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Crônicas Aforísticas

16ª Crônica

16ª Crônica

Meu gato foi envenenado

Esta é uma história verídica. Um dia desses, ao descer a escada da minha casa, deparei com o meu bichano morto, literalmente. O seu adiantado estado de rigidez revelava uma triste realidade: não iria miar mais nessa vida! O fio de sangue, misturado com uma espuma branca, que escorria pelo canto da sua boca, trouxe à tona um segundo fato inconteste: um pedaço de queijo, de marca duvidosa, impregnado com veneno de rato (chumbinho verdadeiro), foi a sua derradeira refeição. Não há dúvida. Não se podia fazer mais nada por ele, senão, providenciar o seu enterro, com ou sem honras militares, mas com a presença obrigatória de parentes próximos – se houvesse espaço em cima do muro para gatos vivos. O falecido tinha pelos na cor amarela, olhos esverdeados, fartos bigodes e dentes saudáveis. Não era castrado, pois não; no mínimo admitiria a circuncisão.

“Na minha horta de alface, nem pensar. Ninguém vai enterrar gato morto lá; nem vivo!” Este singelo aviso, em forma de grito, partiu de uma senhora (portadora de imunidade por ser minha mãe), filha de imigrantes portugueses legítimos, que fundaram a primeira quitanda no bairro de Cordovil no início do século XX. Cordovil fica na Zona Norte do Rio de Janeiro, para quem não sabe outrora maior bairro consumidor de cerveja do subúrbio carioca. A Companhia Cervejaria Brahma que o diga. Bons tempos aqueles. Pena que eu era criança e não podia contribuir para o aumento do consumo da famosa loura. Se bem que o meu avô, e também padrinho, vez ou outra, obrigava-me a beber alguns goles de cerveja diretamente do seu caneco sempre que o Vasco ganhava o jogo, sobretudo contra o Flamengo, Botafogo, Fluminense, Bangu, América, Canto do Rio, Olaria, Bonsucesso… E contra todos os demais. Bom português; odiava gatos.

Como nenhum vizinho quis alugar parte do seu quintal para a construção do sepulcro – as casas daqui do Rio ainda têm um pedaço de terra com árvores, plantas, bichos e pássaros inocentes e algumas pessoas também –, não me restou alternativa senão cancelar as formais cerimônias e tentar me livrar do corpo dele (do gato) o mais rápido possível. Cordovil tem poucos gatos, mas, pra contrabalançar, tem muitos cachorros – inclusive de duas pernas. Mordem de vez em quando. Alguns gatos vivos preparavam-se para me seguir de longe.

Carne morta, de gato morto, se decompõe muito rapidamente. Não saberia dizer o porquê. Afirmam com veemência aqueles que arrancam o seu couro para fazer tamborim na época de Carnaval. Fora dela, comem gatos mortos e jogam o seu couro, não sei aonde, para esconder a prova do crime dos outros criminosos comuns que não comem gato. Quando encontrado, o couro, o crime haver-se-á prescrito. Eu tinha que ser ágil; como ele, o gato, foi em vida – até ontem. Quisera eu que não tivesse sido quando comeu o queijo.

Ventava um pouco naquela manhã de fim de outono e início de inverno. Este sopro da natureza trouxe até a minha calçada uma sacola plástica de supermercado que um dia será abolida por hipócritas que ajudam a poluir o planeta – não posso revelar à qual organização pertencia a bendita e providencial bolsa de plástico, por motivos óbvios. Quer saber mesmo?  Estou cansado de fazer Marketing de graça. Passei mais de trinta anos da minha vida fazendo isso. Chega. Vamos ao assunto que interessa. Corri até ela, a sacola, mas no caminho pisei no produto da defecação do Brutus, o mastodonte do cachorro do vizinho da direita (porque o da esquerda não fala comigo porque embutiu na cabeça que a sua mulher quer me dar). Foi uma merda danada ter pisado na merda do Brutus. Cachorro grande faz muita bosta, principalmente aqueles que habitam o planalto central.

Há tempos, queria mesmo jogar fora aquela miserável sandália que já me fez tropeçar dezenas de vezes e também soltava as tiras (o Marketing dizia que não), por isso, como não queria perder preciosos minutos com a retirada da merda, o par de sandálias foi a primeira coisa que enfiei dentro da sacola padronizada. A segunda foi o meu falecido gato de estimação. Àquela altura do campeonato o meu gato não espumava mais. Graças a Deus, ninguém presenciou a cena. A consciência, se é que tinha naquele momento, não me doeu nem um pouquinho porque o bichano impedido estava de respirar – por todo o sempre. Amém. Por instantes, eu também queria morrer. Na plenitude da razão, eu desisti. Ainda bem.

