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As palavras são armadilhas

As palavras são armadilhas

Num velório, uma pessoa se aproxima do defunto e diz: “Senhor, meu Deus, como ele está nítido, nítido!”. Na verdade, ela usou o adjetivo nítido, não no sentido de brilhante, refulgente, límpido, claro, limpo, referiu-se ao falecido pretendendo dizer: “Como ele está com o semblante sereno!”. A viúva ficou perplexa, permaneceu onde estava, muda; o seu olhar dizia tudo. A descuidada, sem saber a extensão do que havia dito, convocou todos os presentes para uma oração – todos foram sem olhar para o defunto.

As palavras pronunciadas não voltam para a boca, elas entram nos ouvidos e escondem-se na memória, onde ficam gravadas. Têm o poder de estabelecer sentimentos e provocar reações. Por isso, devemos pensar melhor antes de articularmos as palavras. Dependendo do público ouvinte, podemos passar vergonha e receber críticas indesejadas, ainda que veladas – vem o normal constrangimento, a “saia-justa” inesperada. A questão primeira está nas interpretações. Cada indivíduo ajuíza a intenção de outrem quando este diz alguma coisa. Tirar conclusões apressadas quase sempre leva ao desentendimento. O “tempo fecha”, as cobranças surgem, enfim, nada agradável. Ao orador cabe a tarefa de encontrar o discurso ideal para cada plateia formada ao seu redor. Isso é difícil. Deixemos Lula, Hugo Chaves e Fidel Castro fora dessa discussão. Mentiras, erros de linguagem e demonstrações egocentristas nos discursos políticos costumam agredir frontalmente quem ouve – bom exemplo.

Tal regra também vale para os ambientes de trabalho, nas interlocuções entre duas ou mais pessoas. Os colaboradores (em todos os níveis da organização) devem fazer o possível para identificar os vários graus de entendimento segundo escalas socioeconômicas, escolaridade, cultura, inteligência, preparo profissional, etc. A fala pode ser heterogênea, mas os ouvidos seletivos. Falar o que pensa traz problemas, ação que compromete os indivíduos. Aprendi com a vovó: “Quem fala o que quer, ouve o que não quer”. Somos dotados de dois ouvidos e uma boca; teoricamente, deveríamos ouvir mais e falar menos. Por teoria, depende de quem nos ouve e do que temos a dizer, e vice-versa. O importante é a ordenação dos pensamentos para se dar sentido às ideias, enfim, é administrar as orações. No processo de comunicação temos emissor (es) e receptor (es) – salvo quando falamos sozinhos, coisa que está se tornando comum nos tempos atuais –, e para que haja “estímulo resposta”, os ruídos não devem existir.

Numa das empresas pelas quais passei, aconteceu um “case” interessante. Numa reunião inflamada onde vários departamentos se faziam representar, aconteceu um bafafá danado envolvendo dois gerentes, um da área Industrial, outro da Comercial. Este último chamou o colega da produção de mentiroso por ter afirmado categoricamente que não recebera em tempo hábil a previsão de vendas, sem a qual não poderia prover os insumos básicos. Por pouco não entraram nas “vias de fato”. A interferência do Gerente Geral foi providencial, que tomou a palavra: “Ao invés de dizer você é mentiroso não ficaria melhor o que você disse talvez não fosse a adequada expressão da verdade, ou simplesmente, deve ter havido algum problema que motivou esta informação errada?”. Bem, sabemos, de antemão, que há várias maneiras de se dizer a mesma coisa, sem modificar a ideia central, sem aquela conotação ofensiva. Acalmados os ânimos, os dois gerentes, emissor e receptor, ficaram com cara de ovelha tosquiada. Para contrariar, o gerente de Custos e Orçamento preferiu dizer: “Cara de cachorro quando cai do caminhão de mudança”. Mais pano pra manga. Os desdobramentos são perigosos, as ressonâncias despertam reações e resistências. Falta bom senso.

Na questão da comunicação intervivos, o que é politicamente correto nas relações pessoais ou coletivas? O sistema comunicacional se fundamenta numa estratégia de linguagem criadora de mecanismos dos mais variados, seja de dominação (eu faço prevalecer o que penso), seja de robotização (eu o faço autômato), seja de idiotização (eu o torno pouco inteligente), ou de doutrinação (eu imponho o conjunto de princípios que norteiam sistemas). As Políticas e as Religiões ao redor do mundo sabem muito bem empregar este recurso. Mudanças têm ocorrido em razão da adoção de “novos modelos de se fazer comunicar com o ser humano”. Entretanto, essas mudanças têm trazido complicações e transtornos comportamentais generalizados. A atual geração (como as próximas) está cada vez mais condenada ao isolamento; cada vez mais máquinas estão ocupando o lugar dos humanos – um caminho sem volta, sem atalhos.

