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Crônicas Aforísticas

29ª Crônica

29ª Crônica

Canalhas também comemoram Bodas

O Vasco enfrenta o Santos hoje à noite e já sei de antemão que vai tomar uma porrada. O jogo será transmitido pela TV Globo depois da novela das oito, Mulheres Apaixonadas, e traidoras também, só pra não perder o costume. Pra não perder o costume, dei uma passada no bar da esquina, com a desculpa de comprar um maço de cigarros pra minha mulher apaixonada, segundo suas juras de amor e paixão. Só dei uma trepada no domingo, e algumas tentativas na segunda-feira. Estamos no ano de 2003.

O chato do Cristóvão estava lá, encostado no balcão, enchendo o saco do Roberto, dono do boteco, sem consumir nada. O pentelho do Cristóvão tem um defeito extraordinário: é metido a sabichão, mas, é educado por excelência. Quando me viu, veio ter comigo.

– Quero parabenizá-lo pelo seu aniversário de casamento ocorrido no último domingo. Viu só, eu não esqueci. Veja bem, a ciência tem conseguido avanços significativos no que diz respeito à descoberta de metodologias, procedimentos e alternativas na medicina para a conquista tão esperada da longevidade do ser humano. A expectativa de vida do homem aumentou na última década. Na próxima, projetar uma vida em torno de 140 anos parecerá objetivo possível de ser alcançado. A mais nova geração espera ansiosa. Torço para que você e sua esposa vivam duas centenas de anos e não tenham só que comemorar até as Bodas de Diamante. Vocês estão bem mais perto dos 140 anos do que nós que faremos Bodas de Linho em novembro próximo.

Tive que ser igualmente educado:

– É, Cristóvão, eu sei que segundo a tradição, existem, apenas, vinte e cinco datas de aniversário de casamento que marcam a comemoração das Bodas. No futuro próximo, as pessoas vão viver bem mais do que hoje, graças a Deus e à ciência. Espero que você também viva muito e comemore junto conosco.

O Cristóvão completou:

– Exatamente, vamos supor que o casal viva 200 anos, ou mais, e permaneça junto quase aquele tempo todo. Será que ele, o casal, terá direito a comemorar as suas Bodas 25 vezes, apenas? Assim como a ciência, também podemos prever que algum descendente de Maomé crie novas datas para os casais seculares comemorarem, com merecimento, as suas Bodas até o fim da vida. Este iluminado pode sugerir: para 100 anos de casamento, Bodas de Pelanca; para 125 anos, Bodas de Ossos; para 150 anos, Bodas de Mausoléu; para 175 anos, Bodas de Pó e para 200 anos, Bodas da Eternidade.

Depois dessa, cara, só tomando uma:

– Roberto traz aquela da boa.

Olhei pro lado e percebi que outros amigos, igualmente canalhas – parte mais vil da plebe – entravam no “Escritório”, o famoso bar da esquina (os novos proprietários mantiveram o seu nome de batismo por pressão dos usuários) e, como de costume, entre um gole e outro, muita conversa saudável correu livre e frouxa, como falar de mulher, dos outros e das nossas também, de futebol e contar piadas de bom gosto, antes que o jogo do Vasco começasse. Há muito não jogo porrinha. Até que tentei, mas ninguém quis me acompanhar. Na verdade queria mesmo arrumar um pretexto pra me livrar do maçante do Cristóvão.

Os canalhas mais exaltados, desprovidos de pudor, fizeram questão de apresentar um festival de besteiras sem precedentes. Na realidade, é melhor ouvi-las do que ser surdo. No meio do papo, chegou o flamenguista, sempre atrasado. Antes de colocar o pé direito dentro de casa, perdão, dentro do bar, notou que passava uma morena no auge dos seus dezoito aninhos, que vinha da praia de Itaparica, naquela hora da noite, devidamente calibrada. Uma gostosura, gostosa, gostosona, de biquíni, remexendo os dois melões da frente e as protuberantes melancias de trás. Como bom flamenguista, quis aparecer pra turma, não se fez de rogado, mexeu com a rainha do pedaço e recebeu o troco:

– Baba mesmo, velho babão, coma com os olhos e lambe com a testa. Não sou pro seu bico não. Se ao menos fosse vascaíno como eu.

