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Consultoria & Marketing

O alvo é o lucro

O alvo é o lucro

Estava revirando uns arquivos velhos quando encontrei um pedaço de jornal, também velho, onde se lia a manchete “O alvo é o lucro”, matéria editada pelo jornal O Globo, Rio de Janeiro, quinta-feira, 12 de setembro de 2003, página 6, de autoria da professora Cleusa Santos. Li novamente o texto porque, se estava guardado, alguma coisa de interessante havia nele. Eu não perco a mania de querer interpretar o que as pessoas escrevem ou de procurar entender o que elas querem dizer – o que pensam ou o que dizem de fato é outra história. Quer um exemplo: “Atrás de uma grande fortuna pode estar camuflado um grande crime”. Já li e reli o livro ‘O Poderoso Chefão’ não sei quantas vezes, mas, afirmo que em nada me influenciou na citação desta frase. Contudo, prefiro dizer que “Atrás de uma grande fortuna existe uma grande massa de miseráveis”. Pelo menos aqui no Brasil é assim que funciona, desde os tempos de Cabral – poucos com muito e muitos com pouco; e outros tantos sem nada. Categoricamente, afirmo que “A conquista desproporcional do dinheiro sempre deixa um rastro de sangue”.

Qual a proporção? Um milhão de miseráveis para cada milionário? Será que esta premissa pode ser considerada a expressão máxima do atual sistema capitalista que nos rege? Um exemplo típico: cartéis determinam os preços de mercado e alijam a livre concorrência (vide os casos mais recentes dos combustíveis / derivados); monopólios privilegiam-se da exploração industrial ou da venda de determinado produto, sem competidor, sem concorrência (vide o caso dos mercados específicos de informática). Tem “Hacker” de olho no Bill Gates. Continuamos pagando a conta da ganância mundial, porque nessas terras de ‘além-mar’, o dinheiro custa a entrar nos bolsos da massa consumidora e sai com uma tremenda facilidade sem que ela perceba. Sem dúvida alguma essa condição é imposta pelas leis da sobrevivência no mundo subjetivo-materialista.

A relação capital versus trabalho vem sendo corroída na sua base, aos poucos, bem antes dos tempos da alta inflação (auge), quando investir na especulação financeira, e no mercado de ganho fácil, era mais importante do que qualificar e valorizar, como missão, a mão-de-obra empregada e melhorar continuamente a qualidade dos produtos e serviços disponibilizados aos consumidores. Os donos dos bens de capital, escorados na negligência, não tinham idéia da perversidade natural decorrente, tão pouco da magnitude das consequências futuras. Pelo menos duas gerações, a partir desta, sofrerão as penas da “escravização branca”. Fusões de empresas, formando verdadeiros conglomerados industriais, grandes corporações, tendem a concentrar e a centralizar o capital cada vez mais. Pode ser este um típico fenômeno da globalização? Por aqui o governo deixou de fazer a sua parte – brincou de gato e rato com os empresários, aumentou a carga tributária, enquanto o povo foi largado de lado como cachorro leproso.

A contraparte evidente é a marcante precariedade das relações de trabalho; a informalidade; a geração de trabalho temporário; o desemprego em massa por ação direta do patrão ou por programas de demissão voluntária; a redução gradativa dos salários; a extinção dos benefícios diretos, e também indiretos, aos quais fazem jus os trabalhadores por direitos adquiridos; enfim, o apaga tudo e vamos renegociar. Neste contexto, surge a terceirização como tendência, sem garantias legais ou proteções sociais para os trabalhadores. Destarte, o descumprimento das leis trabalhistas, por parte de quem contrata os serviços, torna-se plenamente factível na medida em que não há, ainda, legislação forte que venha inibir tal procedimento. Não posso afirmar se a nossa cultura empresarial está preparada para absorver modelos internacionais de terceirização, caso fossem importados. Infelizmente, na visão de muitos, a propalada “Terceirização” é uma forma de maquiar tributos.

A necessidade do resgate dos níveis de lucratividade – porque a montanha do dinheiro das empresas não pode diminuir e, além disso, existem metas a cumprir de superávits – tem levado, como febre do modismo, o empresariado de um modo geral a transferir a “paternidade” dos seus empregados para pais de aluguel, sem o mínimo complexo de culpa. A subcontratação de mão-de-obra é prova disso, e a tendência é o seu fortalecimento nos próximos anos.

A ordem do dia estabelece um novo modelo de gerir o negócio, quando a queda da taxa de lucro é iminente: 1º) Cortam-se os custos, com a redução incontinenti da mão-de-obra; 2º) Reestrutura-se a produção; 3º) Supervaloriza-se o capital da empresa e 4º) O Marketing se encarrega de convencer os consumidores que um produto de terceira categoria é melhor do que o de primeira. Às favas, e que se dane quem produz os chamados bens vendáveis de giro fácil – diriam os empresários inescrupulosos, que defendem com unhas e dentes os seus bens de capital. Frase do dia:

“O carregador de piano não ouve a sinfonia tocada”.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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