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Política

O Brasil carcomido – 2ª parte

1O Brasil subterrâneo e o Brasil de superfície. Dois Brasis diferentes, de conceitos distintos, mas que se igualam na sistemática. Estamos nos acostumando com os resultados preliminares das investigações da Operação Lava-Jato, de tal modo que não causam mais espanto como no princípio das revelações. É assim mesmo que corre a água da chuva. Troca de acusações, defesas prévias, silêncio, são comportamentos esperados que atendem, por obediência, aos scripts determinados pelas bancas de advogados, alguns dos quais “supostamente” pagos com o dinheiro desviado da Petrobras, mas há como se provar o feito. É a ordem natural das coisas no mundo do crime. A delação premiada estabelece uma nova rota no processo, quebra pactos, cria novas regras – amigos e cúmplices do passado, inimigos temidos do presente. Entre mim e meu pai, que morra o meu pai primeiro porque ele é mais velho. Roubamos juntos e a culpa é sua, você é o único culpado. Dane-se, vá se ferrar sozinho.

O Ministério Público Federal comemorou a repatriação de R$ 157 milhões desviados por Pedro Barusco, dinheiro que foi “devolvido” a Petrobras semana passada em cerimônia simbólica. Sabe-se que o rombo provocado pela corrupção ultrapassa a casa dos R$ 6 bilhões – a meu sentir, o valor total desviado é bem superior a R$ 10 bilhões. Cadê o resto do dinheiro? Escafedeu-se, foi pulverizado, desapareceu como manteiga em focinho de gato. A doleira Nelma Kodama, ainda na passarela da fama, foi condenada a 18 (dezoito) anos de cadeia por ter participado de 91 (noventa e uma) operações de lavagem de dinheiro, dignas de alguém com experiência em falcatruas financeiras. Chefe do esquema? Acredito que não, apenas “testa de ferro”; ela deu a cara para bater e se apresentou como responsável pelo negócio, enquanto o verdadeiro “líder” ficou no anonimato dando ordens e à frente do esquema, que não acabou. Nelma Kodama especializou-se na abertura de “empresas de fachada” para viabilizar e “esquentar” as operações irregulares de câmbio no exterior. Chegou a corromper um ex-gerente do Banco do Brasil para facilitar as coisas para a casa de câmbio Da Vinci. Como se abre uma empresa de fachada no Brasil? Como um gerente do Banco do Brasil se deixa corromper? A resposta é a mesma: as facilidades e a ocasião fazem o ladrão, lapidam os corruptores e os corruptos. “Meu papel de compra e venda de moedas era mais ligado a importações. Quando um importador compra uma mercadoria na China, por exemplo, parte do pagamento é feito pelo Banco Central e ele usa o doleiro para pagar o que é por fora, sem impostos, que geralmente é 60% do total”, exemplificou Nelma Kodama. Provavelmente jamais chegaremos aos chefões das quadrilhas, estes protegidos pelo manto sagrado das Leis brasileiras. Meia-dúzia de peixes medianos cairão na rede para saciar a fome por justiça. Os tubarões de sempre nadarão tranquilamente no mar da impunidade, onde comerão novas presas descuidadas. A teia da corrupção é um universo à parte, desafia as autoridades.

Os integrantes da CPI da Petrobras, depois do depoimento da doleira Nelma Kodama, nesta última terça-feira, 12, ouviram o ex-deputado federal Pedro Corrêa (PP-PE), acusado de receber propina de R$ 5,3 milhões do esquema de corrupção na Petrobras, através do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef. Os depoimentos dados na CPI da Petrobras se destacam pelos seus atos teatrais. Pedro Corrêa poderia ter ficado calado, mas, não resistiu e soltou algumas pérolas: “Só não prenderam Lula porque ninguém tem coragem. […] Qual é a influência hoje dele (Lula), se querem botar ele na cadeia? Agora ninguém tem coragem de botar ele na cadeia. Porque eu tenho certeza que aí sim vai existir o que aconteceu na época do Getúlio (Vargas, ex-presidente) quando ele deu um tiro no peito e o povo saiu para rua com paus, panelas, para quebrar tudo. […] Eu se tivesse uma bolinha de cristal, certamente não estaria aqui. Mas eu acho, na minha avaliação pessoal de um camarada que está fora da política desde 2006, que a prisão dele (Lula) seria uma catástrofe para esse País. […] Pelo que conheço da minha região do Nordeste, e pelo que andei nas casas daquele povo pobre, a gente quando chega lá encontra um retrato do padrinho Padre Cícero, junto com o de Lula e de Miguel Arraes. […] É um discurso pra gente enfrentar, colocar o rico contra o pobre é uma coisa difícil de enfrentar”. Alvo da 11ª fase da Operação Lava-Jato, Pedro Corrêa foi transferido do Presídio de Canhotinho, interior de Pernambuco – onde cumpria pena de 07 anos e 02 meses de prisão em regime semi-aberto no processo do Mensalão, onde fora condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro –, para a carceragem da Polícia Federal em Curitiba. O ministro do STF Luís Roberto Barroso atendeu pedido formulado pelo juiz federal Sérgio Moro.

