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Política

Qualidade de vida – 2ª parte

1A realidade brasileira continua constrangedora, causa mal-estar. A corrupção é o prato do dia e não sai do cardápio político. Será que nós, brasileiros, perdemos a capacidade de indignação? Cada indivíduo tem a sua própria visão de enxergar os problemas, sejam quais forem – desde que as dificuldades não o afetem diretamente. As suas opiniões, na maioria das vezes, deixam de ser externadas pela natural omissão. Esse aspecto cultural abre um enorme abismo na sociedade, as diferenças de classes tornam-se mais visíveis, colocando cada qual no seu lado. A dor alheia eu não sinto, portanto, não me incomodo, não reclamo, a sensibilidade passa longe, não consigo enxergar à distância, o que vai além do imediatismo. O indivíduo perdeu a competência de pensar – essa é a realidade que deixou de embaraçar, de coagir as pessoas –, e ele se vê incapaz de compreender algo com sensatez e clareza, mas também não faz força para tentar. Talvez se o discernimento fosse algo que pudesse ser nivelado quem sabe os indivíduos construíssem, a partir daí, uma sociedade melhor.

A organização sem fins lucrativos ‘Social Progress Imperative’ divulgou na sexta-feira, 04 de abril de 2014, dados do relatório IPS – Índice de Progresso Social, divididos em três importantes grupos: 1º – Necessidades humanas básicas, 2º – Fundamentos de bem estar e 3º – Oportunidades. O relatório analisou o desempenho de 132 países. No índice geral de Qualidade de Vida (Índice de Progresso Social) o Brasil ficou em 46º lugar na edição de 2014 do IPS. O item “Violência” foi o responsável em puxar para baixo o desempenho do Brasil no índice geral de Qualidade de Vida, assumindo a triste posição de 11º país mais inseguro do mundo, obtendo 37,50 pontos de um total de 100 pontos máximos. De baixo para cima da lista, piores do que o Brasil estão os seguintes países: Iraque (21,52 pontos), Nigéria (23,57), Venezuela (27,55), República Centro-Africana (29,41), África do Sul (30,90), República do Chade (31,97), República Dominicana (32,90), Honduras (33,94), México (34,61) e Sudão (37,25 pontos). No ranking geral de Segurança Pessoal o Brasil ficou com a 122ª posição dentre 132 países. A Segurança é o ‘Calcanhar de Aquiles’ dos candidatos presidenciáveis, o seu ponto fraco – os discursos passam a ideia de vulnerabilidade nas propostas de combate, enquanto a sociedade do bem permanece de mãos para o alto.

A organização ‘Social Progress Imperative’ avaliou cinco quesitos para determinar o nível de segurança da população de cada país. São eles: 1º – Taxa de homicídios, 2º – Número de crimes violentos, 3º – Percepção sobre a criminalidade, 4º – Terror político e 5º – Mortes no trânsito. Segundo informações da Unidade de Inteligência da revista britânica “The Economist” o Brasil está entre os 24 países com maior média de mortes violentas, com uma estatística que aponta um número superior a 20 homicídios por grupo de 100 mil habitantes. Não há dúvida de que isso traz consequências desastrosas para a estabilidade das Instituições; o nível crescente de problemas afeta direta e contundentemente os governos, a sociedade organizada, a economia do país e a paz pública – essa não é, portanto, uma visão de futuro, é o que todos nós estamos vivendo no presente sombrio, de modo que a percepção geral da criminalidade só faz aumentar o medo, a angústia e a desconfiança da população. O terror político é um triste fato no Brasil, que possui características de um Estado que admite prisões por motivações políticas (com ou sem julgamento prévio), que viola os direitos civis e políticos de forma sistemática, que tortura pessoas, que as mata em nome da “Justiça”, que faz desaparecer os corpos das vítimas. Tais fenômenos não figuram em revistas de quadrinhos, são práticas cotidianas à luz do dia e na calada da noite, motivadas pela impunidade. Segundo dados da OMS – Organização Mundial da Saúde, o Brasil registrou 22,5 mortes no trânsito a cada grupo de 100 habitantes, estatística que o coloca na 29ª posição no ranking mundial. Perdemos vidas em idade produtiva pela incapacidade de salvá-las, seja com ações preventivas, corretivas, ou fazendo cumprir as Leis. O Brasil amontoa os seus cadáveres ao som da sétima trombeta.

Na avaliação do PIB per capita, o Brasil ficou na 57ª posição. No quesito “Necessidades básicas” o Brasil ficou no 74º lugar (Nutrição e atendimento à saúde 63º, Abastecimento e saneamento 67º, Moradia 53º, Segurança 122º). No quesito “Bem-estar” o Brasil ficou no 38º lugar (Acesso à educação 38º, Acesso à informação 49º, Saúde 47º, Sustentabilidade 35º). No quesito “Oportunidades” o Brasil ficou em 36º lugar (Direitos pessoais 32º, Liberdade pessoal 27º, Tolerância e inclusão 33º, Acesso à educação superior 76º).

