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Pensamentos

Imaginação Sociológica – 8ª parte

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A escuridão é apavorante, faz brotar um sentimento de medo e de angústia. Quando se está só, independentemente da atmosfera criada, podemos ir ao encontro de uma luz interior – ainda que guardada a sete chaves no fundo da alma –, tão magnificamente brilhante, que a tudo nos é permitido enxergar. As distâncias desaparecem, os devaneios dão lugar à razão, o tempo para, nada se move, exceto as lembranças furtivas. Buscamos explicações para os sonhos, e alguém nos diz baixinho ao pé do ouvido que, longe de quimeras, é a realidade apresentada às avessas – basta entendê-la, sem segundas opções, sem terceiras intenções. O “estado de espírito” é indivisível, de modo que não há como dividi-lo com outra pessoa; esta situação emocional em que o indivíduo se encontra é particular, impede a invasão de curiosos – um espaço privativo indicado por dezenas de placas como essa: “Favor retornarem ao local de origem e não voltem”. Punhais afiados, sibilantes, atravessam o vento, penetram na minha carne e impiedosamente dilaceram o meu ser. Reações não manifestadas diante da fragorosa impotência. O soluço da dor não significa, necessariamente, a redenção da alma acorrentada. Não, não representa a libertação dos sentimentos reprimidos diante de uma cobrança superior. Verdadeiramente o amor é um sentimento lançado como uma flecha que jamais volta ao local de onde partiu. Onde estão as pessoas de carne e ossos? Provavelmente sumiram no meio do nevoeiro sem deixar pegadas ou pequenas marcas que provassem presença – indeléveis achamos que somos. Quisera eu, hoje, tentar aplicar o aprendizado de outrora, que fora desperdiçado pela não absorção e pelo pouco caso. Daqui a pouco vou embora, me levantar, sacudir a roupa vestida, bater os sapatos, deixar o silêncio pra trás e voltar para o agito da cidade grande, na certeza de que a frieza do concreto arrefecerá o calor humano, como sempre o fez. Somos estranhos de nós mesmos. Tudo parece fazer sentido agora.

Evidentemente que não são posições poéticas ou afirmações romanceadas. A vida é um teatro onde cada um cumpre o seu papel. Seria esta uma premissa verdadeira? Olhar pelo espelho retrovisor do tempo sem tirar os olhos do para-brisa é ato contínuo e exigência da própria vida. A visão crítica perde o sentido na medida em que o senso de responsabilidade deixa a desejar. As mazelas acumuladas pela sociedade do capital, uma delas o inchaço das periferias causado pelo acúmulo de gente sem recursos e sem oportunidades, não causam espanto – a falta de infraestrutura, sem dúvida alguma, é outro problema a ser analisado com viés político. Este é um juízo claro, sobretudo quando dele partimos para procurarmos entender as diferentes classes sociais que estão sob o olhar seletivo do Estado, que se mantém ausente quando o assunto é pobreza; que se mantém presente quando o assunto é eleição. As relações histórico-sociais dos indivíduos criam modelos de sociedade, a economia separa grupos e a educação transforma tudo – ainda um sonho distante. Com efeito, por primazia, a economia do planeta colocando em evidência novos padrões estruturados de individualidade, onde os egocentrismos exacerbados são a mola mestra do consumo particular seletivo. As leis de mercado acompanham as tendências dirigidas. Logicamente que por trás disso está a política econômica desenvolvimentista, que, a rigor, baseia-se no objetivo almejado do crescimento da produção industrial, e, na paralela, da infraestrutura necessária – o Estado participa ativamente dessa política econômica, porém, direciona-a segundo interesses meramente políticos, em prejuízo de planejamentos conjunturais (conjunto de normas estabelecidas e ações estruturais que harmonizam as relações sociais, econômicas e também políticas). Transferimos responsabilidades todo o tempo e não assumimos o que somos – deixamos de fazer. Em decorrência da enorme desproporção, há perdedores, por excelência, nessa queda de braço anunciada pela economia de consumo. Mas, o que tudo isso tem a ver com a ideia de sociedade? Tudo, sem o que não haveria evolução e progresso. Por outro lado, da mesma forma que o “analfabetismo funcional” também é visto pela mídia, nos seus diferentes graus de manifestação, o trabalho em si não emancipa os homens, de modo que estas não são questões centrais, contudo, ambas, são dependentes da “Sociedade industrial”. Estímulos dos mais variados põem por terra as teorias mal concebidas e colocam em plano superior o amplo e real significado da palavra “dominação”. Somos conduzidos.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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