>
Você está lendo...
Pensamentos

As paredes

As paredes

O começo do terceiro milênio da era Cristã me tem deixado triste, deprimido, sem vontade. A gente vai ficando velho, vai ficando ranzinza, deixamos de dar ouvidos a quem não nos agrada. Resmungar, criticar e achar que todo mundo está errado, deixam de ser manias e passam a ser regras de comportamento. Dar bom dia a cavalo; nem pensar. Mas procurar chifres na sua cabeça pode. Quando se é jovem, temos que pagar um preço alto pela experiência. Quando maduro, na plenitude do intelecto, temos que arcar com o ônus da tolerância. Não temos mais saco para aturar certas coisas, quem dirá fazê-las. A vida é assim mesmo. Através dos nossos olhos o mundo passa a ser enxergado de várias formas e escolhemos a melhor, segundo nosso conceito – geralmente questionado. Porém, vamos tocando a vida que nos resta.

Entramos na fila dos idosos nos bancos, algumas pessoas balbuciam, denunciando que somos novos. Ao procurar emprego, o entrevistador alega que somos velhos. Quando apontamos o carro na direção de uma vaga exclusiva aparece um jovem esperto e a ocupa. O melhor a ser feito é assumirmos a condição de inválidos. Querem saber de uma coisa? Não, talvez não diga pra não ser mal interpretado. Ficar de boca fechada funciona de vez em quando, sobretudo quando a patroa nos cobra algo que deixamos de fazer. Nessa nossa idade, a cama fica enorme, pela distância, não tocamos mais a pessoa que um dia foi amada e as palavras não são ouvidas. O fenômeno da Internet nos desconecta.

O cachorro de estimação abana o rabo sem muito entusiasmo, porque sabe que o cafuné não lhe renderá mais um pedaço de salsicha de marca famosa. Choramos às escondidas para não sermos chamados de idiota. As paredes são as únicas testemunhas de momentos de solidão. Os amigos de ontem dispersaram – os de hoje só dividem problemas, entre um gole e outro, entre uma partida de cartas ou dominó. Tiro por mim: as lembranças me tornam vivo, e se nessa vida souber construir bons exemplos, dos quais as pessoas queridas possam se espelhar e se orgulhar, terá valido a pena e, com certeza, jamais serei esquecido. Agora, se ouvisse uma criança me chamando de vovô, eu juro que viveria tudo isso de novo, corrigindo os erros que deixei no passado.

Augusto Avlis

Navegue no Blog  opiniaosemfronteiras.com.br e você encontrará 866 artigos publicados em 16 Categorias. Boa leitura.

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 157 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: