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Crônicas Aforísticas

30ª Crônica

30ª Crônica

A verdadeira história do “Heury”

Não poderia haver outro cenário tão perfeito para o desenvolvimento do enredo: bairro São José, periferia da cidade de Manaus. Lembro-me perfeitamente que era período de chuvas (o inverno amazonense) e andar nos limites da cidade trazia um transtorno danado para quem se arriscasse. Vamos deixar de circunlóquio.

Na segunda metade da década de 90, a Pepsi explorava, com muita propriedade, um ícone sugestivo nas suas campanhas publicitárias – um chipanzé, que aparecia nas cenas dirigindo um Jeep, bebendo Pepsi e sempre acompanhado de belas garotas. Até então a sua arqui-rival Coca-Cola mantinha uma linha tradicional na produção das suas propagandas, insistindo no uso de jovens com caras de “idiotas dependentes” ou desenhos animados caracterizando “animais abestalhados”. Talvez fosse hora de mudar, ainda que aparentasse plágio, mas o importante era radicalizar a mensagem e alvoroçar o mercado de refrigerantes. Na qualidade de Executivo de Marketing da Coca, perdão, da Coca-Cola (é melhor assim para evitarmos problemas futuros), eu planejava isso. Apostava na minha insanidade.

Também o meu instinto criativo me sinalizava que isto era exequível, de tal modo que torcia pelo Supervisor de Vendas, Pedro, me confirmar quando seria, de fato, o novo espetáculo do “Cavalo que bebe Coca-Cola. Segundo ele, a maior atração de um circo amador volante. Era tudo o que eu queria, até porque não deixaria a Pepsi, com o seu macaco degustador, desfrutar sozinha do mais novo nicho do mercado de consumo de bebidas gasosas: o mundo animal – com ou sem instinto, com ou sem inteligência virtual.

Uma semana depois, o Pedro me liga ratificando o convite e convoquei o gerente do Centro de Distribuição Caxangá, Roberto, e sua inseparável filmadora, comprada na Zona Franca – já ia me esquecendo, o Supervisor de Vendas Pedro foi junto como contrapeso, mas foi útil porque ajudou no Merchandising. Rumamos para o local da apresentação do equino, que não chegou a ser famoso no Brasil, e internacionalmente também não. Chovia. Chegando lá, para nossa surpresa, e frustração, o circo estava totalmente desmontado e partiria para uma nova temporada de três dias numa vila do interior, desde que a Coca-Cola fosse encontrada com regularidade e a população local fosse superior ao número de 100 pessoas.

Com a prestimosa ajuda dos proprietários do circo não foi difícil localizar o “Heury” no meio de uma dúzia de caixas vazias de Coca-Cola. A meu pedido, o Roberto me apresentou como Chefe de Redação de uma emissora de TV local, então, dei início ao trabalho de reportagem entrevistando o primeiro animal, perdão, um dos “donos” do circo:

– É mesmo verdade que este cavalo bebe Coca-Cola diretamente nas garrafas e por isso se tornou a maior atração do circo? Como tudo começou? Qual a idade e o nome dele?

O sócio majoritário do circo, porque também era o dono do cavalo, respondeu:

– O nome dele é “Heury”, com H, e se pronuncia ‘Réuri’ – aqui o pessoal sempre foi metido a falar inglês. Ele tem dois anos e meio e nasceu no Baixo Amazonas. O “Heury” bebe Coca-Cola desde pequeno. Há dois anos um palhaço o surpreendeu pegando com os dentes as garrafas vazias de Coca-Cola de dentro das caixas e levantava a cabeça para beber o restinho do refrigerante que havia no interior delas. O palhaço pediu demissão do seu cargo, porque naquele dia um político tomou o lugar dele para fazer um discurso de campanha, e resolveu aprimorar a atividade do “Heury” como Heavy-User de Coca-Cola. Daí pra frente foi tudo fácil – era só colocar uma caixa no picadeiro e lá ia o “Heury” correndo em direção a elas, as garrafas. Direta, ou indiretamente, o meu circo vem contribuindo para o aumento das vendas porque o público, percebendo o desejo descontrolado do “Heury” por Coca-Cola, tem deixado sobrar mais produto dentro das garrafas.

Fiz uma segunda pergunta:

– O “Heury” só bebe Coca-Cola?

O dono do cavalo:

– Já colocamos Pepsi, café, chá preto, e até Q-suco, dentro das garrafas vazias, mas não teve jeito, o “Heury” é um consumidor exclusivo de Coca-Cola, assim sendo, já sondamos um Consultor de Marketing para viabilizarmos um contrato de publicidade com o Grupo Simões, engarrafador de Coca-Cola em toda a região Norte e, quem sabe, produzir o espetáculo do “Heury” na mesma altura da importância do produto.

