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Crônicas Aforísticas

18ª Crônica

18ª Crônica

Uma odisseia no Supermercado – 2ª parte

Do lado de fora do supermercado, duas cenas interessantes. A primeira retratava uma criança picando papéis e jogando no chão, sob o olhar indiferente da mãe, que não percebia que a lixeira estava apenas a uns dois metros de onde se encontravam, ela, a mãe desatenta, e a criança porca. O segundo acontecimento, dramático, serviu para mostrar o quanto as pessoas são discricionárias, promovem a discriminação e, sobretudo, são reacionárias. Duas mulheres se abraçavam, apertada e demoradamente, e só porque uma delas tinha buço avantajado foi chamada de “machuda” (era a balconista da farmácia) – nesse país, homossexualismo ainda é considerado crime para aqueles que não têm coragem de se assumir. Atitude deplorável…

Logo na entrada do supermercado um segurança ensacava e lacrava os produtos comprados pelos consumidores em outros locais, e levados, por eles próprios (os clientes) para dentro da loja, visto que o referido supermercado não tinha guarda-volumes. A loja de varejo entende que, com este procedimento, está preservando o cliente de ser chamado de ladrão, porquanto algum desavisado funcionário da organização pode achar que aqueles produtos foram pegos indevidamente na área de vendas do supermercado e não incluídos no rol das compras a serem pagas. Este papo furado não é de minha autoria, por falta de saco perfeito; o papo é do segurança, que tentou me dar explicações quando pediu as minhas seringas para meter dentro do saco perfeito, sem logomarca. Na hora “H” furou um dos dedos com uma delas. Irritado, me questionou sem pestanejar: “O senhor usa drogas?” “A propósito, o senhor é aidético?”. Entre os dentes, mandei-o solenemente àquele lugar, com todas as honras de bom cidadão FDP e, em seguida, fui logo atirando, educadamente:

“Não tenho o costume de usar droga por via intravenosa. Meu único vício é injetar droga no meu corpo somente por via oral, como exemplo, beber a cerveja Santa Cerva, produzida pela cervejaria Kaiser – uma verdadeira droga; uma cerveja de merda –, ainda mais sabendo que ela tem de 25 a 30% a menos de extrato primitivo, quer dizer, menos malte cervejeiro, menos lúpulo, menos tudo. Entendeu? Só injeto esta droga no meu organismo porque tem preço baixo, mas, quando tenho dinheiro, compro e bebo outra marca. Sabe de uma coisa, a Santa Cerva nem vale o preço que custa de tão ruim que é. Ah! Outra coisa, se sou aidético, só a sua mãe pode saber, vá perguntar a ela!”. Apressei o passo para não levar uma porrada.

Nesses tempos de eleições, as velhas maquininhas de remarcar preços voltaram a funcionar a todo vapor nos supermercados; em especial. Encontrei nas gôndolas diversos produtos com duas, três e até mais etiquetas sobrepostas, caracterizando mudanças constantes dos preços de venda aos consumidores. Os repositores sequer tinham a preocupação de arrancar dos produtos as etiquetas desatualizadas. Geralmente a troca de etiquetas entre os produtos é feita por consumidores que gostam de roubar, perdão, levar vantagem nas compras; de alguma forma tem que sobrar dinheiro para a cervejinha ou para aquela fezinha no jogo do bicho.

Outra armadilha constatada é o fato do supermercado deixar faltar nas prateleiras mercadorias anunciadas nos encartes promocionais, obrigando os clientes a optarem por similares mais caros, ainda mais que as compras, da maioria dos itens, são feitas por impulso. Esses mesmos consumidores – por total falta de informação – não se dão conta que têm o direito de levar um produto similar, ainda que mais caro, pagando por ele o mesmo preço daquele anunciado promocionalmente, quando este não estiver disponível na área de vendas do supermercado.

Discursos tenho feito diariamente pras pirâmides do Brasil, na ausência dos faraós. Os consumidores brasileiros desconhecem os seus direitos – nem de longe viram o Código de Defesa do Consumidor. Talvez ouviram falar dele. Lê-lo, só amarrados. Os mais pobres e humildes sofrem o problema diretamente na carne, em virtude da sua ignorância, do seu mais completo desconhecimento, falta de informação e pela vergonha que sentem na possibilidade de abrirem a boca em público, coisa que só acontece – embora que discretamente – quando um maluco, assim como eu, “inflama a área” em defesa dos seus direitos. Aí, todos se juntam, empurram o doido e o elegem advogado defensor das compras honestas; num supermercado desonesto, que se vale do Marketing para vender uma imagem irreal, visando atrair malucos.

