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Pensamentos

Imaginação Sociológica – 9ª parte

1Por quê? Como isso é possível? Perguntamo-nos constantemente sem que as respostas estejam ao nosso alcance – ficamos sem saber. Questionamentos que nos levam a supor, admitir hipoteticamente certas coisas, talvez por isso nasçam os conflitos interiores, que distorcem fatos, desvirtuam a intenção ou o sentido de algo. Sofremos calados. O inevitável “encontro consigo mesmo” requer preparo espiritual, introspecção, desapego. Quantas vezes já nos sentimos abandonados no meio da multidão indiferente, ainda que tentássemos gritar “estou aqui”! Circunstancialmente, esperávamos que alguém acenasse. Somos fantasmas sem rosto e sem sombra; não chamamos atenção, não somos notados, senão pela violência – que está do nosso lado nos assombrando, potencializando crimes e estimulando a barbárie; ações violentas dizimando lentamente a espécie. Por quê? Como isso é possível? Bocas falam para ouvidos que não querem ouvir; olhos enxergam na escuridão enquanto a luz atrapalha quem não quer ver. Somos andarilhos por missão atribuída. As relações sociais, literalmente, estão se tornando não verdadeiras, cada vez mais difíceis e deveras complicadas. As pessoas agem premeditadamente, com os dois pés atrás, tornam-se confusas e procedem intempestivamente. Os prejulgamentos são comuns dos dois lados, ou só de um. Noto que o simples contato com as pessoas dá a impressão de um toque sutil num floco de neve, que se desfaz imediatamente, sumindo no ar. De algum tempo pra cá as relações humanas não estão deixando resíduos bons. Descarto o outro? Provavelmente. É o que tem acontecido com relativa frequência na sociedade, composta por indivíduos plurais. Olho pro meu telefone celular e vejo que a caixa de entrada de mensagens está vazia e não há chamadas não atendidas, muito embora a lista de contatos seja grande, com dezenas de pessoas conhecidas e também estranhas, que jamais as verei. É preferível a mudez do celular a aproximações desagradáveis. Por quê? Quem se habilita a fazer um juízo moral? Diferenciar o bem do mal faria a diferença no mundo moderno, conturbado, sombrio. Como isso é possível? Não sei!

A falta de tranquilidade emocional é responsável por uma série de problemas psicossociais. Expressões conturbadas dão o tom nos relacionamentos. Há quem dê, exageradamente, importância ao dinheiro, não havendo outra coisa além dele. O dinheiro é importante? É. Desde que não nos tornemos escravos dele e vivamos somente em função dele. O dinheiro não é tudo. Desde que se transformou em única e exclusiva moeda de troca passou a ser responsável pela satisfação, total ou parcial, das necessidades primárias das pessoas (subsistência), e, sobretudo, das necessidades secundárias (complementares) que, por sua vez, passaram a ter maior importância na escala de valores estabelecida pelo status, modismo e pela indústria do consumo, lembrando que a mídia exerce poderosa influência nesse processo. O “poder” confundiu-se com o “ter” – eu posso, portanto, tenho além do necessário. Eu sou poderoso financeiramente, de modo que estou acima de tudo e de todos. Se eu possuo as condições necessárias não quer dizer necessariamente que terei tudo que estiver ao meu alcance ou fora dele. Nem todos pensam assim. Eu sou capaz e estou preparado para conquistar o que preciso. Idem pensamento primeiro. Na verdade, ninguém é dono de nada, apenas assume a posse transitória dos bens que estão “temporariamente” em seu poder. Essa é a lógica da vida material que tem transformado as pessoas nos diferentes grupos sociais e rotulado as classes, segundo o “ter” e o “ser” – o querer não significa poder, há impedimentos, e o “estar” depende de fatores diversos. Se formos parar para pensar, a Revolução Industrial e o avanço das comunicações forjaram as sociedades plurais – seguiram-se tendências e culturas adaptáveis. O “eu” em primeiro lugar; o “eu” em segundo lugar; o “eu” em terceiro lugar, e depois vem você, quando não for possível o “eu” novamente. Quando o indivíduo agrega felicidade ao dinheiro torna infeliz o grupo de convívio que pensa diferente, de modo que o conceito de felicidade está intimamente ligado ao que a pessoa quer para si e não deseja para os outros – esta é uma resultante subliminar.

