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Consultoria & Marketing

Um Dia de Fúria – parte III

1Vocês devem ter percebido que nas duas primeiras partes eu mantive o mesmo tópico frasal, mas isso tem uma explicação. Em primeiro lugar, quando a matéria é dividida em partes, é muito comum o leitor começar a leitura por alguma parte que não seja a primeira, portanto, a primeira oração – ou os dois períodos iniciais do parágrafo, geralmente curtos – tem a função de ideia central, sinalizando o desenvolvimento do texto, facilitando a sua compreensão. Pensando nisso, vou repeti-lo. A maioria das pessoas, com as quais eu converso, já assistiu ao filme “Falling Down” (Drama, suspense dos Estados Unidos e da França, datado de 1993, produzido por Joel Schumacher, tendo no elenco os famosos atores Michael Douglas e Robert Duvall). O enredo de “Um Dia de Fúria” foi marcante e a cena da lanchonete foi comentada milhares de vezes em seminários de Marketing, inclusive por mim. Passados 21 anos, eu poderia dizer que também tive o meu dia, digamos, “Um Dia de Raiva”, depois de participar de dois episódios como ator coadjuvante interpretando o papel de vítima – ambos os casos aconteceram no Brasil, num dia de sábado, 10 de janeiro de 2014, em ambientes realistas, portanto, não fictícios, muito embora a vida continue imitando a arte. Ou será que a arte reproduz exatamente a vida? Vamos ao segundo episódio.

Neste caso, vamos ao terceiro episódio, em comemoração, hoje, sábado, 15 de março de 2014, ao Dia Internacional do Consumidor. E nada melhor do que relatar um “case”, uma experiência recentemente vivenciada no meu reduto de compras não programadas e consumo sistêmico. Na última quarta-feira, 12, entrei numa sapataria para comprar um par de sandálias de marca famosa (aquela que não solta as tiras) a pedido da minha querida e amada sogra. Pois bem, essa missão não me parecia impossível, além de tudo, naquele dia estava com espírito cristão à flor da pele e queria demonstrar um gesto de amor, independente da pessoa identificada como alvo do recebimento da graça. A princípio me assustei porque a loja estava vazia, de clientes e de funcionários, perdão, consegui ver duas moças quase que escondidas atrás do balcão onde fica o caixa e a seção de embalagens. Um pouco à direita uma funcionária ao telefone, de cabeça baixa, supostamente falando com o namorado, em horário de expediente. O restante daquela loja, que pretendia vender sapatos e sandálias, estava totalmente entregue às moscas – esta subordem de insetos dípteros também demonstrava certo cansaço. Não tive alternativa senão marcar território (sem urinar no chão da loja) aumentando o tom de voz para ser notado. As duas primeiras moças simplesmente me ignoraram e a terceira pediu licença ao seu interlocutor, que estava do outro lado da linha, e disse categoricamente: “Senhor, eu estou em horário de almoço, não posso atendê-lo!”. A experiente vendedora continuou ao telefone. Como estava determinado a comprar o par de sandálias para reconquistar a confiança da sogra e ganhar alguns dias de paz, com a habilidade que me é peculiar, fiz a atenciosa vendedora largar o telefone e fazer de conta que estava me atendendo. O “atendimento” não demorou mais do que cinco minutos. Paguei os exigidos R$ 33,96 (sem desconto) pelo par de sandálias Havaianas, coloquei o pacote debaixo do braço esquerdo e fui embora.

Muitos clientes não aceitam desculpas, vão embora e não voltam mais. Clientes insatisfeitos não voltam mais e ainda fazem propaganda negativa. Desagradável ficar batendo na mesma tecla; as pessoas ficam de saco cheio e incomodadas, assim como os clientes mal atendidos. Todavia, por dever de ofício, sou obrigado a repetir a música como se fosse um disco de vinil arranhado – preciosidade em desuso. Onde estava o gerente da loja naquele momento? Não sei. Onde se encontravam os demais vendedores? Almoçando todos juntos? Faltaram ao trabalho? Não sei. O quê estava fazendo aquela vendedora, em horário de almoço, na área de vendas? Essa pergunta eu sei responder: usando o telefone da empresa para fins pessoais, já que no local das refeições não há telefone disponível para todo mundo que deseja falar com os seus parceiros em horário de almoço ou fora dele. Casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão. Uso esta máxima quando escrevo determinados artigos políticos. Como aqui o assunto é Consultoria & Marketing, dou o seguinte recado: “Trem sem maquinista costuma sair dos trilhos, mata gente e perde a carga”. Para terminar o “case”, porque o disco de vinil está rodando na velha vitrola, repetirei o que disse àquelas elegantes e maravilhosas funcionárias da organização Calçados Itapuã S/A – CISA, antes de tomar o meu rumo de casa: “Imaginem esta loja, e todas as outras da rede Itapuã, totalmente sem clientes, como um balde furado sem água, com certeza um cenário desértico, ideal para a indústria e o comércio que não precisam dos consumidores para sobreviver. E tem mais, onde estariam vocês agora?”.

Frase do dia:

“Cuidado com as imitações”.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

3 comentários sobre “Um Dia de Fúria – parte III

  1. Boa tarde querido,gostaria de saber oque acha dessa entrevista …

    O BRASIL INTEIRO DEVERIA LER ESTA ENTREVISTA

    Entrevista com o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, ao jornal O Globo.

    Estamos todos no inferno. Não há solução, pois não conhecemos nem o problema

    O GLOBO: Você é do PCC?

    – Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…

    O GLOBO: – Mas… a solução seria…

    – Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

    O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?

    – Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

    O GLOBO: – O que mudou nas periferias?

    – Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

    O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?

    – Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa?

    O GLOBO: – Mas… não haveria solução?

    – Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco…na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi cheentrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

    Publicado por Gislaine Patricia Oliveira | 19/03/2014, 12:51
    • Gislaine,

      Boa noite.

      O texto postado por você ficaria melhor em um artigo de Política ou Segurança Pública. Mesmo que postado neste artigo classificado na categoria Consultoria & Marketing, Um Dia de Fúria – parte III, é merecedor de comentário.

      Gislaine, o Poder é corrupto, a corrupção Made in Brazil é sistêmica e endêmica, por isso, a cada dia são forjados novos criminosos justiceiros com o pior dos metais, segundo planejamento de produção elaborado pelas lideranças nacionais que se postam virtualmente ao lado do bem. Maus exemplos de cima são copiados embaixo. O entrevistado não disse nenhuma novidade. A sensação que fica é o gosto de fel, um arrepio na pele. É triste presenciar a destruição de uma geração que poderia combater quem precisa ser combatido. O terceiro milênio está sendo governado pela Besta! Não vejo saída, senão rezar.

      Leia os meus artigos de título “Drogas, epidemia mortal”. Lá você encontrará respostas para muitos dos problemas e questionamentos apresentados pelo entrevistado – vítima do sistema, algoz de si próprio. Punindo os inocentes acabamos com a oportunidade de mudar o Brasil.

      Forte abraço,

      Augusto.

      Publicado por augustoavlis | 19/03/2014, 18:29

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