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Crônicas Aforísticas

19ª Crônica

19ª Crônica

De volta pra casa – 1ª parte

Aquelas cinco bolsas de compras não estavam muito pesadas, verdade, até porque só tinha comprado miudezas. Seringas descartáveis (com agulhas) também não pesam quase nada, como as sandálias de marca famosa que não soltam as tiras. Defunto de animal costuma pesar mais do que o normal – ao contrário do pobre, bicho gosta de morrer só com a barriga cheia –, talvez por isso me desse a impressão que a sacola na qual carregava o corpo do Yque, junto com o produto fecal do Brutus, pesava bem mais do que as cinco bolsas de compras juntas. Pesar mesmo, pesam os cunhados, a sogra, quando decidem morar conosco e os pecados. E por falar em pecado, receita pra espantar visitas indesejadas: ofereça na refeição (se houver) bife à milanesa; isso, mande o açougueiro cortar os bifes bem fininhos e depois capriche na farinha de rosca, de tal forma que fique com uns três ou quatro centímetros de altura, e não se esqueça de duas coisinhas, economizar no ovo e colocar na mesa refresco de groselha. Resultado, as visitas ficarão empanzinadas, com uma azia danada, com flatulência e irão embora sem se despedirem; se voltam, SDS, só Deus sabe!

Carregar peso pra mim nunca constituiu problema algum. Há muito venho participando de provas domésticas de resistência física – acho até que já me transformei num verdadeiro maratonista –, tais como mudar constantemente os móveis da casa de lugar; carregar baldes de água para desentupir a privada; pular o muro da vizinha (não para fugir do vizinho) para pegar a galinha fujona; correr em direção à minha mulher sempre que ela grita o meu nome; enfim, exercício físico dentro de uma casa normal é que não falta, sobretudo quando outras quatro pessoas moram com você. Por enquanto, os cunhados e a sogra ainda estão fora da estatística. Para eles proporei mergulho oceânico sem equipamento, salto de paraquedas defeituosos, bungee jumping, algo realmente prazeroso.

O que de fato estava me preocupando era a forma como voltaria pra casa. Os funerais do Yque e a distância que o pedreiro Severino me obrigou a andar justificam a minha declarada fadiga. Não tenho carro. Se tivesse, com certeza já teria sido roubado. Os gatunos levaram quatro carros meus até agora – dois estavam no seguro, um foi recuperado porque disse aos policiais que lhes daria uma boa recompensa e o outro, bem, prejuízo total. Errei nos cálculos. Na realidade, foram cinco carros até agora. O quinto foi, digamos, “colocado” dentro do bar do meu filho Rodrigo, em Coqueiral de Itaparica, Vila Velha, Espírito Santo. Tive que vendê-lo pra pagar compromissos. Mais um patrimônio perdido por conta de ações de fornecedores inescrupulosos que não respeitaram os acordos feitos e os cheques pré-datados que dei, com a garantia do gerente do banco (FDP). Deus tem mais pra dar do que imaginamos.

Pensei em voltar de ônibus, porém, um lampejo de racionalidade me fez recuar. Pra que correr riscos desnecessariamente se sabemos que os motoristas de ônibus no Rio de Janeiro trabalham com ódio do português, dono da empresa; sabemos que esses profissionais do volante não amam a sua profissão como deveriam. Analisando um pouco melhor as suas atitudes e procedimentos, acho que toda a população do Rio jamais andaria de ônibus. É claro o desrespeito generalizado, que vai desde a forma como respondem aos usuários dos coletivos até à sua postura perante os colegas de trabalho. Enfim, é um festival de agressões: alta velocidade; arrancadas e freadas bruscas; vontade de quebrar a caixa de marchas do veículo; não param nos pontos pros passageiros; curvas perigosas; direção ofensiva; não param nos sinais vermelhos (e não me venham dizer que é por medo de assaltos); risco iminente de batidas e atropelamentos. É, tá tudo ruim. Além de tudo isso, tenho pavor de ser queimado vivo – ou morto. Não tenho vocação pra churrasco humano.

Pensei em voltar pra casa de Kombi, um transporte alternativo, que se prolifera nas grandes cidades devido ao péssimo serviço oferecido à população pelas empresas de ônibus. A bem da verdade, face à orgia de dinheiro que se arrecada neste negócio, o transporte alternativo atraiu centenas de utilitários piratas para as ruas do Rio e, sem sombra de dúvidas, colocam em risco a vida de milhares de passageiros que deles fazem uso. O problema desses veículos não legalizados é assunto para as autoridades resolverem. Esses mesmos agentes de repressão têm conhecimento que por trás da ilegalidade do transporte estão o crime organizado, policiais corruptos e empresários desonestos; uma verdadeira máfia. O maior prejuízo fica por conta e recai sobre a população que enfrenta grandes congestionamentos no trânsito; fica à mercê de gente que desobedece às leis; assiste a gritarias histéricas nos pontos dos ônibus; enfim, que pede a Deus proteção lá de cima porque aqui embaixo não tem segurança alguma.

Pensei em pegar um táxi. O primeiro taxista que parou me cobrou um adicional, sim, um adicional, de R$ 3,00 para levar as cinco bolsas de compras na mala do seu carro, alegando que era uma taxa simbólica, porquanto teria um trabalhinho extra como abrir a porta, levantar do banco, sair do carro, fechar a porta, abrir a mala, ajudar a colocar as bolsas de compras no interior da mala do carro, fechar a mala, abrir a porta, sentar no banco, fechar a porta e seguir em frente e, na chegada à minha residência, fazer todo o processo inversamente. Dispensei-o e resolvi ir a pé – sem que escutasse mandei-o solenemente à merda.

Carona, nem pensar – posso sofrer um sequestro relâmpago para sacar dinheiro (que não tenho) nos bancos, ou, na pior das hipóteses, ser alvo de um atentado terrorista. Tô sabendo que tem bandidos internacionais, especialistas nessas matérias, infiltrados nas favelas do Rio de Janeiro.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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