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Consultoria & Marketing

Brasil, país pirata?

Brasil, país pirata?

Procurei dar um cunho de “trabalho acadêmico” a esta matéria, isentando-a de qualquer conotação política, porque aqui os objetivos são outros. Pois bem, hoje eu consegui agravar o meu estado de indignação. Estava quieto em casa, chovia um pouco, a chuva fina e fria de final de outono anunciava a breve chegada do inverno. Resolvi descer os três andares para ir ao banco pagar algumas contas – o BB fica bem em frente ao meu prédio, é só atravessar a avenida –, nem todas com atrasos rotineiros. Na entrada do banco tropecei numa montanha de DVD (Digital Versatile Disc) e quase caí estatelado. O vendedor desta porqueira não perdeu tempo: “Três por R$ 10,00 é só escolher”. Fiquei puto da vida com aquilo e desisti de pagar as contas. Voltei pra casa com a certeza de que as contas que não estavam atrasadas ficariam.

Você compraria produtos pirateados ou contrabandeados, mesmo sem saber a sua origem ou procedência? A princípio, tais mercadorias jamais deveriam estar disponíveis para a venda. Se estiverem, é por conta de uma fiscalização precária, omissa, conivente e até corrupta, que facilita a ação dos fornecedores. Nesse processo de comercialização dois outros importantes agentes fecham o ciclo. Primeiro, os revendedores, constituídos por desempregados que, por falta de opção, são empurrados para o trabalho informal pelos empresários que usam a carga excessiva de impostos e os custos sociais elevados como justificativa única para a não contratação de mão-de-obra formal. Segundo, os consumidores, que pelo fato do achatamento do seu poder de compra, mais do que nunca, avaliam o custo-benefício no ato da aquisição do bem, sem se importarem tanto com os aspectos qualidade, durabilidade, garantia.

Como impedir a continuação do comércio ilegal de produtos falsificados, contrabandeados, de origem duvidosa, piratas? De que forma proteger a indústria nacional, que recolhe impostos de toda ordem para produzir e comercializar produtos legais? Como coibir a sonegação fiscal e a evasão de divisas? De que maneira criar mecanismos de defesa voltados aos consumidores finais? Sou Consultor de Empresas, Jornalista e Escritor, não político legislador, portanto, não tenho o direito de dar palpites nesse sentido – disse anteriormente que isentaria a matéria de qualquer conotação política. Todavia, um dado preocupa e causa torpor: O Brasil perde a cada ano R$ 100 bilhões de faturamento por consequência da comercialização de produtos sem origem declarada, jogados aos milhares de toneladas no mercado interno. Cerca de 2 milhões de empregos diretos deixam de ser criados tendo em vista esta prática ilegal.

O “mercado formal” de produtos pirateados ou contrabandeados está aquecido; a demanda tem aumentado consideravelmente; a Lei da “Oferta e Procura” se manifesta nas nossas praias e em qualquer esquina da cidade – CD, DVD, tênis, óculos, relógios, brinquedos, etc, são oferecidos em grandes quantidades, sobretudo por orientais, quiçá ilegais no país. De que maneira podemos nos cercar dos cuidados necessários para não cairmos na tentação da compra? Por hipócrita passa o consumidor que afirma estar fora desse mercado; que jura nunca ter comprado carne clandestina no açougue do bairro; que sempre exige Nota Fiscal em todas as compras que faz. Atraído pelo preço, já comprei produto falsificado (sem saber) num Shopping famoso e, por pura ironia, quando fui trocá-lo por causa de um pequeno defeito, a TV da loja estava sintonizada no Jornal Nacional e a reportagem anunciava: “Brasileiro paga, embutidos nos preços dos produtos, 40% de carga tributária”. O vendedor da loja me fez a seguinte pergunta: “O que é mais indecente pagar 40% de carga tributária ou vender produto fruto de contrabando?”. Entendi a sua mensagem. O vendedor denunciou sutilmente a loja, resolvi o meu problema e fui beber chope na praça de alimentação.

O mercado brasileiro, sobretudo de bens não duráveis, está desmoralizado, por isso, é brutalmente penalizado pelas constantes perdas de volumes comercializados. As teorias de Marketing precisam sofrer adaptabilidades e encontrar soluções para combater diretamente esta onda de invasores. A competitividade se dá numa atmosfera de desigualdades, mas esta realidade jamais deva ser uma variável considerada pela indústria que pretenda entrar no jogo do “vale tudo”, empenando o eixo produtivo, mexendo na qualidade, aviltando os preços e ainda desqualificando os serviços prestados. A diversificação aliada ao processo criativo, a descoberta de novos nichos de mercado, a adoção de novas metodologias de comunicação e a valorização do capital humano são as principais exigências do Planejamento Estratégico.

Se o governo não consegue fazer a sua parte, empurrando com a barriga a Reforma Tributária, não reduzindo a carga de impostos agregados, cabe ao empresariado fazer a sua contraparte, mesmo porque costumo empregar uma máxima, que serve como frase do dia:

“O brasileiro tem uma capacidade de se recuperar como o rabo de uma lagartixa”.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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