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Polícia e Segurança Pública

Más lembranças II – “O Enjeitado”

Más lembranças II – “O Enjeitado”

Fernandinho Beira-Mar – ninguém o quer.  A justiça não sabe o que vai fazer com ele. Os poderes públicos também não. Parece um leproso, um aidético, um tuberculoso, um demente, um doente terminal. Não vai ser fácil se livrar dele. Erva daninha, capim que renasce. Beira-Mar faz-me lembrar daquele parente inconveniente, endiabrado, vagabundo e alcoólatra que mora na nossa casa e não temos coragem de mandá-lo embora porque ajuda nas despesas, paga o colégio dos sobrinhos, compra presentes para todos. Todos, indistintamente, fazem vistas grossas e não se importam donde vem o dinheiro. O Inferno brasileiro é assim mesmo. Quando se tem balde de sobra, falta merda. Quando aumenta a produção de merda, falta balde para carregá-la. Produzimos muitos bandidos, delinquentes e criminosos, e falta cadeia para todos. Como agora as travessuras deste moleque estão passando dos limites, os seus parentes mais próximos ficam num jogo de empurra-empurra danado. O tio do lado, São Paulo, proibiu a sua entrada e mandou fechar as portas. A madrinha, Brasília, já o hospedou e hoje está com a casa lotada de marginais e de brincalhões engravatados. Fernando de Noronha, Abrolhos e Trindade – três amigos íntimos da família – não foram consultados, ainda, porque se espera uma resposta da irmã Ilha das Cobras. Coitada, réptil só no nome; porém, pode, um dia, abrigar um espécime raro de víbora. O seu irmão gêmeo, Rio de Janeiro, se ferrou. A professora, Justiça, chamou-o de “Território da Culpa”. Se colar, Fernandinho Beira-Mar continuará ligado a ele, agora, mais do que nunca.

Mesmo não aceito, rejeitado e abandonado, Beira-Mar – O Enjeitado – receberá atenção, apoio e cuidados especiais, por uma mera questão de conveniência, ou melhor, por causa do seu saldo bancário. Ainda vai continuar, por muito tempo, sendo um joguete preferido nas mãos das autoridades. Deixem-no quieto, em algum presídio de segurança máxima – se existir, é claro –, porque será bem melhor para todos os seus iguais que ficarão do lado de fora, e, sobretudo, para a sociedade do bem. Presidente Bernardes, São Paulo, noite do dia 05 de maio de 2003. O mau filho, Fernandinho Beira-Mar, retorna à prisão de segurança máxima, onde já esteve. Desde que foi capturado em 2002, Beira-Mar passou pela Polícia Federal de Brasília, pelo presídio Bangu I, pelo presídio de segurança máxima de Presidente Bernardes (com RDD – Regime Disciplinar Diferenciado) e pela Polícia Federal de Maceió, em Alagoas, nesta ordem. Alegando ter gastado R$ 400 mil durante os longos 40 dias que hospedou o ilustre traficante, a Polícia Federal de Alagoas deu graças a Deus por ter se livrado dele, sobretudo porque prefere trabalhar nos efeitos e não nas causas, assim como as demais polícias. À testa de um negócio bilionário, Beira-Mar, por si, já é motivo suficiente para justificar o elevado custo que a máquina estatal tem na sua movimentação. Seus constantes passeios de um Estado para outro exigem um aparato policial cada vez maior e digno de uma celebridade estrangeira. Os mesmos que lhe concederam notoriedade e glamour preferem mantê-lo bem vivo – pelo menos até agora. Ainda há muito dinheiro em caixa e muitos bolsos para abastecer.

