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Pensamentos

Imaginação Sociológica – 10ª parte

1Quando a gente pressente que vai morrer, quando o fim está próximo, tem vontade de reviver o passado, de estar nos lugares onde esteve antes, de encontrar as mesmas pessoas que nos fizeram rir ou chorar, e que de certa forma foram responsáveis pelo que somos hoje. Algumas já partiram desta vida, outras pessoas aguardam o momento. É algo estranho, inexplicável, mais parece um filme de enredo indefinido. Nascer, crescer, reproduzir, viver e morrer são contingências. O relógio do tempo está prestes a parar, e de nada adianta quebrar o vidro para atrasar os ponteiros. O tempo é cruel, resta-nos aceitar a sua passagem. Uma luz no fundo do túnel parece mostrar o caminho; não qualquer faixa estreita de terreno, uma estrada sinuosa, um pequeno atalho ou uma picada natural, visíveis como imaginamos, mas sim um espaço espiritual que nos permita percorrer sem retroceder, que nos permita compreender o papel que assumimos, ou deixamos. Conscientemente negamos a existência efêmera e passamos a acreditar na longevidade carnal sem complexos de culpa – atraímos seguidores. Estamos trancados dentro do quarto com a chave do lado de fora da porta e devemos aproveitar a oportunidade para procurarmos velhas fotografias, amareladas, e cartas manuscritas recebidas numa época qualquer, lidas pela metade – talvez o achado revele alguma coisa.

Será que o homem possui capacidade suficiente para entender o seu papel desempenhado na sociedade? Evidentemente que existem enigmas a serem decifrados. Para isso precisamos sair da nossa zona de conforto e abrir mão de determinadas posições, sobretudo radicais. Temos pela frente um jogo de espírito, um desafio complicado que demandará reflexão crítica. As relações sociais, hoje, são resultantes das condições externas de opressão, isto é, a maioria quer, e impõe, e o resto segue – ou, o mais forte decreta a ação e a maioria obedece sem questionar, sem medir as consequências. A chamada “Indústria cultural” está empurrando os indivíduos a assim agirem, transformados subliminarmente em “massa de manobra”, sem que percebam. Daí questionar-se a humanização do homem dentro de uma sociedade tecnológica, extremamente cobradora e seletiva, num processo recorrente, portanto, não é demais afirmar que as relações sociais acontecem em atmosferas cada vez mais dominantes, imperativas e castradoras de direitos, de modo que não há o que se discutir. A sociedade moderna está reescrevendo a historicidade do homem. É muito provável que tenhamos que acionar a cremação da memória e, portanto, das lembranças. Estamos perdidos no mato sem cachorro, e, na falta de um defensor, fertiliza-se o terreno social para que cresçam fortalecidos grupos de manifestantes “politicamente incorretos”. As manifestações de grupos insatisfeitos, que reclamam os mesmos direitos (?) e reivindicam tresloucadamente do governo serviços públicos de qualidade, têm tomado conta do país nos últimos 09 meses, tempo certo para o nascimento de políticas saneadoras e resolutivas dos problemas levantados pela sociedade. Choramos a céu aberto as nossas dores, incertezas e compaixões. Pra quê estender a mão se ninguém a segurará? O Estado, ausente, observa à distância. É a Lei da sobrevivência do poder, de modo que não se envolvendo nas contendas sociais, os líderes governamentais podem seguir a maré que melhor lhe aprouverem, e assim conquistar a liberdade para agirem do jeito que quiserem. Sem reação, a massa continua massa, geradora de votos e apoio.

A “inclusão digital” determinando o início de uma nova era nas relações sociais, onde toda uma sociedade digital, plugada 24 horas do dia, se comunica sem precedentes, quebrando todas as regras interativas. Não preciso olhar dentro dos seus olhos, basta eu teclar a mensagem e enviá-la na velocidade da luz, mesmo que você esteja sentado ao meu lado. A resposta obedece ao mesmo procedimento legal. Pingue-pongue virtual, comunicação moderna. A atual geração planetária está se imbecilizando gradativamente através de um processo comunicacional desestruturante, proposital, extremamente alienador e dominante. A gama de informações, hoje disponíveis, tem provocado mais prejuízos do que resultados práticos, sobretudo pela forma como são tratadas pela Indústria cultural. Toda uma geração “sem noção” está sendo formada totalmente sem conteúdo, leitora de manchetes garrafais – na eventualidade do assunto despertar real interesse, caso contrário, nem isso. Mas, não vamos achar que os internautas são burros, seria burrice da nossa parte, digamos que são desinteressados pela mesmice declarada. “Você soube daquele caso?”. “Que caso?”. “Aquele”. “Qual?”. “O avião caiu!”. “Sim, aquele avião!”. Agora, pergunta qual foi a empresa aérea, onde e quando foi o ocorrido, qual foi o número de vítimas fatais, se houve sobreviventes, quais foram as causas do acidente, enfim, ninguém sabe. Fenomenologicamente, a quebra definitiva das fronteiras da grande “Aldeia Global” provocou na humanidade um comportamento semelhante ao dos galináceos sendo acuados no canto do galinheiro, ou seja, muito alvoroço, desordem, barulho, cansaço. Para que o objetivo final seja alcançado, o processo de castração é também recorrente. Como reverter esse quadro de completa subserviência a sistemas planejados? Viver numa sociedade plugada 24 horas do dia requer um treinamento especial, urgente e de curto prazo. Somos reféns da tecnologia aplicada. Entrou na Net e já está exposto, e assim caminha a humanidade, como fiel da balança entre o bem e o mal. Hoje, infelizmente, o mal está prevalecendo. O Diabo governa o século XXI – damos a permissão.

