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Crônicas Aforísticas

17ª Crônica

17ª Crônica

Uma odisseia no Supermercado – 1ª parte

Já passava das nove da manhã e lembrei que minha patroa – é assim que os homens, com mais de cinquenta anos, se referem às esposas legítimas – me pedira pra comprar no supermercado mais próximo alguns produtos que estavam faltando em casa; aqueles que a gente só dá valor quando, de fato, nem os vizinhos mais chegados os têm na despensa, para nos socorrer na hora que mais precisamos, como sal, açúcar, café, fósforos, ovo, sabonete LUX, papel higiênico, pasta de dentes, palitos, farinha de mesa, óleo, pimenta do reino, feijão, arroz, alho, cebola, colorau, macarrão, carne seca, bacalhau, vela de aniversário, vela comum, enfim, quem tem casa fixa, e mulher quase fixa, sabe perfeitamente o que estou dizendo.

Quem tentar pedir à vizinha algo, além disso, que se prepare para surpresas – no mínimo, terá grandes chances de conseguir a comida caseira. Na casa da amante pode faltar de tudo que a gente não reclama, sobretudo quando as despesas da casa são pagas por outro; de preferência pelo marido dela. O que não pode faltar, de forma alguma, é amor carnal; desde que o outro não esteja por perto, e se estiver, que seja trancado na despensa cheia.

Sei lá se por coincidência ou não do destino (dizem que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes, salvo quando desejado pela sogra), o estabelecimento supermercadista, eleito para as compras, ostentava a mesma logomarca da sacola de plástico na qual Yque, o meu ex-gato de estimação, a merda fedida do Brutus e a sandália que soltava as tiras foram transportados e devidamente enterrados. Tenho a mania de prestar atenção em tudo e me ferrei desta vez.

Confesso, pra mim mesmo, que naquele momento não pensava noutra coisa a não ser na contratação da missa de sétimo dia em intenção da alma do Yque (reafirmo que gato tem alma, quem não tem é político) e de que forma pagaria o pároco do bairro, Dom Custódio de Oliveira e Silva, que gosta tanto de dinheiro como os políticos.  Ele, definitivamente, odiava gatos – talvez por isso inflacione a tabela de preços cobrados pelos serviços paroquiais. Ele suspendeu, de caso pensado, o recebimento de cheques pré-datados passados por pessoas conhecidas; vejam só, uma semana antes do desenlace do felino. Mais tarde descobri, com a ajuda do sacristão, que foram três os motivos que o levaram a tomar aquela atitude drástica: primeiro, medo da política econômica que, certamente, seria copiada do PSDB pelo futuro governo petista, com pouquíssima nuance de diferenciação – coisa pra inglês ver; segundo, os fiéis, travestidos de beatos, eram inadimplentes contumazes; terceiro, precisava de dinheiro vivo para reabastecer sua adega. De qualquer forma, iria encontrar um jeito de me acertar com Dom Custódio. No passado, fui coroinha de papel registrado em cartório, portanto, o meu gato, perdão, ex-gato, não ficaria sem missa, mesmo que o seu corpo não estivesse presente entre nós – a sua alma rondava na ponta dos pés; a do pedreiro Severino o acompanhava.

Dom Custódio, com dom, era um notável comunicador, generalista, sábio, conhecia todos os assuntos oficiais sacros, e não sacros oficiosos, e gostava de falar sobre política – seu prato predileto –, sobretudo porque tinha imunidade divina. Segundo ele, sairia das urnas, neste outubro de 2002, um novo Messias; uma pessoa ansiosamente esperada pelo povo como reformadora ou como salvadora da pátria. Com sua batuta, todos os políticos, e afins, poderão exercer o seu rito devasso e improbo sem admoestação alguma. “Político só tem missa de corpo presente somente com o corpo presente, pra que todos vejam, inclusive Deus, que ele morreu de fato”. Lembrou Dom Custódio de Oliveira e Silva, com muita propriedade santa.

Cerca de dez passos da entrada principal da grande loja de varejo, tive que retroceder uns vinte, por uma razão simples: um lampejo de memória me levou a priorizar a ida à farmácia para comprar uma seringa descartável solicitada por aquela descendente de portugueses: a minha mui querida mãe. Com este objeto de uso múltiplo, ela aplicaria uma solução caseira para estancar a diarreia da qual foi acometido o seu cachorro de estimação, conhecido pelo extraordinário nome de Pitucho (com “ch”). Simplesmente escrever Pituxo, com “x”, seria demais, porque a Xuxa não precisa mais de Marketing gratuito. Também, se precisasse, estaria fora da rede Globo, e disponível para ser contratada por uma emissora que não tivesse Marketing global.

