria inflamado.

Jean: A minha namorada quer acasalar e estou pensando em pedir o seu quarto emprestado. Que tal Thiago?

Thiago: Eu já falei a você que a minha casa é o meu corpo. Se ela quiser, tudo bem.

Kelder: Olha que aberração eu encontrei na apostila de língua portuguesa da professora Christina Araújo do meu curso pré-vestibular: …quando o pronome “se” agrega-se a um verbo transitivo direto. Se é pronome?

Humberto: Thiago, sei que o seu pai trabalhou na Coca-Cola e vou perguntar a ele se ele sabe o que significa FANTA. Pra você, olha: Foder Andando Ninguém Tentou Antes. Caso ele queira ler de trás pra frente, também pode: Ainda que Tentasse, Ninguém Andaria Fodendo.

Jean: Olha, Thiago, vamos deixar essa história de corpo de lado. Você sabia que passarinho que come pedra sabe o exato tamanho do seu cu?

Thiago: O dele, né?

Kelder: Aí galera, vocês sabiam que a família do Thiago morou praticamente sete anos no Amazonas? Lá existe um macaco que antes de comer uma determinada fruta ele a enfia primeiro no cu; se ela entrar, ele a come normalmente porque tem a certeza que o seu caroço vai sair depois.

Percebi que a conversa estava em alto nível, portanto, saí de fininho para arrumar as compras no armário. Foi aí que percebi que tinha esquecido uma sacola no balcão do bar. Eram cinco e agora estava vendo só quatro bolsas. Deixei pra lá. Voltar no bar, nem imaginar tamanha insanidade.

Uma voz macia veio da cozinha: Benzinho, você trouxe o macarrão com aquele molho gostoso conforme lhe pedi?

Puta que o pariu duas vezes. A voz era da minha mulher e o macarrão com o bendito molho estava justamente na bolsa esquecida no bar.

Acho que não me custaria nada retornar ao bar pra pegar a dita cuja sacola. O seu Manel e aqueles três clientes me pareciam honestos. Lá fui eu. Ao descer a escada da frente, percebi que a mulher do vizinho da esquerda varreu o lixo da sua porta e jogou na minha – tinha ventado o dia inteiro. Fiz força, e ainda faço, para não acreditar que a sua atitude foi tomada, premeditadamente, visando chamar a minha atenção.

Outra voz macia soprou no meu ouvido esquerdo: “Deixa que eu pego. Você conhece a história do caracol?” Era ela; a mulher do meu vizinho da esquerda, sem o marido.

Não sei o que aconteceu comigo naquela noite. Não me lembro de ter recuperado a bolsa de compras esquecida no bar, tampouco de ter tido quatro ejaculações precoces. Como aquele meu dia foi um verdadeiro dia de fúria, acho que a minha mulher me deu um golpe certeiro na cabeça, o que me fez perder os sentidos por longas doze horas.

Alguém deve ter reparado que na crônica anterior, De volta pra casa – 1ª parte, eu não falei que era uma história verdadeira, como não direi agora. O fato é que não gozava de juízo perfeito porque tinha ingerido algumas doses de whisky (Old Scotch) Johnnie Walker Black Label, um dos meus preferidos, e, muito provavelmente deva ter esquecido de algum detalhe nas narrativas, coisa imperdoável para um escritor. O meu corretor de texto insiste em afirmar que é uísque, o resto ele aceitou.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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