Não sei se o simplesmente “achar” facilitará o entendimento da “Imaginação Sociológica”, contudo, identificar, conceituar e tentar explicar detalhadamente os fenômenos sociais têm se tornado tarefas muito difíceis, quase impossíveis, devido ao agudo processo de transformação pelo qual passam as relações humanas; mudanças substanciais verificadas no habitat natural – e não adianta o homem pensar que receberá cuidados especiais fora dele. Charles Wright Mills (Waco, Texas, 28/08/1916 – Nyack, Nova Iorque, 20/03/1962), estudioso das questões sociais, foi um sociólogo norte-americano, mestre em Arte, Filosofia e Sociologia pela Universidade do Texas, doutorou-se em Sociologia e Antropologia pela Universidade de Wisconsin, além de professor de Sociologia das Universidades de Maryland e Columbia. Charles Wright Mills ficou mais conhecido depois da publicação do seu livro “A Imaginação Sociológica” nos Estados Unidos em 1959. No seu livro, Mills apela para que os sociólogos não percam a faculdade da “imaginação” e da “criatividade” no exercício da sua profissão, sem perder o caráter científico. Cada indivíduo tem algo a contribuir para o desenvolvimento do grupo social no qual esteja inserido, e, ao mesmo tempo, desempenha o seu papel no contexto sociológico, ainda que não se considere devidamente “libertado” dos idealismos propostos pelo capitalismo ocidental selvagem e pelo socialismo onipotente e matizado. As mudanças sociais são intensas e se desenham inevitáveis. Para Émile Durkheim (15/04/1858 – 15/11/1917), considerado um dos pais da Sociologia e fundador da escola francesa, “os fatos sociais devem ser tratados como coisas” – a sociedade predomina sobre o indivíduo, que se realiza, desde que literalmente integrado à estrutura social, e a aceite como norte de convivência. A própria sociedade e a “consciência coletiva”, dela decorrente, seriam entidades morais? A rigor deveriam ser, entretanto, a exigência de adaptabilidade aos novos tempos torna a “consciência” fragmentada segundo interesses pessoais, é o tal “salve-se quem puder”. Seja como for, estão deixando de ser “entidades morais” por força da “substituição de valores” – a razão perdendo o sentido. A chamada “pressão do terceiro milênio” está moldando uma nova versão do ser humano, produção esta sem controle de qualidade. Charles Wright Mills criticava que a Sociologia deveria ser acessível à compreensão dos indivíduos comuns e argumentava que os intelectuais da época deveriam manter uma posição crítica e reflexiva frente à realidade pública vivida, portanto, com o uso de uma linguagem necessariamente simples. Na verdade, temos a mania de complicar até o óbvio para a demonstração de sabedoria. Prática secular.

Um sonho: uma sociedade de paz, de tolerância e de união. A conquista e a preservação dos Direitos Universais como a liberdade (alijar qualquer sistema de dominação individual, grupal e coletiva), o acesso irrestrito (aos espaços, aos bens materiais e/ou imateriais, aos serviços) e a opinião (manifestar-se segundo vontades, regras e perspectivas). As sociedades, mesmo as mais remotas, sempre lutaram por esses direitos, todavia, em pleno 3º milênio da era Cristã ainda a opressão se faz presente em alguns países – modelos de poder inaceitáveis considerando o atual nível de evolução que se encontra a humanidade. Ou seria involução, considerando que o homem é o exterminador do presente e o maior predador da própria espécie que jamais existiu no planeta? O poder, quanto mais alto, se coloca numa posição de intocabilidade. O homem sempre quis estar à frente do seu tempo, considerando-se preparado para fazer a viagem; descarta a possibilidade da ocorrência de problemas diversos que eventualmente provoquem riscos aos seus planos. Em um determinado intervalo do seu tempo o homem precisa de motivações, e de suas renovações, para continuar vivendo e, portanto, seguir sonhando. Esta é, sem dúvida, a tônica da existência humana, na perspectiva do campo transcendental. Não há o que se discutir modelos estruturados de convívio se a unicidade decorre da aparência, de modo que, em regra, projetamos a mesma imagem dos semelhantes. E, por semelhança, decorrem as ações, ainda que os atos se materializem sob diferentes atmosferas e por agentes de diferentes identidades – copiamos modelos de conduta. Na tentativa de construir mundos novos ao nosso redor, negligenciamos conceitos básicos da engenharia espiritual – esta não pode ser ensinada nos bancos das escolas tradicionais. Por conceito firmado, edificamos as relações humanas com o dom de derrubar as paredes, ou de não terminar a obra, na simples suspeita de agravos. Com efeito, na busca inglória de referências, que possam sobremaneira guiar os nossos passos pelos caminhos da vida, deparamo-nos com o abstrato, retrocedemos num gesto de autodefesa, constatamos que a realidade é outra e começamos a enxergá-la de outras formas, sob prismas diferentes. Por aparente conclusão, o ser, concebido simplesmente homem, está se transformando em célula morta, portanto, não reprodutível.

Um ser sociológico é um ente só – a convivência afasta; a solidão aproxima.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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