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Política

Polítitica – 1ª Crônica

Nota 11

Choveu muito no mês de janeiro. Privei-me das saídas e fugas de praxe. Agradeci à chuva por me ter obrigado a ficar socado dentro de casa. Estou sem carro, sem lenço e sem documento. Sem emprego seria demais; destarte, assumi a condição de Escritor, com “E” maiúsculo. Verdade, não ria. Pelo menos, enquanto escrevo coisas sérias, deixo de pensar besteira. Os amigos mais chegados já disseram que deveria me fixar numa corrente literária bastante promissora: pornografia. As razões, três, são por demais simples: primeira, não precisaria mais deixar de pensar besteira porque escreveria somente coisas obscenas; segunda, tenho vizinhas (quatro) maravilhosamente gostosas que serviriam como fonte inesgotável de inspiração; terceira, adoro política e políticos, porque não existe no planeta Terra nada que possa suplantar a sacanagem produzida por ambos. Aposto com qualquer um.

Pois bem, depender dos outros é uma merda, sobretudo quando você torce para ser convidado por alguém – o que menos importa é o lugar para onde se vai –, lógico, se esse alguém tiver carro confortável e espírito cristão que o faz mão-aberta na hora de pagar todas as contas. Janeiro, decididamente, foi um mês de entressafra, ninguém apareceu. Era de se esperar as ausências sentidas. Além do mais, nas ruas do Rio de Janeiro, quem, de sã consciência, está livre dos sobressaltos? Minha amada mulher, nascida sob o signo de gêmeos, inquieta e perspicaz, naturalmente, independente da posição da lua, é que não gostou nadinha. Torço para que um dos filhos faça um filho e, talvez, com um neto legítimo, dona Mara deixe a lua em paz, e o sol, de quebra. Enquanto isso eu tento fugir dos afazeres domésticos. Sombra no quintal é que não falta. Sacanagem se dona Mara me pedir para varrer as folhas secas.

Sou um fuçador contumaz. Tenho a mania de ficar remexendo; só não bisbilhoto a vida alheia, até porque já bastam os meus problemas que poucos não são. Pareço um funâmbulo – a vida que o diga. Até que desta vez fiz algo de proveitoso e agradeço ao tempo. Consegui, juro, arrumar 10% do meu arquivo – se é que podemos chamar aquela bagunça de arquivo. Revirar papéis, para quem gosta, é uma terapia extraordinariamente FDP; tá bom, eu falo, “Filha da Puta”. A primeira coisa aflorada, logo no primeiro espirro, é o saudosismo. Acha-se de tudo um pouco. Um pouco de tudo foi jogado no lixo há quatro anos, quando vim de Manaus, como bilhetes indiscretos, recadinhos, cartões de natal de estranhos, fotos de conhecidos, livros com e sem traças, quinquilharias das mais variadas gerações, jóias tidas como desaparecidas e cujo sumiço incriminou cunhados, dinheiro sem valor, peteca despenada, convites de formaturas dos outros, cartas de demissão devidamente acompanhadas das cartas hipócritas de referências pessoais assinadas por pessoas que me odiaram, enfim, documentários comprometedores de quando éramos nudistas (filmaram a minha bunda branca e mole – ainda bem que pouparam a minha mulher), trabalhos escolares, etc, etc. E ponha etc. nisso!

É aqui que eu me jogo. Excetuando o etc, achei um trabalho escolar, ou melhor, uma prova de faculdade. Para quem não sabe, eu consegui terminar uma. Saca o lance: Rio, 14 de maio de 1984. Turma NI 4. Prova de Teoria da Comunicação II. Sexo grupal, perdão, prova em grupo. “My Teacher” colocou duas moçoilas no meu grupo de três, Carla Maria Pereira Lemos e Margareth Junger de Assis. Dispenso o uso do respectivamente. As respectivas ficaram o tempo todo blasfemando pelo fato dos seus (delas) namorados, não conseguirem fazê-las chegar ao orgasmo. Tenho que ser mais claro? Elas não gozaram! Impossível qualquer argumento, naquela hora, para a conquista do silêncio e da concentração, fatores esses indispensáveis para a realização de uma boa prova. Uma delas estava de paquete, ou seja, com mênstruo. Porra, no meio do mês? Salvação da pátria. Quando ia ao banheiro trocar o modess a outra acompanhava. Acho até que mantinham um caso, não por acaso. Nos trinta e sete instantes de paz, atingi o clímax… Ejaculei pelas ventas, tamanha a raiva. Terminada a prova, as beldades, por regra e não paquete, assinaram-na. Não pedi nada em troca, podem ter a certeza – sou casado e amo a lua.