Devidamente calçado, decidi tomar um rumo ignorado a fim de achar um canto romântico ideal para enterrar o coitado do gato. Este local deveria ser à prova de testemunhas, onde pudesse, solitário, chorar à vontade. Tinha levado lenço no bolso. Tudo o que eu queria era ficar com a minha dor, longe de todas as pessoas, porque, com certeza, iriam me chamar de velho babaca; chorando por um gato morto. O meu gato não era um simples gato. Era o meu gato, e ponto final. O destino, porém, não foi complacente comigo, não foi indulgente. Sorte ou azar cruzei no meio do caminho com um pedreiro que prontamente me ofereceu ajuda para carregar um pouco a sacola, mesmo já tendo ocupadas as mãos e também os ombros com as suas ferramentas. Minha mulher me abandonara no primeiro degrau da escada da nossa casa.

Severino era o nome dele. Fez questão de dizer que aquele gesto não deveria ser confundido com um ato cristão; era pena mesmo, de mim, porque lá atrás tinha me visto todo atrapalhado com o corpo pendendo mais para o lado direito e que quando passava a sacola para o lado esquerdo, este obedecia, como o outro, à lei da gravidade. Também pudera, estava carregando oito quilos de peso, sete do gato e um da merda do Brutus. Sandálias que soltam as tiras não pesam nada, mesmo aquelas de marca famosa. Tive que lhe contar a verdade, em detalhes, para que ele não confundisse a minha profissão. Pela repentina amizade que já se firmava entre nós, naquele momento, e pelo forte cheiro – mistura de carne podre de gato morto com merda fresca de cachorro grande – que saia da porra daquela bolsa, ele poderia me chamar de “jardineiro catador de estrume fresco”.

Chegamos, por fim, a uma grande obra. Severino, lógico, sentia-se em casa e me ajudou a enterrar o Yque – este era o nome do meu falecido gato e que, pela forte emoção, esqueci-me de dizer. Não foi preciso cavar buraco. Yque foi acomodado num que já estava feito e de onde nasceria uma sapata de sustentação de uma coluna. Rezamos e choramos juntos (eu e o pedreiro Severino), numa última homenagem. Na hora da reza, fechamos só um olho cada um para vermos se algum ladrão de couro apareceria. A alma do Yque deve ter se sensibilizado com a beleza e a tenuidade da prece. Foi só uma também – fez par com o olho fechado. O meu gato era mesmo especial; até alma tinha. Os políticos queriam ser iguais a ele; mesmo que se esforcem, não conseguem. Só herdaram uma qualidade dos felinos: a gatunagem ou a ação de surrupiar coisas alheias – Yque era honesto porque nunca mexeu em dinheiro.

Severino me convenceu a dispensar a cruz, e a futura exumação do gato, porque seria despejada uma tonelada de puro concreto do tipo ARI (Alta Resistência Inicial) naquela sapata aberta. Yque, sem dúvida alguma, ficaria eternamente petrificado. Fui embora sem olhar pra trás. Nunca mais vi o pedreiro Severino – e nem ele a mim. Deve ter morrido de cirrose; 80% de chances. Ou é possível que tenha se esquecido de sair de dentro do buraco de alguma sapata; outros 20%. Na segunda opção, sob o efeito do álcool, não deve ter visto o concreto ARI cair sobre ele. Todo o pedreiro que se preze bebe; pelo menos todos aqueles que eu conheci até agora. Severino não precisava ter gato de estimação, morto, para ter motivo pra encher a cara, bastava saber que sua sogra resolvera morar com ele ou em dia de eleição.

Em buraco “de sapata” nunca mais entrei, mas continuo tomando umas de vez em quando. Escondido da mulher, claro – não sou trouxa. O meu fígado tem reagido bem, até hoje. O do Severino não, até enquanto viveu. O pedreiro Severino, mesmo com o endurecimento do seu fígado, jamais dispensaria a cruz, mesmo que estivesse totalmente sóbrio. Acho que não ficar embriagado, isso só seria possível depois de morto. Que a alma do Yque o receba bem, com ou sem couro.

Augusto Avlis


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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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