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Política

Estopim aceso – 1ª parte

1O Brasil vive um quadro pessimista, de incertezas políticas, de insegurança institucional, não somente sobre o futuro do país, mas, sobretudo com relação ao presente, porque, dependendo das circunstâncias, o amanhã nem exista com a tranquilidade que desejamos – não há dúvida de que mudanças ocorrerão. O atual estado de coisas é deprimente, avilta a nossa capacidade de indignação; quase que perdemos o direito de manifestar descontentamento, porque nos curvamos ao passar da carruagem, sem ao menos saber quem dentro dela estava – simples particularidades que caracterizam fatos pavorosos, horrendos, sucessivos, descompassados, incompreensíveis. As manifestações populares que sacudiram o Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste, nos meses de junho e julho de 2013, deram um duro e contundente recado ao governo e aos seus artífices: “O povo está vivo e não aguenta mais!”. Não suporta mais tanta indiferença, tanto desgoverno, tanto pouco caso, tanta desordem, tantas promessas não cumpridas, tanta roubalheira. A omissão velada da população deu lugar ao grito dos excluídos, para a inevitável perplexidade dos governantes que, ao som da primeira trombeta, correram com o rabo entre as pernas, urinando nas calças, esconderam-se atrás das pilastras dos palácios. O quê aconteceu, por qual motivo? Perguntavam-se mutuamente e alguns de soslaio diziam: “A culpa não é minha!”. As demandas sociais são creditadas ao povo, porque ele as cria, portanto, na visão dos políticos “deixe quieto que cada um se vira como pode”. O poder público, ausente como sempre, incitou os cidadãos à revolta, só fez juntar fogo e pólvora, atiçou o animal ferido – e ele atacou para se defender.

Órfãos do patriotismo mobilizaram-se nacionalmente, cuja convocação se deu através das redes sociais. O Brasil inteiro conectado, online (estar em linha, estar disponível ao vivo) pelo Facebook e pelo Twitter, sites que estão por toda a parte a serviço “full-time equivalent”dos internautas. As redes sociais são fantásticas do ponto de vista da comunicação em tempo real na velocidade da luz. “Twittar” e “Postar” são novos verbos conjugados amplamente no mundo das redes sociais, que vão muito além da reunião virtual de amigos, profissionais e pessoas de vários matizes de opinião, perfis que acabam se moldando nos relacionamentos. São usuários discutindo fatos e temas dos mais diversos, compartilhando suas ideias, graus de interesse e planejando ações como essas que estamos presenciando por toda a parte. O governo federal tem encarado as redes sociais, sobretudo nesse momento, como “armas de destruição em massa”, mas cometeu um pecado capital por não ter dado a devida importância ao que estava sendo veiculado na Internet, até porque a esmagadora maioria das pessoas detentoras de cargos públicos também se utiliza do Facebook e do Twitter para se comunicar; muitas dessas autoridades possuem Blog. Como monitorar a comunicação virtual? O governo ditatorial que encontre a metodologia certa. Verdade é que os governos federal, estaduais e municipais fizeram pouco caso, lixaram-se aos fatos, achando-se imunes, inatingíveis, eternos. Deram com os burros n’água.

O Movimento Passe Livre deu o ponta-pé inicial. No dia 06 de junho de 2013 o MPL organizou um protesto em São Paulo, capital, contra o reajuste de R$ 0,20 no preço das passagens de ônibus. Era para ter sido um movimento focado, mas acabou deflagrando uma cascata de protestos por todo o país. Outros movimentos sociais aderiram às manifestações e acabaram obscurecendo o responsável por levar as pessoas às ruas – o MPL foi engolido literalmente, porém, foi capaz de mobilizar as massas, ainda que defendendo um sonho impossível de ser concretizado: um transporte público gratuito para toda a população. Pessoas de vários matizes juntaram-se em atos desesperados. É desnecessário copiar imagens e colá-las neste artigo porque a Internet possui um vasto arquivo de imagens e a consulta está disponível, de modo que lá o leitor encontrará farto material de destacada qualidade no que diz respeito a detalhes e registros precisos feitos pela imprensa à época.

Os ovos dos dinossauros continuam eclodindo. Quinta-feira, 15 de maio de 2014. Dia marcado pela volta dos protestos em várias cidades do Brasil contra a realização da Copa do Mundo de Futebol. Manifestações anti-Copa também aconteceram no mundo. O dia 15 de maio de 2014, quinta-feira última, foi batizado pelo Comitê Popular da Copa SP como o “Dia Internacional de Lutas contra a Copa”. Centenas de pessoas se reuniram na Praça do Ciclista, Avenida Paulista com Rua da Consolação, num ato contra a realização da Copa do Mundo FIFA de Futebol no Brasil. A caminhada começou no fim da tarde e o ato foi encerrado em frente ao Estádio do Pacaembu, na Praça Charles Miller (Charles William Miller – São Paulo, 24 de novembro de 1874 / 30 de junho de 1953. Foi um esportista brasileiro, considerado o “Pai do Futebol” no Brasil). Fragmentos sociais tentando se juntar para formar um corpo único, encarniçado, renhido. Simultaneamente, outros eventos aconteceram em várias capitais brasileiras. Que o sentimento de esperança não seja falso; que as manifestações não abram caminho para a volta do medo. A contagem regressiva segue.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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