Só não prenderam Lula porque ninguém tem coragem. Eu diria que não é por falta de coragem, é porque os “sistemas” estão comprometidos, de alguma forma estão envolvidos nas tramas. A máfia política é muito poderosa e quem se arriscar a desafiá-la saiba que correrá risco de morte. É bom não brincar com a sorte. A “Operação Mãos Limpas” Made in Brazil está muito longe de ser comparada à original italiana. Por outro lado, falta alguém disposto a contar o que sabe e apresentar provas contra Lula, contra Dilma, contra o PT e petistas famosos. O Brasil sente falta de “Paladinos da Justiça”, imunes a ameaças. Condenado na Ação Penal 470, processo do Mensalão, a 07 anos e 14 dias de prisão e multa de R$ 720 mil, por corrupção ativa e lavagem de dinheiro, o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) – saiu do Instituto Penal Francisco Spargoli Rocha, em Niterói, Região Metropolitana do Rio, às 11h03min de ontem, para cumprir o resto da sua pena em regime aberto – seria uma dessas pessoas, porém, se deixou abater pelo medo e viu que os seus mecanismos de defesa eram frágeis. Na CPI dos Correios (2005) ele não disse tudo o que sabia porque achava que a República cairia, de modo que preferiu assumir o papel de covarde a salvar a República – jamais ela cairia, o país seria lavado de cabo a rabo com desinfetante de boa marca. O seu advogado, Luiz Francisco Barbosa, disse na tribuna do STF que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabia da existência do Mensalão, inclusive teria ordenado as ações ilícitas expostas na denúncia oferecida pela Procuradoria Geral da República. “Eu digo: o presidente Lula não só sabia como ordenou o encadeamento de tudo isso que essa ação penal escrutina. […] Deixaram o patrão de fora. Deixaram não, o procurador-geral da República Roberto Gurgel deixou”, afirmou Luiz Francisco Barbosa. Roberto Jefferson foi proibido pelo ministro do STF Luís Roberto Barroso a falar sobre o Petrolão. Por quê?

Nesta última quarta-feira, 13, na companhia dos seus advogados, o empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC, assinou acordo de delação premiada diretamente com a Procuradoria-Geral da República, em Brasília, porque citará nomes de políticos com foro privilegiado, ou seja, que só poderão ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal. A reunião com os procuradores que atuam na Operação Lava-Jato durou cerca de quatro horas. Pesa sobre Pessoa a acusação de chefiar o “Clube Vip” das empreiteiras, uma espécie de cartel, e também era ele quem definia quais empreiteiras ganhariam esta ou aquela licitação, e, a partir daí, ficava estabelecido o esquema de propinas dentro e fora da estatal. Quando Ricardo Pessoa começar a abrir a boca será considerado o inimigo número 1 do governo, que tanto temia que isso acontecesse. O fato é que novos fatos serão revelados, novos nomes virão à tona e o quebra-cabeça do Petrolão poderá finalmente ser montado. Ricardo Pessoa já havia dito que a campanha da presidente Dilma Rousseff de 2014 foi irrigada com dinheiro desviado da Petrobras, resta agora provar. Vale salientar que o ex-procurador-geral da República Roberto Gurgel não envolveu Lula no Mensalão, e há quem diga que o atual procurador-geral, Rodrigo Janot, protegerá o Planalto contra qualquer denúncia que possa levar ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Por onde anda o ministro da Justiça Eduardo Cardozo? Talvez andando disfarçadamente pelos corredores da Procuradoria-Geral da República (PGR). Apesar de essas suspeitas, as evidências parecem comprová-las.

O Brasil é o problema, ele se transformou no próprio problema. Agora, quer resolver o Brasil? É muito simples, basta acabar com a corrupção. O Brasil está se corrompendo em progressão geométrica, sem limites. Os cofres públicos estão sem tranca, sem segurança, portanto, com as portas abertas para quem quiser entrar e deles se servir à vontade, nesse caso, as quadrilhas de políticos e a súcia cúmplice. É isso que está acontecendo com os impostos que pagamos, colocamos o dinheiro nos cofres públicos e não conseguimos enchê-los, porque a corrupção sistêmica e endêmica não deixa, e aí faltam recursos para a saúde, educação, segurança, etc. Traçando um rápido paralelo comparativo, vamos imaginar um grupo de pessoas tentando encher um tonel com água, todas com balde na mão, ou lata na cabeça, em direção ao açude. Num vai e vem danado, pegam água no açude e jogam no tonel por quantas vezes incontáveis; só que o tonel nunca é cheio e alguém descobre que ele está furado por todos os lados. Os responsáveis por isso não têm o mínimo interesse em consertá-lo, porque a água que escorre de dentro dele vai direto para irrigar plantações clandestinas. O Brasil tem solução. Temos as ferramentas próprias para consertar o tonel furado, o fogo para queimar as plantações clandestinas e as armas para matar todos os responsáveis – a equação tem que ser resolvida antes que a água acabe.

Augusto Avlis

Nota de rodapé: A “Operação Mãos Limpas” ou “Mani pulite” foi uma investigação judicial de grande envergadura que ocorreu na Itália, que visava esclarecer casos de corrupção durante a década de 1990, em seguida ao escândalo do Banco Ambrosiano, em 1982, que envolvia a Máfia italiana, o Banco do Vaticano e a Loja Maçônica P2. A Operação Mãos Limpas levou ao fim da chamada Primeira República Italiana e ao desaparecimento de muitos partidos políticos. Uma das drásticas consequências foi o suicídio cometido por políticos e industriais quando os seus crimes foram descobertos durante o processo de investigações.

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

2 comentários sobre “O Brasil carcomido – 2ª parte

  1. Sinceramente, nunca vi um ex presidente entrometer tanto na politica de um País, como esse cabra da peste do lula. Qualquer medida que vai pro congresso lá ta ele dando pitaco. Isso pode? E o sr. Renam mais Sr. Dulcidio, num sorriso largo, parecia 2 putas na entrada do Cabaré. O Brasil tem jeito é só peitar essa turma que a coisa anda.

    Publicado por nair | 18/05/2015, 01:00

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