Às vezes as pessoas demoram muito para mostrar os dentes e quando o fazem geralmente escolhem momentos impróprios. Nós somos as nossas escolhas, mas o difícil é conviver com elas. A ação de reparação dos erros causados depende fundamentalmente da intensidade dos traumas, dos recalques, das frustrações, das neuras e de muitos outros sentimentos escondidos ou arquivados no subconsciente, que foram adquiridos em diferentes espaços de tempo. As regras formais de conduta estão escritas em algum livro empoeirado. Pequenas coisas que fazem a diferença quando vistas numa dimensão maior, quando praticadas em conjunto. Repensar o social através de regras de conduta informais talvez modifique o comportamento cotidiano, a percepção que temos do outro. A formação de uma sociedade mais justa e igualitária depende disso. A “Sociedade Democrática” sendo questionada. No banco, pego uma senha preferencial (idoso) e eu sou obrigado a esperar o atendimento de quatorze pessoas “não preferenciais” na minha frente, até que chegue a minha vez de ser atendido. Pergunto ao Caixa do banco se aquilo era normal e ele me olha, com cara de anormal, e simplesmente não me diz nada. Os indivíduos não foram educados para reivindicar, mas sim para abrir mão dos seus direitos. O imperialismo fantasiado do século XXI interpreta a peça e espera aplausos. Modelos de representação pública cunhados com o pior dos metais. O homem travando uma eterna luta contra os seus conflitos interiores, mas, ao final, acaba se rendendo às evidências, acaba perdendo, porque perde as forças, porque deixa de acreditar nas possibilidades, porque se entrega facilmente, porque não acredita no imponderável, porque subestima o destino. O ciclo biológico do homem existe para ser investigado, não a favor da evolução.

Inversão de valores, fato preocupante que tem afetado diretamente a “sociedade global” num ritmo acelerado, mudando a forma de pensar, de agir e de interagir das pessoas. A partir do momento que se valoriza o “desonesto” em detrimento do justo e do correto, como se fosse um objetivo a alcançar, algo de muito errado está acontecendo. Vive-se a era dos “conflitos de conceitos”, potencializada por outro fator negativo, qual seja, a necessidade do indivíduo “se dar bem” em tudo aquilo que se propõe a fazer, ainda que, obrigatoriamente, precise rasgar o manual da ética, da moral e dos bons costumes e passar por cima de todo mundo – vive-se um drama maior quando se comemora a falta de integridade. Entrementes, tais comportamentos nocivos e contaminantes só fazem estimular as próximas ações daninhas e não há como inibi-las porque se tornaram plurais, multiplicam-se numa progressão geométrica. Na Ação Penal 470, Processo do Mensalão do PT (Partido dos Trabalhadores), as multas impostas pelo Supremo Tribunal Federal aos réus petistas condenados estão sendo pagas com dinheiro arrecadado das pessoas comuns e não comuns, e sabe-se lá de quem mais, que atenderam ao chamamento pela Internet (!?). No jogo entre Vasco e Flamengo no domingo, 16 de fevereiro, clássico pelo Campeonato Carioca, o time cruzmaltino teve um gol legítimo anulado (uma falta cobrada pelo jogador Douglas que colocou a bola 33 centímetros dentro da linha). Um “erro” grosseiro que interferiu diretamente no resultado da partida. O Flamengo ganhou o jogo pelo placar de 2×1. Segundo Jorge Rabello, presidente da Comissão de Arbitragem de Futebol do Rio de Janeiro (COAFRJ), o juiz de linha auxiliar Rodrigo Castanheira não será punido por não ter validado o gol, ainda que estivesse posicionado corretamente a poucos metros do lance. Jorge Rabello resolveu blindá-lo porque considerou que aquele foi um “erro de interpretação”. O pior disso tudo, conflitando conceitos, é que a maioria dos flamenguistas saiu às ruas comemorando a vitória do seu time, alegando mera “ilusão de ótica”. São dois episódios distintos, Made in Brazil, um na área política e o outro na área de esportes, ambos com efeitos extremamente negativos, mas que muito bem exemplificam a minha teoria. As pessoas comuns costumam se completar nos erros das outras pessoas julgadas espertas, inspiram-se na falta de moral e ausência de ética, enquanto as pessoas incomuns são idiotas por não seguirem a multidão. A percepção da corrupção está nivelada ao nível de azedume sentido na boca.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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