O Roberto piscou o olho pra mim e entendi tudo. Já que o circo ia mesmo embora e para não perdermos a viagem, propus enriquecer a reportagem, chamando o “Heury” para um ensaio oficial, vamos assim dizer. “Roberto, prepara a filmadora”, solicitei. Ao Pedro pedi que comprasse doze garrafas de Coca-Cola numa choça próxima.

Uma a uma, as garrafas foram abertas e colocadas no chão e o “Heury” as pegava com os dentes, bebia todo o líquido e as colocava no chão novamente. Ficou furioso quando a Coca-Cola acabou e pediu mais. Resumo da ópera: o “Heury” deve ter bebido uns cinco litros de Coca-Cola nos meus cálculos, deu uns trezentos arrotos na minha cara e sujou a minha camisa de linho com capim podre em função dos espasmos que teve, o que me valeu o apelido de “repórter fedegoso”. Antes de fechar a matéria, prometi aos donos do circo (proprietário é quem paga imposto) que se eles conseguissem fazer o “Heury” trocar de embalagem, ou seja, passar a beber Coca-Cola Pet 2 litros e deixar de tomar o resto das garrafinhas de vidro tamanho KS (é a pequena com 290 ml), que exibiria a dita reportagem na sede da Coca-Cola em Atlanta – EUA (The Coca-Cola Company) e, com um pouco de sorte, transformar o “Heury” no maior símbolo comercial americano e posterior emblema de dominação econômica mundial.

O tal documentário foi mostrado na Reunião Anual de Marketing realizada pelo Grupo Simões em julho de 1996, na capital do Acre. A “inteligência operacional” das nove franquias de Coca-Cola, que o compõem, não ficou sensibilizada com a atuação do “Heury”, o cavalo esquálido, sobretudo com a pobreza do tosco circo, muito pelo contrário, perguntou se o circo estava pagando corretamente as faturas e ordenou que amostras grátis ou bonificações de produtos só com sua prévia autorização.

Seis anos mais tarde soube da morte do “Heury”. O infeliz foi acometido por uma doença causada por insuficiência de insulina e caracterizada pela emissão de urina abundante e rica em glicose. Não houve uma completa autópsia, porque na hora “H” descobriram a religião do cavalo, mas, o pré-exame cadavérico do “Heury” acusou “ingestão desproporcional de um líquido escuro de composição indecifrável”. De posse do laudo, parentes bem próximos do “Heury” ameaçaram abrir processo jurídico contra a Coca-Cola, além de jurarem distribuir coices generalizados a todos os portadores de crachá daquela multinacional. Soube também que outros parentes não tão próximos assim do “Heury” tentaram apaziguar o ambiente e, com extrema dor, disseram: “Que se faça cumprir o seu destino!” Ninguém, absolutamente ninguém, da Coca-Cola foi ao enterro com medo dos coices. O dono da choça marcou presença, com uma coroa de capim de primeira qualidade.

O cavalo esquálido chamado “Heury” construiu uma história de verdade, ou melhor, “Heury”, é uma história verdadeira. Psicografei o que me ditou o espírito do “Heury”, num trabalho mediúnico, e foi esta a sua mensagem:

Mensagem psicografada do “Heury”

Pensamentos são como nuvens – surgem subitamente, diferem entre si e se dissipam com facilidade. Portanto, mesmo incorpóreo, gostaria que você registrasse alguns deles e, sobretudo, lembrasse que um simples e desafetado cavalo, ainda que na plenitude da sua dor por ter o seu dorso esfolado pelo açoite – enquanto vivo – também pode dar a sua contribuição para a mudança do mundo. O simbolismo estabelece o conceito de vida e morte no mundo material. Só quem passa para o plano espiritual tem o privilégio de desmistificá-lo. Daqui de cima fica mais fácil entender o comportamento dos humanos que, ao longo da sua história, confundiram o papel da Terra e do Céu, sem se darem conta que estão reformando o Inferno.     

O instinto de sobrevivência levou o homem a matar para se alimentar. O seu dote de inteligência o fez extrapolar os limites e hoje ele continua a carnificina, só que de seus iguais, para alimentar a sua fome de poder. Em suas mãos a escolha: se converter na primeira maravilha do planeta, ou, se tornar mais uma praga do Egito.

A distância a ser percorrida entre um problema e a sua solução está demarcada no mapa da sensatez por uma linha reta. Todavia, o ser humano, com a sua natural vaidade e excesso de preciosismo, tem optado por caminhos tortuosos – esquecendo-se de levar a bússola, não conseguirá sair das encruzilhadas que, fatalmente, encontrará pela frente.

Contra a “humanidade racional” o poder de reação dos animais (incluindo todos os outros entes vivos e animados) foi reduzido a zero pela ação dele próprio, o homem. Porém, a natureza, silenciosa, sinaliza que a ganância da humanidade será a causa da sua autodestruição, sobretudo pelo desrespeito às suas leis. Bem-avindos aqueles que não se escravizam pelo dinheiro e amaldiçoados aqueles que vendem a alma em troca da riqueza efêmera, como tributo para o acúmulo de fortuna.

O Diabo não amassa pão de ninguém, desde que não se coloque o pão na frente dele. Deus, na sua infinita misericórdia, pode perdoar o gênio do mal e não conceder a remissão das culpas do dono da padaria, sobretudo quando este negligencia a fome dos necessitados.

Neste momento da história dos homens, quando prosperam as injustiças e a intolerância, fazê-los compreender que as diferenças raciais e ou religiosas existem no tempo em que se acredita nelas, mesmo antes de se estabelecer parâmetros, é uma missão praticamente impossível, como também o é fazê-los aceitar a igualdade de todos perante um só Deus.

Como um equino (quadrúpede solípede) desalinhado e macilento eu tenho a real capacidade de saber tudo isso. Só não consigo encontrar a resposta certa para uma pergunta: Por que os homens desvalorizam a própria vida? Portanto, questiono qual a ideia que fazem de guerra e paz e a relação entre si. Da mesma forma, busco uma resposta plausível para outras duas questões: Por que os homens nunca chegaram ao estágio da ausência de conflitos, de perturbações; harmonia, enfim, jamais alcançaram o estágio da cessação de hostilidades? Quantos milênios mais vão precisar para deixar de justificar as lutas armadas entre nações como sendo a única alternativa para a conquista da paz?

Deus vai me receber daqui a pouco. Ele mandou um dos seus mensageiros me revelar que não se pode fazer mais nada pela humanidade que aí está, senão, deixá-la entregue à própria sorte. Por enquanto ele, Deus, não está se preocupando com isso, porque tem outros bichos na fila pra atender.

Se tiver que reencarnar um dia (se bem que não estou muito propenso a voltar), gostaria que fosse novamente no Brasil, de preferência em Manaus, mesmo lugar da minha desencarnação. Se tiver que escolher uma profissão, escolheria a mesma, ou seja, atração principal de circo mambembe, humilde, no meio de um picadeiro maior – até porque quero continuar distraindo as crianças, primeiras vítimas da insanidade dos adultos. Se a minha sina for beber refrigerante para atrair público e como ganha-pão, prometo que só beberei suco natural feito com frutas da nossa Amazônia – ainda não patenteadas pelos japoneses – porque aqui no Céu conversei com alguns espíritos de humanos (ex-gerentes de produção), todos sem asas e com cara de burro, e eles me confidenciaram a verdadeira fórmula secreta da Coca-Cola, descoberta com o uso de um espectrômetro. Segundo o meu anjo da guarda, o que tinha dentro dela foi o motivo, a causa do meu desenlace carnal e também descobri que nem adiantava me dar Coca-Cola Light ou Diet para beber, porquanto chega a ser bem pior do que a tradicional por conta do aspartame.

Juntos, os espíritos dos animais farão uma corrente para que os poucos humanos inteligentes consigam a “quebra do sigilo químico” da Coca-Cola aí na Terra – caso queiram, podem incluir na lista outros milhares de produtos igualmente nocivos. Na verdade, fui obrigado a beber Coca-Cola porque os homens me deixavam com sede constantemente. Na eventualidade de assumir uma nova forma corporal após a morte, prefiro continuar cavalo esquálido, ser esperto desta vez e viver por muito mais tempo. Espero que você, meu bom amigo escritor, agora perdoado por ter me concedido esta homenagem, esteja sempre por perto. “Heury”.                                                               

Na nossa vã filosofia, como frágeis humanos, achamos que temos o pleno domínio das coisas que nos cercam, por isso, estamos sempre em busca do conhecimento, sobretudo da origem e do sentido da existência, ainda que negligenciemos algumas verdades. Algo nos conduz à reflexão – uma força maior nos mostra o caminho do entendimento, da compreensão, da aceitação. Somos o que somos; produto acabado, efêmero, de um criador maior, que nos fez habitar este planeta com dois propósitos: resgatar dívidas passadas e evolução do espírito.

Augusto Avlis

Fim

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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  1. Pingback: Um cavalo chamado “Heury” « Opinião sem Fronteiras - 31/10/2012

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