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Política

Somos um país sem opções

Somos um país sem opções

O Brasil vive uma crise de identidade sem precedentes. Buscamos as razões no auto-conceito e as respostas apresentam-se difusas. Existem muitas maneiras duma pessoa achar aquilo que é, ou aparenta ser, mas, no fundo mesmo, ninguém se conhece. Quando há dúvidas no seu pensamento ela segue outras pessoas, copia atos, constrói fatos. Fomos convidados para a festa democrática e os pratos servidos não nos agradam à primeira vista, porém, quando a fome apertar nós os comeremos, sem degustá-los. Uma sopa de letrinhas que ao simples toque da colher formam siglas que se misturam entre si; um caldo cinzento e quente que não conseguimos dizer de que é feito. O mestre de cerimônias, anfitrião oficial, nos recebe na porta e diz: “Entrem, fiquem à vontade, façam de conta que a casa é de vocês, se precisarem de alguma coisa é só pedir”. Garçons andando de um lado pro outro, com as bandejas vazias, repetindo sistematicamente: “O que temos a oferecer a vocês está especificado no cardápio”. Conversas atravessadas no salão principal impedem a compreensão dos temas, mas deu pra entender que as pessoas gastam 70% do seu tempo falando da vida dos outros, 25% com assuntos banais, sem relevância e os restantes 5% do tempo reservados para as obrigatórias idas ao banheiro e na volta beber alguma coisa. Os 100% comprometidos e ninguém falou de si próprio. Essa é a lógica nas relações humanas e políticas. Há relatividade nas mentiras e as verdades são relativas. Dentro da “informalidade” os discursos de apresentação são proferidos à plateia desatenta, todavia, seguem padrões definidos para não quebrar regras de protocolo formal. Solenidade pública que acaba se tornando “privada” e aí os interlocutores começam a entender aquilo que na verdade são de fato e não por direito. Ao final da festa democrática todos voltam para as suas casas com a sensação de que passarão mal naquela noite – e olha que não foi servida sobremesa a quem jantou.

Por que não se contrata uma Certificação de Qualidade para a política? Porque os interesses são mutáveis e extemporâneos, de modo que as normas e os procedimentos jamais seriam respeitados. Mas podemos ter Certificação de Qualidade para as administrações públicas, e isto também não temos. Trabalhamos no varejo sem uma visão global da problemática. As reformas estruturantes das quais o Brasil precisa não são pensadas como deveriam ser, e, aquelas que são pensadas na eventualidade, não são postas no papel, de modo que ficam na imaginação. O importante é ninguém se comprometer com coisa alguma. Perdemos totalmente a capacidade de simplificar as coisas. Bem administrar não significa complicar sistemas para poder valorizar atitudes. Há muito que venho dizendo que o Poder seduz e com dinheiro junto mais ainda, por isso torna os homens obcecados por eles, pelo poder e pelo dinheiro. Outra coisa, a transitoriedade não faz parte do fator cognitivo de quem detém o comando; quem está lá se considera eterno, não enquanto dure, mais pra sempre. Seria tão bom se as pessoas compreendessem que a alternância do poder é saudável para a democracia, para a nação, desde que não haja solução de continuidade, ou seja, interrupção daquilo que está dando certo e, sobretudo, que não se interrompa um ciclo de desenvolvimento por questões de vaidade, de desinteresse e falta de compromisso com a população.

Os governos não preparam os cidadãos para o exercício da cidadania, não os capacita educacionalmente, com pitadas de politização. O politicamente correto é não permitir-lhes o direito de opinar, de tomar as decisões certas quando têm que ser tomadas. Construídos os feudos, artífices políticos encastelam-se no poder absoluto, debruçam-se em projetos pessoais conectados a grupos de interesses, sem os quais jamais poderiam ser materializados. Atingidos os objetivos, a razão maior a felicidade da pátria e dos filhos; o que foi conquistado, ainda que pelos caminhos da ilegalidade permitida, será dividido com aqueles que juraram fidelidade. Prostrada diante do caos, a população assiste. Dois dos maiores problemas do Brasil, o seu tamanho e quem toma conta dele. Imaginemos uma casa com muitos cômodos; numa faxina tradicional certamente algumas partes da casa permanecerão sujas, alguns banheiros, alguns quartos. Junta-se a isso a mania que o seu proprietário tem de querer mudar os objetos de lugar para satisfazer egos e vontades represadas. No simbólico buscamos a ideia de que mudança não significa trocar os móveis de um lugar para outro, ou simplesmente comprar novos para a melhoria do visual na tentativa que agrade. Mudança representa comportamento equânime, compromisso com a verdade, atitude de estadista, revisão de valores, e, acima de tudo, a necessidade de se fazer uma detida auto-análise. Tomar conta das coisas dos outros requer responsabilidade, honestidade e obrigação de prestar satisfação. A máquina de governo está emperrada no seu eixo principal. A população do Brasil chegou a 202.768.562 habitantes e o que eles esperam dos governantes ainda é uma incógnita. Quantos eleitores nós podemos tirar desse número; quantos estão aptos para votar? Pensar o país como um todo, como um bloco uníssono, fará a diferença. O quê os políticos querem deixar de legado para as próximas gerações? Bases sólidas de crescimento sustentável e desenvolvimento global construídas na atual geração? Se isso não for possível não haverá futuro. O certo é que os políticos só sabem construir reservas de escândalos para uso político em momentos oportunos. Urge a necessidade de mudarmos o modelo de representação política. De duas uma, ou quebra-se o sistema, ou quebra o país. Brasileiro, um povo ordeiro, mas com sentimentos fragmentados, tentando se encontrar na desordem social. Somos um país sem opções.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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