“O índice mostra que o crescimento econômico não leva automaticamente ao progresso social. […] Se queremos enfrentar problemas como a pobreza e a desigualdade, o índice mostra que medir o crescimento econômico por si só não é suficiente. […] A ideia do IPS é avaliar se um país pode satisfazer as necessidades básicas de seu povo e se tem infraestrutura e capacidade para permitir que seus cidadãos possam melhorar a qualidade de suas vidas e alcançar seu pleno potencial” – afirmou Michael Green, diretor-executivo da organização Social Progress Imperative.

Lógico que o crescimento econômico, não necessariamente, é convertido em qualidade de vida para a população porque a distribuição de renda perde de longe para a concentração dela – as riquezas do país ficam concentradas nas mãos de poucos. Os governos precisam viabilizar outras ações complementares como: 1ª – Diminuir os níveis de corrupção; 2ª – Transformar o indivíduo em ‘agente’ do progresso e não mantê-lo simplesmente ‘objeto’ dele; 3ª – Criar condições para impulsionar a produtividade em todos os setores (todos produzem e todos ganham); 4ª – Politizar o povo através da educação inclusiva e de qualidade; 5ª – Resgatar a dignidade, o orgulho e o espírito patriótico dos cidadãos; 6ª – Não violar direitos; 7ª – Estimular e fazer Justiça; 8ª – Humanizar a carga tributária com a redução dos índices; 9ª – Garantir a liberdade expressão e de opinião; 10ª – Ter a habilidade de açougueiro para cortar na própria carne os excessos, adotando eficaz política de gestão com a finalidade de reduzir os gastos públicos, sobretudo com administração de pessoal, propagandas de governo, benesses generalizadas, investimentos em países vizinhos sem a contrapartida interna; 11ª – Respeito aos ritos democráticos; 12ª – Não interferir nos demais Poderes da República, deixando que cada um cumpra o seu papel constitucional; 13ª – Governar sem a adoção de Medidas Provisórias; 14ª – Melhorar o PIB per capita e fazer com que a população economicamente ativa veja os resultados; 15ª – Usar de honestidade nos discursos proferidos à Nação Brasileira; 16ª- Não permitir que o exercício da política favoreça interesses inconfessáveis em detrimento da Res publica; 17ª – Não compactuar com países ditatoriais; 18ª – Abrir e fechar a boca na hora certa; 19ª – Fazer o dever de casa; 20ª – No caso de tudo der errado, adotar o exemplo de Getúlio Vargas: Suicide-se, já que a renúncia está descarta – o pedido de impeachment dependerá da boa vontade dos meios de comunicação, os únicos com poderes para levar as massas para as ruas, agora com o auxílio das redes sociais.

Eu poderia elencar dezenas, centenas de ações paralelas, sugerindo aos governos para que as adotassem, ou parte, no sentido de proporcionar melhor Qualidade de Vida não só ao povo brasileiro, mas como a toda população. Coisas simples que deixam de ser executadas, mas que interferem diretamente nos resultados de gestão governamental, sobretudo na área econômica. Sem uma perspectiva de crescimento sustentável com foco na produtividade e no bem-estar da sociedade o “Trem Brasil” não sairá da estação. As indispensáveis Reformas estruturantes estão guardadas numa cápsula de congelamento porque não há vontade política para que de lá elas saiam – se fossem implementadas, de fato e de direito, contrariariam interesses de grupos internos e externos que dão sustentabilidade ao governo, que por sua vez tira proveito da situação caótica. Portanto, quem sofre com tudo isso são os brasileiros, filhos de um país que repousa tranquilamente sobre a carga tributária cobrada dos trabalhadores, daqueles que consomem bens e serviços aquém das suas necessidades. Por que os Marqueteiros e os coordenadores de campanha ainda não utilizaram os dados do relatório do ‘Social Progress Imperative’ para enriquecer as teses dos candidatos, defendidas em programas de debate político? A resposta só eles sabem, os brasileiros ignoram. Enquanto isso, a população terá que aceitar uma dura verdade: a melhoria dos índices apresentados pelo ‘Social Progress Imperative’ ainda é uma possibilidade muito distante e, na realidade, praticamente impossível no médio prazo. Qualidade de vida, que negócio é esse? Não sei!

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

2 comentários sobre “Qualidade de vida – 2ª parte

  1. Publique-se, em todos os partidos, será que 1%, adotariam tais medidas?

    Publicado por nair | 08/09/2014, 23:31
    • Não. Infelizmente. Até quando teremos que conviver com esta triste realidade? De um lado, a ignorância e o flagelo cultural tomando conta do povo desinformado, do outro lado, o governo usando essa desgraça a seu favor. Brasil, o país do futuro, que nunca chega!

      Forte abraço,

      Augusto

      Publicado por augustoavlis | 09/09/2014, 07:35

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