O tema da prova, vocês vão ficar sabendo logo, porquanto o estarei reproduzindo abaixo por considerá-lo bem atual e oportuno, face aos últimos acontecimentos no que tange ao “imposto” processo de dominação cultural e ideológico; frente ao enfoque dado à questão da globalização e seus reflexos; enfim, face ao processo político brasileiro instalado em 1º de janeiro de 2003 e, sobretudo, no que toca à insensatez e à intolerância de algumas nações que querem dominar o planeta custe o que custar, em nome da liberdade e da paz, segundo os seus próprios critérios de julgamento do que seja liberdade e paz. Na verdade, diante de tantos conflitos beligerantes porque passa a humanidade, confesso que teria dificuldade para encontrar a correta definição para essas duas palavras que, com certeza, representam tanto para todos nós. Independente do país e do seu credo, e princípio político, toda a ideologia de poder perpassa pela dominação cultural do seu povo. Tudo o mais é consequência.

Dominação cultural e ideológica na sociedade contemporânea

A produção da comunicação de massa se fundamenta numa estratégia de linguagem que permite mecanismos de manipulação, dominação, doutrinação e alienação pessoal, grupal e coletiva. Mas, que “estratégia de linguagem” é essa, sobre a qual repousa a produção da propalada comunicação de massa? São os signos linguísticos que deslizam num mar de significantes e significados, dando uma roupagem e um rótulo próprios à mensagem. Os meios de comunicação de massa valem-se, em outras palavras, de uma linguagem conotativa (função apelativa) sendo que essa mesma linguagem tem a propriedade de influenciar, de persuadir o indivíduo a optar favoravelmente por alguma coisa ou situação previamente planejada.

Dentro deste quadro geral de considerações, ficamos frente a outra pergunta: A serviço de quem estão todos os meios e/ou veículos de comunicação de massa? Estão a serviço da “Indústria Cultural” que está sob o domínio de quem detém a posse do dinheiro, ou seja, de uma minoria (classe elitizada) que diz – manda e impõe – o que fazer, quando fazer, para quem fazer e de que forma. Estamos vivendo sob a égide do capital, portanto, estamos sob o jugo direto do poder capitalista. Estamos partindo, com certeza, para o ponto em que o indivíduo perderá a identidade própria, porque tudo lhe é imposto: o que comer, o que beber, o que vestir, como se comportar em sociedade, enfim, todos os seus passos controlados. O direito de ir e vir a cada instante sendo alijado; mudanças radicais processando-se em todos os seus padrões de vida. O indivíduo está engolindo sem degustar. Tolhem-no o direito de arrotar até nos banquetes virtuais – e isto vai além das nossas fronteiras.

Porém, não é muito difícil explicar este fato. Tudo começa na família – primeiro núcleo social – onde o indivíduo é alvo de ditaduras, de doutrinação e dominação. Desde o berço, os familiares castram-lhe o direito de ação, de opinião, de pensamento e de expressão. Por isso, é facilmente previsível que tal circunstância sirva como exemplo e ponto de partida para a ação manipuladora dos meios de comunicação de massa, da Indústria Cultural propriamente dita, porque o indivíduo já leva consigo uma carga propícia à recepção dos ditames, das mensagens e informações oriundas dos diversos veículos de massa, isto porque, ele aprendeu a baixar a cabeça, ele aprendeu no seio da sua família a ouvir quando lhe falam, ele, sobretudo, aprendeu a obedecer e a ser passivo. Hoje a televisão assiste ao telespectador.