Uma voz em OFF dentro do supermercado pediu, e continua pedindo, para os clientes não degustarem produtos no interior da loja. Infelizmente, muitos não sabem conjugar este verbo. Contudo, o que mais se via era gente por todos os lados comendo e jogando as embalagens vazias embaixo dos caixotes ou largando-as sobre as gôndolas. O bacalhau é o mais beliscado atualmente, depois da bunda da empregada – ainda bem que a minha empregada não tem bunda. Antes, o grande campeão do belisco era a carne seca, que perdeu o posto pela má qualidade e pelo cheiro terrível que lembra o hálito da balconista da farmácia; acho até que o ar expirado, o seu bafo, está mais para vísceras de hiena expostas há dias sob o sol do deserto.

Nos check-outs (caixas registradoras), filas intermináveis. Nem mesmo as caixas exclusivas para idosos, mulheres grávidas e deficientes físicos eram respeitadas. Os mais jovens passavam por cima dos idosos, sem pena ou dó, obrigando-os a irem diretamente pro rabo da fila; mulheres virgens diziam-se grávidas; deficientes físicos não apresentavam qualquer tipo de deformação, salvo um indivíduo que afirmou ter três testículos – este teve preferência, já que ninguém se aventurou em conferir de perto, muito embora houvesse uma torcida feminina pedindo para que o tresloucado arriasse as calças em pleno salão: “Tira, tira, tira”.

A indústria do “troco errado” se formalizou pelo país afora. A esmagadora maioria dos estabelecimentos comerciais adota esta prática sem pudor algum. Antes, o comércio de um modo geral dava balas aos clientes como complementação do troco, mas, hoje, nem muito obrigado. O roubo dos nossos preciosos centavos acontece a cada compra que fazemos. Deixo as esmolas de fora desse comentário. Deixamos quatro centavos no supermercado, três centavos na padaria, dois centavos no açougue, cinco na quitanda, dez na feira, vinte no boteco, quinze no ônibus, enfim, nos acostumamos a receber o troco a menor na maioria das vezes. Isto é roubo? Pode ser considerado como tal, porém, com o nosso consentimento. Fazendo as contas, em média, um consumidor normal perde, por dia, vinte centavos. Se multiplicarmos pelos 30 dias do mês este valor sobe para R$ 6,00 que, multiplicado por 12 meses, a perda atinge R$ 72,00 no ano. Lá se vai o bacalhau do Natal; a caixa de charutos do chefe; o despacho de macumba pra matar a sogra, enfim, o presente da empregada como suborno para que fique calada, após ter sido comida pelo patrão, com a sua autorização não comprovada perante os tribunais da castidade. Por falar nisso, estou numa completa abstenção dos prazeres sexuais – penso em usar as mãos, mas, logo me arrependo.

Pois é, briguei pelos meus quatro centavos no check-out e parei a fila por quinze minutos. Seria pouco dinheiro para tanto tempo perdido? Garanto que não; além do lado conceitual do problema. Na medida em que se multiplicarmos R$ 0,04 por 3.000 clientes que, na média diária compram naquele supermercado, teremos um total de R$ 120,00 de “roubo” por dia. Por mês, este valor sobe para R$ 3.600,00 e, por ano, atinge a casa dos R$ 43.200,00. O que será que o supermercado faz com todo esse dinheiro não contabilizado e, portanto, não tributado? O destino seria a formação do “Caixa 2” pelo supermercado ou, quem sabe, enviado para um desses paraísos fiscais pelos fiscais, ou para o financiamento de campanha política de algum “honesto candidato” que fará “Caixa 2”? Essa de dizer que os clientes também recebem o troco a maior é desculpa pra boi dormir – quando não está lambendo sal ou na fila do check-out. Em tempo, nunca vi boi com três testículos.

Coloquei as quatro moedinhas no bolso, peguei as cinco sacolas de compras, devidamente logomarcadas, e segui o meu caminho de volta pra casa. Pedi desculpas a quem estava na fila. O segurança do supermercado me seguiu com os olhos. Esta também é uma história verídica como as duas anteriores. Acreditem.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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