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Pensamentos

Imaginação Sociológica – 6ª parte

1O horizonte é fascinante. Sinto-me atraído pela linha divisória que separa a alma da carne, o imaginário do palpável. Há aqueles indivíduos cujo corpo não projeta sombra; há também determinadas pessoas, sem corpo, que são a sombra de outras. A introspecção nem sempre revela o interior das pessoas; às vezes a mente fica vazia, e de propósito não fazemos questão de emergir os pensamentos que provavelmente nos fariam sofrer de novo – melhor deixá-los onde estão. Talvez não nos caiba o profundo exame acerca das nossas próprias experiências, porque, uma vez concretizadas, não deixam espaço para arrependimentos – o que passou, passou. Geralmente, nomes de terceiros têm mais presença nessa análise reflexiva, de modo que, quase sempre, por regra comportamental, os julgamos diretamente responsáveis pelos acontecimentos, que muito nos desagradaram ao longo do tempo, inconsertáveis nessa altura da vida. O poder do dinheiro estabeleceu um limite territorial entre ricos e pobres, de modo que para poucos acumularem riquezas, muitos precisam abdicar desse direito. A ganância pelo capital, sobretudo no século XIX e início do século XX, com o “nascimento” dos poderosos da indústria, construiu um profundo abismo social, e a mão-de-obra escrava, que decorreu desse processo, só fez rotular a época do capitalismo selvagem que, infelizmente, sobrevive até hoje totalmente adaptado aos novos tempos, com sutis toques de “gestão participativa” e “garantias empregatícias”. De certa forma, este modelo de domínio econômico, ratificado sobremaneira pelas grandes Corporações, interfere fortemente nas relações de trabalho, e tais vínculos têm influenciado no comportamento dos indivíduos nos seus diferentes grupos sociais; este fenômeno mudou a maneira de se interpretar o “ser social” e de se compreender a sociedade no seu processo evolutivo, já que o progresso é uma viagem sem volta num veículo com poucos lugares. Mero pensamento filosófico, a propósito, o horizonte perceptível é bastante atraente.

A falta de consciência, própria da natureza humana, nivela os indivíduos por baixo, torna-os sem noção, reféns de pontos de vista obtusos capazes de comprometer relacionamentos e provocar rupturas sociais. Informações mal decodificadas mostram a outra face da “capacidade perceptiva” das pessoas e, de certa forma, interferem direta e negativamente na sua maneira de interpretar os fenômenos sociais a partir da própria existência. Exige-se do ser humano o pleno conhecimento daquilo que se passa no seu quadrilátero de convivência e fora dele. Não se trata de uma visão mais ou menos clara, mas sim de certezas (ainda que poucas), de possibilidades que o façam aproveitar do direito de liberdade opinativa e, sobretudo prática, em questões morais, éticas, religiosas, políticas, econômicas, sociais, enfim, pessoais e ou íntimas. Estamos falando da “Liberdade de Consciência”, que nos dá a sensação do dever cumprido, um sentimento de alívio momentâneo pelo fato de termos concluído alguma coisa, seja no pensar, seja no agir, seja no compartilhar. Passamos a vida inteira tentando algo – viver é uma tentativa –, de modo que, se não conseguimos o que queremos, é porque negligenciamos a simplicidade, que em tudo existe, mas temos a mania de complicar as coisas. Essa é a regra geral. Os homens bons e os maus andam lado a lado, nos mesmos caminhos; na medida em que julgamos serem opostas as estradas estaremos negando a realidade, ainda que dura e imutável. O homem é o produto do meio onde nasce, onde vive, onde convive, onde escolhe ficar.

Dois imensos problemas que têm influenciado no processo das relações humanas: o egoísmo e a intolerância. Já afirmamos isso antes. Decomposição social? Miséria, pobreza, falta de comida, saúde e educação precárias, falta de teto para morar, são realidades a céu aberto – estão aí pra todo mundo ver. O não acesso aos bens primários mata a esperança. A dor aproxima os iguais quando se busca a cura; a indiferença afasta as pessoas quando não se aceita as diferenças; a riqueza deixa o homem sozinho. Retorno à caverna? Homens se manifestando como verdadeiras bestas em pleno terceiro milênio da era Cristã. No mundo cruel, brutal, também temos agrupamentos sociais. Há uma “besta represada” dentro de cada indivíduo; fato incontestável. A prática de esportes violentos, verdadeiros massacres, máquinas de moer carne humana, é um bom exemplo disso. Perante as leis dos homens, há dessemelhanças entre os “indivíduos socialmente corretos”, a partir da “lei do mais forte” – na verdade não somos iguais; características específicas e não específicas nos tornam diferentes uns dos outros, de modo que grupos se destacam no meio social por “terem o domínio da posse” e outros grupos distanciam-se por “serem o que são”, segundo ações, opiniões particularizadas e pela própria falta.

Ora, será que pelo fato de uma pessoa possuir bens materiais e, sobretudo, dinheiro, ela pode tudo? O simples coitado que não tem nada, por isso não pode nada? Estamos diante da inversão de valores humanos. Onde ficam as riquezas imateriais? Poucos são aqueles que têm o dom de identificá-las. Ninguém pode se achar no degrau mais baixo da sociedade a ponto de não representar absolutamente nada, ou quase nada no seu meio. Esta é uma das proposições da “Imaginação Sociológica”. A Antropologia Social estuda o homem na sociedade e no meio ambiente. O estudo da “estrutura social” envolve o estudo de processos, de relações e de grupos sociais. A realidade social e a própria sociedade constituem-se um tecido de interações, ou seja, ações recíprocas, pelas quais os homens se associam, ou dissociam; se aproximam ou se repelem. A interação social é uma sucessão de contatos sensoriais. As relações entre os homens começam nos simples contatos e vão terminar na interação entre as partes. A vida social existe porque os pensamentos, as emoções, as crenças, as palavras, os gestos de uma pessoa podem provocar em outra pessoa, ou em um grupo humano, reações do mesmo tipo, ou seja, atos, ideias, comportamentos e sentimentos semelhantes. A interação social é responsável pela socialização do ser humano e pela formação da própria personalidade de cada indivíduo – sem o outro, quem sou? A comunicação é a forma mais geral e direta do processo de interação social, desde que sejam criados ambientes favoráveis e desde que todas as pessoas envolvidas estejam dispostas ou predispostas a atingir esse objetivo.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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