São tantos os escândalos de corrupção na política que não há espaços suficientes nos noticiários para Fernandinho Beira-Mar – ele agradece. Foi assim nos últimos sessenta dias e a mídia não teve alternativa senão lhe dar trégua. Para o público em geral não faz diferença alguma, e também continua não fazendo, porquanto sai de cena temporariamente um marginal e entram outros de terno e gravata, porém, ambos os crimes, são igualmente nojentos – tráfico de drogas e corrupção estão interligados na sua essência. Em fevereiro deste mesmo ano o Rio de Janeiro voltou outra vez às páginas negras de todos os jornais. Chefões do tráfico, encabeçados por Beira-Mar, comandaram de dentro dos presídios ações de guerrilha urbana contra a população indefesa – agora nem a camada mais abastada está sendo poupada. Do lado de fora, os seus comparsas obedecem às ordens dadas e cumprem rigorosamente o plano estabelecido: depredam, metralham e incendeiam ônibus com gente dentro; lançam granadas e bombas de fabricação caseira em edifícios de luxo; outros tantos prédios são alvejados por automáticas, inclusive os públicos; o comércio amargou um prejuízo da ordem de algumas dezenas de milhões de reais devido ao fechamento de lojas, por determinação do tráfico, em pelo menos vinte bairros da região metropolitana do Rio; etc e etc. A rotina dos cariocas é interrompida abruptamente – eles só têm a certeza de que saem de casa vivos, mas não sabem se voltam. Aliás, todos aqueles que vivem no Rio têm esta sensação macabra.

O que tem causado perplexidade são as declarações das autoridades responsáveis pela segurança pública, quase que diariamente na imprensa, admitindo publicamente que, antes do acontecido, tinham conhecimento de que o tráfico estaria orquestrando tais ações e que a qualquer momento elas seriam implementadas e não fizeram absolutamente nada para o seu impedimento. Esta premeditada impotência das autoridades nos passa, no mínimo, a impressão de que uma vez “livres” dos ataques, “protegidas” contra atos de vandalismo, suas famílias à margem do caos urbano, seus patrimônios preservados, enfim, com a certeza de que não se tornariam vítimas desses bandos de criminosos, essas mesmas autoridades fechariam os seus olhos e os Comandos Vermelho, Preto, Roxo, Cinza, Amarelo, e de qualquer outro matiz, poderiam (como podem) fazer o que muito bem entendem ou queiram contra a população inocente e desprotegida. Outra impressão que se tem é que o Rio de janeiro mais parece uma grande casa de meretrizes governada por sacanas (tenho o pleno direito de falar isso, porque sou carioca da gema, nascido no território que antes foi o Distrito Federal e o Estado da Guanabara). O pânico geral é o principal alimento do sadismo do qual é acometida uma cabeça diabólica – Beira-Mar posa de anjo salvador porque tem costas quentes; só não sabemos quem aquece tanto o seu dorso lanoso.

A história não pára por aí. Fatos e mais fatos surgem ao longo do tempo. O nosso 11 de setembro faz aniversário todo dia, portanto, é comemorado de 1º de janeiro a 31 de dezembro, ano após ano. Algumas torres tropicais caíram quando da rebelião ocorrida no presídio Bangu I no dia 11 de setembro de 2002 – o traficante UÊ, e outros, foram sentenciados à morte por grupos rivais e seus corpos queimados, alguns ainda com vida. Fernandinho Beira-Mar, vizinho de cela, com cara de ovelha tosquiada, jura por Deus que não teve nada a ver com o episódio. Dezenove dias depois, ou seja, no dia 30 de setembro, o Rio de Janeiro parou diante de uma onda de boatos espalhados pelos mensageiros do tráfico por toda a cidade, dando conta de um iminente desencadeamento de ações de violência e terrorismo. O comércio teve as portas arriadas, as atividades pararam, a população amedrontada chegou mais cedo em casa e de lá não saiu, até o novo dia amanhecer. Este foi mais um dia de fúria no calendário carioca. Até quando? Enquanto isso, Fernandinho Beira-Mar vem se destacando no mundo do crime por suas qualidades merecedoras de louvor, tanto que por ocasião da sua movimentação tratam logo de vestir nele um colete da Polícia Federal antes da pose para a foto oficial. Quem o julgou digno de vesti-lo, também o considere célebre, notável, insigne, nobre, fidalgo – então que vá providenciando um bom estoque de coletes porque outros “Beira-Mares” estão surgindo. Provavelmente a Justiça não deixará Fernandinho Beira-Mar apodrecer na penitenciária de segurança máxima de Presidente Bernardes, até porque, pela lei dos homens, ele só pode ficar lá por seis meses e com certeza os seus advogados já devem estar preparando a sua fuga, perdão, o seu salvo-conduto. As autoridades do Rio de Janeiro vão espernear, porém, o destino do traficante, inimigo número um dos cariocas, deverá ser mesmo o seu retorno para Bangu I. Toda a população sobrevivente do Rio pensa em recebê-lo de braços abertos, ou melhor, de mãos pro alto. Escrevi este artigo há mais de 10 anos.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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