>
Você está lendo...
Pensamentos

Imaginação Sociológica – 7ª parte

1Eu não preciso de ninguém para dizer que amo, porque o amor está nas minhas atitudes. Eu não preciso de nada porque suponho que já tenho tudo. Eu não preciso de amparo porque as minhas pernas aguentam a caminhada. Eu não quero companhia porque a solidão me conforta. Eu não quero a mentira nem a verdade absoluta. Eu não preciso do sentimento de pena, de compaixão, porque não quero que julguem a minha condição. Eu não preciso de coisas materiais porque não as poderei carregar, de modo que assumimos a posse transitória dos bens. Não preciso de dinheiro porque não compra a felicidade e a continuidade da vida na Terra. Não quero espelho para não ver a maldição do tempo. Não quero falsos amigos nem inimigos para odiá-los. Não quero o que me desejam. Não quero que me devolvam os anos que vivi porque eu posso cometer piores erros. Eu não preciso de perdão, tampouco o concedo da boca pra fora. Não quero separar o joio do trigo. Eu preciso de alguém para olhar nos olhos, ver meu reflexo, saber que eu existo. Eu preciso do mundo para ter a certeza que nele estou inserido como célula humana. Eu preciso da discórdia para dela discordar. Eu preciso da compreensão para saber que estou errado. Eu preciso da paz para pensar. Eu preciso de mim mesmo para me condenar. Eu preciso da ilusão para continuar sonhando. Eu preciso do sorriso das crianças, do perfume das flores, da beleza dos pássaros para contemplá-los. Eu preciso do silêncio para gritar. Eu preciso da dúvida para encontrar a certeza. Quero o direito de escolha. Eu preciso de mãos fortes para carregar o meu corpo sem vida até o sepulcro. Eu preciso de Deus para me acolher, iluminar e guiar. Passei pela vida para morrer.

A vida em conjunto pressupõe infinitas comparações – opiniões diferem nesse sentido –, concordar e discordar fazem parte do Modus Vivendi. Cada indivíduo vive à sua maneira, tem um modo particular de encarar a realidade, de modo que são comuns as incompatibilidades decorrentes das divergências de pensamentos. A “Ordem Social” é fruto do “Espírito Coletivo”, sem o que não existiria a sociedade, modulada pelo trabalho, bem-estar e pela justiça social. A preservação da raça humana – enquanto sociedade humana organizada –, depende de uma gama de fatores distintos, como a soma de forças (muitos unidos podem mais do que poucos dispersos), como a liberdade provinda da cultura determinante e da educação emancipativa. Pactos sociais tendem a anular a alienação coletiva, desde que sejam originários da própria sociedade, ao passo que a “anulação da personalidade” dos cidadãos pode recrudescer desde que o governo instaurado promova os mecanismos para esse fim, tendo em vista a prevalência do domínio político e projeto de poder. Remeter o homem ao seu “Estado Natural”, ao seu estado primitivo significa arruinar a espécie, de modo que verdadeira é a afirmativa de que “O homem é o lobo do homem” (Thomas Hobbes: 05/04/1588 – 04/12/1679. Matemático, teórico político e filósofo inglês. Autor de “Leviatã” e “Do Cidadão”, ambas as obras datam de 1651). Ninguém é suficientemente forte para que a sua vontade isolada se sobreponha ao interesse geral. Somos pessoas públicas submetidas às mesmas leis, portanto, é uma questão lógica de espaço e de direitos. Segundo Thomas Hobbes, no “Estado de Natureza”, todos os indivíduos são extremamente iguais, possuem as mesmas necessidades primárias e querem as mesmas coisas. Esse tripé de sobrevivência tem como base o instinto de autopreservação – este não é só um desejo inato de manter-se vivo, o “homem natural” quer sempre mais, em completo desfavor do seu semelhante.

“O homem é o ministro da natureza, e a sociedade vem enxertar-se nela. As leis são feitas para os costumes, e os costumes variam. Todas as coisas humanas parecem submetidas ao aperfeiçoamento gradual”. Esse significativo excerto, retirado do discurso do líder político e militar durante os últimos momentos da Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte (15/08/1769 – 05/05/1821), pronunciado ante o Conselho de Estado quando da discussão do Código Civil Francês, bem retrata, notadamente, a sua percepção, ainda que fragmentada, quanto ao modelo de “Ordem Social”, naquela época em fase de desenvolvimento. O homem é senhor de si, um ator social, concorre para a mudança de valores culturais, éticos, morais, educacionais, políticos, religiosos e sociais – ele também é responsável por fazer as necessárias adaptações desses valores, segundo conceitos de evolução e progresso passados de geração a geração. Por outro lado, fatores genético-biológicos interferem nas condições sociais dos indivíduos, de modo que podem provocar o que chamamos de “distância social”, ou segregação como forma de dissociação. Sociologicamente, um câncer que toma conta do tecido social, difícil de curar. A “Sociedade Natural” apresenta uma dinâmica interessante, para funcionar depende de regras objetivas e de comportamentos subjetivos. Diferentemente de fórmulas matemáticas que nos dão resultados precisos, compreender as relações do indivíduo com o seu habitat requer um esforço muito além do normal, sobretudo porque os homens, no seu universo, não buscam o aperfeiçoamento (desenvolvimento de competências) para interagir com os grupos sociais dos quais fazem parte. O homem é um ser social, absorvente, transformador e agente de mudança, mas, para que sejam alcançadas as “etapas graduais de sabedoria”, ele, o homem, precisa mudar internamente, como premissa básica. São etapas que demandam conhecimento contínuo, resignação, desprendimento e espírito coletivo. Caso contrário, é possível que surjam cientistas propondo a criação de habitats artificiais como criadouros da espécie humana.

Augusto Avlis

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 158 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: