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Educação

Anarquia escolar

Anarquia escolar

Estamos vivendo um sistema social em que o princípio de autoridade não é respeitado gerando uma desordem de classes e uma indisciplina generalizada.  A falta de disciplina nas salas de aula põe em xeque o modelo de gestão educacional, exigindo um “repensar” dos procedimentos convenientes ou ordem requerida para o bom funcionamento das escolas, sobretudo públicas. A submissão a regulamentos foi sempre o norte do relacionamento entre alunos e professores. Hoje assistimos à triste rendição das regras, dos métodos e instrumentos de respeito impositivo. A famigerada desordem promovida por alunos inconsequentes vem tomando proporções assustadoras. É um problema que se agrava na medida em que atinge níveis de violência jamais vistos e expõe a integridade física de pessoas, independente dos riscos à inteireza moral. Desta maneira, especialistas no setor tentam relacionar as causas que expliquem a origem da anarquia escolar – efeito direto da sequência de mazelas e enfermidades do sistema.

A briga entre dois alunos menores de idade, numa escola de Linhares, ES, nesta semana, reacendeu a questão da violência nas escolas. São alunos da 8ª Série e reincidentes nos atos de agressões mútuas. A briga, filmada, foi parar na Internet e gerou assunto de reportagem nas TVs do Estado.

O principal motivo é a fragmentação familiar. Num ambiente onde a criança não tem referências de comportamento; as relações interpessoais decorrem da intempestividade; o desrespeito é a tônica do convívio; numa casa onde falta pão e esperança; pergunto: o que esperar dessa criança, desse adolescente; desse jovem? Como resgatar os valores perdidos no tempo? Tudo é um processo. De tal modo que as questões sociais, como a crescente criminalidade e o desapego ao sentido de correto, são descendentes. Quando a rua não adota os filhos – órfãos de pais vivos –, a escola é vista como a única e grande responsável pela sua tutela. Aí se confundem as tarefas de ensinar e de educar. Sem o devido amparo, proteção e defesa, não podemos esperar muito dos “agressores naturais” – aqueles quem fazem vítimas numa sociedade politicamente correta; e omissa.

O professor não pode tudo. Já tem problemas demais com que se preocupar. O Estado se mantém ausente. Paradoxalmente, desenvolve políticas públicas com conotação mera e explicitamente demagógica. Alunos rebeldes têm que ser tratados com a necessária autoridade, sem exclui-los dos grupos organizados, das comunidades sujeitas às mesmas leis e objetivos comuns. As suas famílias, no seu mais veemente flagelo econômico-sócio-cultural-educacional, carecem de urgente atenção por parte dos governos para que as supostas soluções não sejam buscadas em cima de um amontoado de efeitos. No tempo em que se ensinava, entre outras matérias básicas, latim, literatura, duas línguas estrangeiras, canto orfeônico e desenho artístico, a partir da 5ª série, as escolas faziam uso de palmatórias e infligiam diversos castigos (ficar de joelhos sobre grãos de milho; de cara para a parede; ser expulso da sala de aula; copiar centenas de vezes uma frase; etc) aos alunos recalcitrantes. Nem por isso os professores eram agredidos, ofendidos ou desrespeitados – muito pelo contrário, eram tratados como parentes amados e queridos. Os tempos mudaram; pra pior!

Tem gente que se declara favorável ao uso de câmeras para monitorar salas de aula. É claro que não; nunca fui favorável a esse tipo de cerceamento. Com quais finalidades essas câmeras seriam instaladas? Para pegar alunos olhando pras pernas das colegas de classe? Pegar a cola nas provas? Ver quem está desatento, tirando e colando meleca debaixo das carteiras? Flagrar o pobre coitado do professor coçando o saco, ou falando mal da escola? Se for para pegar algum aluno portando arma de fogo, traficando drogas, ou em atitudes suspeitas, então que providenciem a rápida instalação de outras câmeras nos corredores, nos pátios, na cantina, nas quadras de esportes, na biblioteca, nos banheiros, na secretaria, nos telhados, nos portões de entrada, enfim, em qualquer local por onde transitam os alunos.

Já não basta a sociedade adulta ser alvo de constantes invasões de privacidade – seja em qualquer ramo de atividade –, e agora as crianças e os jovens estão sujeitos a espionagens por meios eletrônicos dentro das salas de aula, justamente um lugar onde a civilidade, a tranquilidade e o respeito deveriam imperar como nos velhos tempos. Os especialistas em segurança pessoal e patrimonial continuam trabalhando nos efeitos da violência – enquanto isso aos alunos cabe a tarefa de retocar a maquiagem porque uma nova ordem surgirá da direção das escolas: “Sorria, você está sendo filmado”.

Sabemos que tal procedimento não irá resolver, de maneira alguma, o problema da violência, ou simplesmente inibir a intenção em cometê-la – as câmeras serão um veículo que simplesmente irá registrá-la, na hora do seu acontecimento, para depois ser exibida em horários nobres da televisão, com a carga de emocionalidade suficiente para nos causar espanto.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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