Por outro lado, paralelamente a isto, lembramos os efeitos do discurso pedagógico que também recebe, ou seja, o processo estruturado de educação que contribui tão somente para acabar de moldar o seu estilo de vida e padrão comportamental dentro do seu grupo de convívio. Cabe-nos, ainda, falar sobre a ideologia reinante nos veículos e meios de comunicação de massa, ideologia essa que aliena, que “faz a cabeça”, que distorce os fatos, que coloca uma venda nos olhos, uma redoma sobre a cabeça da massa e que tão somente está a serviço marcante dos sistemas de poder – intelectuais e econômicos. Este processo não é irreversível.

Os códigos culturais são e estão deformados. A manutenção de exércitos de desinformados é uma questão imperativa e tão indispensável ao processo de dominação. Quem criou o termo “massa” para definir povo, população, agregados humanos, gente multiplicada, coletividades, sociedades, enfim, seres humanos concentrados na desordem, foi muito feliz, porque somos exatamente “massa”, em toda a amplitude do seu exato conceito. Não passamos de uma simples multidão. Mãos gigantescas nos amassam; pisam-nos sem piedade alguma; escarram na nossa cara, entretanto, estamos sempre a aplaudir, mesmo que convivamos de perto com a fome, com a miséria, com a má distribuição de renda, com o desemprego, com as desigualdades e exclusões sociais, com promessas de viagens pelo mundo dos sonhos, com a exploração internacional e, de joelhos, aceitamos a insígnia honorífica de fracos, dominados e resignados. Amém.

A Indústria Cultural bem se vale dos objetivos para os quais se propôs. Está aí a televisão; o cinema; o rádio; a mídia impressa de um modo geral, impregnando-nos – vinte e quatro horas por dia – de mensagens ideológicas diversas; não obstante, o indivíduo, completamente dominado pela “catarse”, não consegue sair do bloqueio causado pelo sistema de “Drop-out”, isto é, desligar a informação, a mensagem, a comunicação dirigida ou delas se desligar. Em contra-ofensiva a tudo isso, forças se levantam, outras vozes procuram gritar mais alto e tentam sair do anonimato. É o povo arrancando a mordaça; são frentes representativas como sindicatos e demais órgãos de classe; é a imprensa alternativa exercendo a contra-informação, enfim, todos, buscando formas de desestruturar e desbancar o “status quo” reinante – o sistema dominante –, mesmo que para isso tenham que reeditar o enfrentamento, vivido há tempos, com os tais SNI, LSN, Lei de Imprensa. Ah! A pseudo Lei de Imprensa que está aí, com as suas armadilhas, para defender o poder e os interesses dos ricos e calar a boca dos dominados, subliminarmente.

Na verdade, não está muito longe de não mais ouvirmos falar no culto de “Lumpens”. O desvio da informação, provocado pelo sistema de comunicação massiva, é a venda que tapa os nossos olhos, mas permanecem acesas as visões na virtualidade do pensamento, e essas mesmas visões emergirão um dia, em forma de puro, cristalino e verdadeiro jornalismo – fatos reais informados em tempo real, sem distorções. O nosso povo está substituindo culturas a favor de outras e, sem sentir, vem perdendo a sua identidade própria. Se um grito de alerta não for dado com brevidade, inevitavelmente, ouviremos o nosso samba ser cantado em inglês, em plena Praça da Apoteose, desta cobiçada passarela chamada Brasil.

As dominações cultural e ideológica continuam. Luiz Carlos Batista da Costa, My Teacher” da matéria Teoria da Comunicação II, avaliou o nosso trabalho, sem acanhamento, da seguinte forma: Nota 11 (onze). A princípio, eu pensei (não gosto de falar no singular, mas fui obrigado porque as duas moçoilas e colegas de grupo faltaram à aula naquele dia de entrega das provas, pelo fato de terem mudado de namorado, e ambas queriam experimentar novo gozo) que o professor quisesse registrar a hora da correção da prova e, portanto, esqueceu-se de mencionar a respectiva nota. Realmente Onze (11) foi a nota; a hora da revelação, nem ele mesmo lembra mais. Ficou impressionado – pelo menos a sua cara revelava isso.