Lembro-me de outro caso acontecido com um colega de trabalho que, por e-mail, estava passando determinadas informações, cujo endereçado estava sentado exatamente ao lado dele. Segundos após o acionar do comando “Enviar”, o destinatário perguntou ao emissor: “Por que você não me disse isso de forma oral, já que eu estou do seu lado?”. Continuou: “Teria sido uma comunicação mais direta, encurtaria o tempo da resposta, ainda mais que o assunto pede providências imediatas”. A pessoa que recebeu o e-mail tem toda a razão, de modo que quem o enviou deveria, antes, passar oralmente as tais informações dada à sua premência, e depois ratificá-las por e-mail, como segundo passo, com as devidas cópias para os demais departamentos envolvidos. As palavras escritas, com primazia, poderiam ter se tornado armadilha para aquele funcionário que, eventualmente deixasse de ler o e-mail dentro do tempo para a tomada de providências. O pior é que o texto estava complicado.

A tecnologia da informação tem levado a humanidade a desaprender a falar e a se comunicar com os seus semelhantes. Mais do que nunca, os contatos processam-se em atmosferas impessoais. Falamos o tempo todo com mensagens gravadas e, o que é pior, obedecemos as suas ordens, como se fossem dadas olho no olho. Ouvir mensagens em Off já faz muito tempo – lembram da Íris Lettieri? * Enquanto o indivíduo (centro das atenções) continuar olhando para o seu próprio umbigo, testemunharemos situações desagradáveis do ponto de vista da troca de opiniões – as pessoas vão se achar no direito de falar o que muito bem entenderem. Ponto.

Todos nós poderemos cair em ciladas, seremos pegos pelas palavras algum dia. Isso já deve ter acontecido com a maioria. A comunicação empresarial formal e a pessoal que não tem formalidades são contrastantes por natureza, muito embora especialistas em neurolinguística** defendem o “intercâmbio” entre esses dois mundos em decorrência das mudanças pregadas. Signos linguísticos estabelecendo o entendimento presumível. Nas relações formais há espaço para uma “linguagem descontraída”, ao mesmo tempo, nas relações de informalidade também identificamos o uso de uma “linguagem circunspeta”. Em ambos os casos, o mútuo respeito jamais pode ceder lugar para liberalidades que transgridam o espaço de cada um, leis e regras.

Recentemente temos assistido, com frequência, a cenas deploráveis de “agressões verbais coletivas”, sobretudo de racismo, com o uso de termos pejorativos que afrontam a dignidade das pessoas, denigrem a sua imagem. O jogador de vôlei Wallace, do Cruzeiro, foi vítima de racismo na Superliga; ele foi chamado de “macaco” por uma torcedora do Minas e, neste domingo, 04 de março, o jogador brasileiro de futebol Juan sofreu com racismo e protestou na derrota da Roma por 2 a 1 para a rival Lazio, no Estádio Olímpico, pelo Campeonato Italiano. Mais um episódio de racismo registrado no esporte. A torcida da Lazio é conhecida pela forma como persegue os jogadores negros. Em pleno século XXI, em pleno terceiro milênio, pessoas ainda há que se escondem no coletivo para manifestarem comportamentos bestiais, na certeza que jamais serão pegas nas armadilhas construídas pelas próprias palavras. Até quando?

*Íris Lettieri (Rio de Janeiro, 26 de agosto de 1941) é uma locutora brasileira, que no passado já atuou também como cantora, atriz e modelo. Primeira mulher a atuar como locutora de telejornais no País, “a voz do aeroporto” com seu estilo indiscutível, marca e destaca comerciais de produtos e serviços no rádio, na televisão e nos vídeos de todo o Brasil.

**Neurolinguística é a ciência que estuda a elaboração cerebral da linguagem. Ocupa-se com o estudo dos mecanismos do cérebro humano que suportam a compreensão, produção e conhecimento abstrato da língua, seja ela falada, escrita, ou assinalada. Trata tanto da elaboração da linguagem normal, como dos distúrbios clínicos que geram suas alterações.

 Frase do dia:

“Ouça sempre, fale nos momentos propícios coisas certas para pessoas certas e, sobretudo, saiba o momento de calar”.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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