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Política

O Brasil carcomido – 1ª parte

O Brasil carcomido – 1ª parte

O Brasil subterrâneo e o Brasil de superfície. Dois Brasis diferentes. A doleira Nelma Kodama emergiu do submundo do crime para confirmar que sobre a terra os procedimentos são os mesmos. Em depoimento aos integrantes da CPI da Petrobras, que foram ontem (12/05) a Curitiba para ouvi-la, Nelma Kodama disse no auditório do Foro da Seção Judiciária do Paraná que o país entrou em crise após as denúncias da Operação Lava-Jato. “O Brasil é movido pela corrupção. […] Uma vez que parou a corrupção (na Petrobras), o Brasil parou. […] É o que eu chamo no meu mercado de bike, bicicleta, um santo descobrindo o outro. Estamos na corrupção da Petrobras, dos empreiteiros. E o que aconteceu quando isso foi descoberto? O País entrou em crise, numa recessão. […] Uma corrupção cobre a outra corrupção. Um santo cobrindo o outro. Quebrou o vício, o círculo, aí o país entrou em crise”. Talvez este tenha sido um dos depoimentos mais sinceros dados na CPI da Petrobras até o momento, mesmo porque não tinha nada a perder. Nelma Kodama foi presa em flagrante em 2014, na madrugada de 15 de março, quando tentava embarcar para Milão, na Itália, com 200 mil euros escondidos na calcinha, perdão, segundo ela, nos bolsos de trás da calça. A doleira Nelma Kodama tem toda a razão quando afirmou tudo aquilo, sobretudo que o Brasil é movido pela corrupção. É uma questão de DNA. Na década de 80 (lá se vão 30 anos) eu ouvi da boca de um presidente de importante grupo de fabricantes de Coca-Cola que “Se o empresário brasileiro não sonegar impostos não sobrevive” – nas reuniões de diretoria ouviam-se coisas do arco da velha.

“Que mudanças seriam necessárias para evitar evasão de divisas por meio de importações fictícias? Ninguém checa se a importação é verdadeira?” – perguntou o deputado federal Izalci Lucas Ferreira (PSDB-DF). “Eu também me pergunto. Como pode fazer uma importação e não vir nada? Tem vários tipos (de importação). O câmbio antecipado, que você paga e depois a mercadoria vem. Só que às vezes não vem” – respondeu a doleira Nelma Kodama, que já confessara à CPI que realizou “evasão de divisas” mediante falsas operações de importação. Ela é apenas um dente da engrenagem. Nelma Kodama está tentando um acordo de delação premiada com a Justiça Federal; se conseguir o tal acordo ela falará muitas coisas que as autoridades já sabem, só que nunca tomaram as providências necessárias para que as “sangrias” acabassem. O modus operandi do esquema fraudulento todo mundo conhece, não são conhecidos os nomes dos criminosos com os quais e para os quais Nelma Kodama operava. Condenada a 18 anos de prisão em regime fechado, talvez tenha a pena reduzida se apresentar novos fatos à Operação Lava-Jato acompanhados das respectivas provas. “Estou disposta a colaborar com a CPI, desde que isso não atrapalhe meu acordo de colaboração em curso”. O Brasil é um paraíso de ladrões.

A história dos crimes fiscais e financeiros Made in Brazil tem diversas datas registradas. A importação de produtos inexistentes, a exportação de produtos que não saem do país, são dois aspectos que figuram na cartilha das quadrilhas especializadas. Criada em 1953 no governo de Getúlio Vargas, a CACEX – Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil (substituindo a Carteira de Exportação e Importação do BB) tinha como principais funções o licenciamento de exportações e importações, o financiamento do comércio exterior e a apresentação de dados estatísticos oficiais sobre essas operações. As exportações e as importações eram cobertas por “Guias”, que obrigatoriamente capeavam os documentos fiscais correspondentes aos produtos negociados. Todas as operações tinham um “ciclo” de fechamento, porém, a fiscalização deixava muito a desejar, como ainda deixa – um enorme corredor aberto para as fraudes com aval dos portos. Uma grande cervejaria brasileira, também na década de 80 (1985/1990), exportou milhares de caixas do seu principal produto para o Paraguai (Pedro Juan Caballero) através de um comerciante-operador localizado na cidade de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, só que a maioria do “volume exportado” era desovada no mercado de São Paulo, ou seja, não atravessava as fronteiras – obviamente as “Guias de Exportação” eram fraudadas e a cervejaria se beneficiava não somente com a suspensão dos impostos como pelo maior preço de venda praticado dentro do Brasil. Onde está a falha? Na falta de fiscalização e na conivência de algumas autoridades que se corrompiam facilmente. Hoje, quantos empresários brasileiros seguem os “padrões operacionais” empregados pela doleira Nelma Kodama, que não é a mãe da criança? A CACEX, nos moldes como concebida, foi desativada a partir de 1990, durante o governo Collor. Atualmente as suas atribuições estão sob a responsabilidade da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX-Brasil), ambas subordinadas ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A “dama do câmbio negro”, como é conhecida a doleira Nelma Kodama no mercado clandestino de compra e venda de moedas estrangeiras, deve também se perguntar: “Como e por que os órgãos de controle brasileiros facilitam as fraudes e o fortalecimento do crime organizado?”. Essa pergunta eu também me faço.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

2 comentários sobre “O Brasil carcomido – 1ª parte

  1. Caberia ai uma junta de cidadãos para auditar esses orgãos de 6 em 6 meses, apresentando um balancete mensal, outro anual. Talvez assim poderia dar um basta a essa sangria. Segundo Sebastião Maia, um grande empresário, que dizia: diminuir a carga tributária e gastando menos do que se arrecada, não precisariamos de Drs em economia pois ela é simples, e ter a colaboração de politicos idôneos ajudaria muito.

    Publicado por nair | 18/05/2015, 00:42
    • O “Melhor dos Mundos” ainda é um sonho distante. No Brasil, o voto não é um processo consciente, de modo que o exercício da cidadania, na amplitude desejada, é extremamente questionável.

      Publicado por augustoavlis | 18/05/2015, 13:30

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