Luiz Carlos era simpatizante de Lula, sindicalista atuante, com razoável discurso de esquerda e radical até na maneira de calçar os sapatos. Acho que embarquei naquela canoa furada, mas devidamente saciado por ter experimentado do mel e do fel. Passadas quase duas décadas, depois de reler atentamente aquela prova – pondo um breve intervalo na arrumação da décima parte do meu arquivo –, chego à extraordinária conclusão que Batista da Costa tascou a nota 11 porque escrevemos, perdão, escrevi o que ele gostaria de dizer no próximo encontro com os seguidores de Lula, dentro e fora da faculdade. Hoje, o meu discurso seria totalmente diferente. Podem apostar.

Não sei do paradeiro de Luiz Carlos, também pouco me importa para onde tenha ido, ou vindo. Quanto a Carla e Margareth, acho que a Europa as esperava – uma deve estar na Espanha e a outra na Itália. O exercício do jornalismo, nem de longe. Sinceramente, gostaria de reencontrar Batista da Costa para saber, hoje, qual seria a sua opinião sobre Lula. Não, eu não gostaria. Vamos deixar o Luiz Carlos quieto. Pode ser que ele esteja concorrendo a uma vaga no quarto escalão do governo do PT, sim, do PT, porque os quase cinquenta e três milhões de votos foram para o candidato Lula no seu primeiro mandato, mas a Presidência da República ficou mesmo para o partido político PT – Partido dos Trapalhões. Lula nunca passou de títere.

Assim como as pedras aquáticas, eu (no singular) me cristalizo, mas sofro mutações. Mudo para a constante melhoria da minha evolução. Prova disso é que, decorridos praticamente dezenove anos, concluo que Lula se vitimou pela linguagem – antes pregava uma coisa e agora faz outra. Prova da minha evolução é que culpo, e não deixo de culpar, a “linguagem” como a causadora da metamorfose de Lula. Lula foi levado a usar a linguagem não apenas como uma simples e peculiar maneira de se expressar em palavras, mas, sobretudo, como forma totalitária de exprimir ideias e sentimentos de sistemas. Na lógica, tudo permitido pela faculdade humana de se comunicar. Na lógica, culpados também são os receptores, que não evoluíram.

Manipuladores do poder, ao longo da história, utilizaram-se da propaganda como principal arma de conquista. Substantivamente, propaganda é um meio de divulgação de ideias e princípios. Ideologicamente, é um veículo condutor de ideologias baseadas em crenças e convicções que orientam as ações da humanidade. Os “marqueteiros” e os publicitários, perdão, os ‘Profissionais da Comunicação Subliminar’, sabem disso e têm a posse do fiel da balança entre o bem e o mal. Os líderes internacionais também.

A dominação cultural e ideológica, exercida pela indústria da informação, provoca profundas deformações na maneira como os indivíduos têm de perceber e interpretar as coisas que os cercam ou situações às quais estejam sujeitos. Liberdade plena não existe, mas, o sentido de liberdade, seja em que grau for só será conquistado através da educação e do ensino estruturados, mediante uma conscientização política, através da correta interpretação do que sejam direitos e deveres dos cidadãos, enfim, por intermédio do respeito pelos seus iguais com a respectiva contrapartida.

Que a falência dos currículos escolares e que o lixo cultural veiculado pelos meios de comunicação de massa não sejam ações premeditadas para manter o povo totalmente despreparado e à margem da civilização evoluída. Povo preparado é sinônimo de povo com personalidade, com opinião própria, com visão política e, sobretudo, consciente da sua responsabilidade na construção do futuro da nação. O processo de dominação se sacia com o banquete das mentes. Que o Brasil e o restante do planeta repensem sobre os valores colocados em segundo plano, principalmente pela nomeação do capital como primeiro, único e exclusivo objetivo. Da nossa parte, vamos torcer para que ainda tenhamos tempo de mostrar que isso é, verdadeiramente, uma das poucas saídas para o bem-estar e a paz de todos que habitam este planeta.

O relógio marca 11h00min. Chove muito. Alguém me chama.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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