O Pitucho tinha a pata dianteira direita quebrada, e de tão velho, não conseguia ingerir mais nada sozinho. Banguela ele já estava, fazia tempo. Latia fazendo sinais de surdo e mudo. Cagar, perdão, evacuar, o desgraçado sabia; e muito bem por sinal. Se os degraus da escada lá de casa pudessem falar, testemunhavam a favor do que acabo de dizer. Durou poucos dias o seu sofrimento. Coitado. O triste falecimento do Pitucho se deu por motivo de falência múltipla dos seus órgãos internos – todos. Pitucho não era doador de órgãos internos; só o externo, quando latia sem sinais. Tanto que, ao escrever esta matéria, o fiz com um sofrimento maior do que o dele, e parecia que eu estava doando alguma coisa – podem acreditar. Ah, já ia me esquecendo de dizer a sua raça, Chiuaua – marrom desbotado, olhos esbugalhados.

Curiosamente, estão morrendo todos os bichos de estimação da minha casa. Os do vizinho, não. Especialistas em bruxaria dizem que os animais são verdadeiros para-raios e puxam pra si todo e qualquer mal que nos desejam. Agora estou entendendo porque o futuro Presidente do Brasil vai construir um zoológico na residência oficial – bestas, asnos, burros, jumentos, cavalos, éguas, zebras e demais equinos quadrúpedes, ou bípedes, estão sendo indicados para a composição do seu ministério. O PT já indicou 37.469 espécimes. Até que o homem da foice chegue nele…

A partir da farmácia é que começa, de fato, a minha nova, derradeira e grande odisseia. Toda farmácia que se preza tem muitos balconistas na mesma proporção do número de pessoas que se julgam doentes e se automedicam, com permissão do Ministério da Saúde. A maioria dos balconistas (de todos os sexos disponíveis) que eu conheço trabalha sem carteira assinada. Agora está na moda a fatídica terceirização da mão-de-obra periférica ociosa. Geralmente os balconistas de farmácias trabalham devidamente uniformizados – são até confundidos com médicos –, não importando se mal-educados ou portadores de algum tipo de distúrbio orgânico, como mau hálito e excesso de flatulência, por exemplo. O meu tradicional “bom-dia” ecoou pelas paredes daquela loja farmacêutica, todavia, não teve resposta de retorno. Dei uma de babaca por ser educado, conforme mamãe me ensinou desde pequenininho.

Lembro-me perfeitamente daquela pessoa que, estranha ou não, ao cruzar por você na rua, fica esperando por um cumprimento, por uma saudação espontânea, e fica magoada quando isto não acontece, mas, quando acontece, dá a impressão que acertou sozinha na loteria. Sinal de educação que perde força com o passar do tempo, ou talvez com a renovação das gerações. Certa ocasião, quando saía do mercadinho aqui da rua onde moro, uma senhora olhou profundamente dentro dos meus olhos e rogou por um bom-dia, e o obteve. Com sorriso largo, respondeu três vezes: “booom-diiia”, “boom-diia”, “bom-dia, meu filho”. É, sem dúvida, um gesto gratuito, não custa absolutamente nada, entretanto, hoje parece custar caro para muitas pessoas, principalmente para os jovens que, sequer, pedem a benção aos seus pais quando acordam ou quando vão se deitar. Quando saem de casa só sabem pedir dinheiro sem devolução – dizer aonde vão, e com quem vão, é segredo de Estado.

Passados uns cinco minutos, mais ou menos, veio me atender uma balconista que mais parecia um demônio em pessoa – babava, tinha barba nas ventas e os olhos esbugalhados iguais aos do Pitucho, também eram avermelhados como o fogo da perdição. Aparentemente, aquela balconista demonstrava ser de poucas palavras, contrariando os requisitos da sua profissão. Ai de quem questionasse o aviamento da receita. O seu hálito era plenamente suportável com o devido uso de uma máscara de oxigênio – e outra de reserva. Feito o pedido, a balconista me trouxe duas seringas descartáveis. Uma delas era pequena e barrigudinha, e a outra, comprida e mais delgada, porém, ambas com a mesma capacidade. Perguntei, então, qual era a melhor. Decorridos exatos dois minutos e trinta e sete segundos, ela me respondeu laconicamente: “Não sei”. Quando quis saber quanto as seringas custavam, ela me mandou perguntar diretamente ao caixa. Para aliviar a pressão do meu saco, comprei as duas seringas e saí batido. Esta é uma história real como a do meu ex-gato, Yque.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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