O babaca estava vestido com a camisa do Flamengo. Poupamos o infeliz de ser sacaneado outra vez. Toma papudo!

O canalha do tricolor mandou essa:

– E por falar em comer com os olhos e lamber com a testa, hoje, e não passa de hoje, eu vou cometer um incesto, em homenagem aos meus quarenta anos de casado; e nem tenho dinheiro pra comprar rubi algum.

Todos, indistintamente, em coro:

– Cuidado amigo tricolor. Isso dá cadeia.

Eu, em seguida, emendei:

– Ô tricolor, você por acaso não quis dizer encestar alguma coisa ou alguém? Porque, incesto, é a união sexual ilícita entre parentes consanguíneos, como irmã, por exemplo.

Aí, o tricolor, depois de um trago, ratificou:

– Pois é, esta é a sensação que tenho toda vez que trepo com a minha mulher. Deus há de me perdoar; é um verdadeiro incesto.

Silêncio total, quebrado pelo pronunciamento do botafoguense:

– Em maio fizemos Bodas de Coral. Pra quem não sabe, 35 anos de casamento. Minha mulher vestiu o baby-doll da nossa (dela) primeira noite e sugeriu que relembrássemos dos momentos mágicos que passamos. Dei uma olhada de soslaio no material carnal (dela) e, considerando a pouca disposição do meu pinto que não queria, nem por reza braba, se manifestar, tratei logo de dar uma desculpa, se boa ou não, foi a única que me surgiu naquela hora: Mulher, não vem não. Já cumpri com o meu dever de marido nesses 35 anos. Daqui pra frente eu vou pro sacrifício.

Em qualquer roda de amigos, canalhas ou não, tem sempre um mais afortunado e abastado do que os outros. Era o caso do segundo vascaíno, que também não trazia vestida a camisa. Ele nos contou um “case” interessante:

– Fomos, eu e minha mulher, casados há 30 anos, dar um passeio na nossa fazenda em Colatina. Paramos no curral e, curiosamente, minha patroa percebeu que o touro cobria as vacas, frenética e voluptuosamente. Minha mulher começou a se excitar com aquelas cenas e, desejosa, se insinuou pra mim: Por que você, meu velho, não se espelha naquele touro e não faz a mesma coisa comigo, aqui e agora? Meus amigos, um reflexo mental me levou a responder o seguinte: Minha velha, dá uma olhadinha e veja se a vaca é a mesma!

Num ato repentino, quase todos se voltaram pro corintiano e perguntaram:

– E você aí, paulista, com cara de poucos amigos, não conta nada?

E ele deu a notícia:

– É pessoal, depois de 15 anos de casamento, minha mulher resolveu ficar grávida de um menino pela primeira vez. Dei uma tulipa de cristal a ela de presente quando comemoramos as Bodas, porque sei que quem vai usá-la sou eu mesmo pra beber cerveja quando o garoto nascer.

O flamenguista, parabenizando-o em nome dos demais, perguntou:

– Bacana ó meu. Vocês já escolheram um nome de batismo pro rebento?

O corintiano não pestanejou:

– Claro, vai se chamar Fudêncio, em homenagem ao pai. Gostaram?

Mudamos o rumo da prosa. Puta que o pariu; o filósofo estava no banheiro e ninguém viu. Ainda levantando a calça, mandou essa:

– Estou com o colega André Maurois quando disse que “Os casamentos felizes são edifícios que devem ser reconstruídos todos os dias”.

Depois dessa, guardei a viola no saco e fui o único da turma a não revelar seus momentos íntimos ou confidenciais. Ainda bem, porque, provavelmente, estimulado pela bebida, poderia contar algum. Tomei meia dúzia de cervejas, de marcas diferentes, achando que uma estava mais gelada do que a outra – coisa de canalha –, inventei uma desculpa e fui assistir ao jogo em casa, sozinho, porque minha mulher é flamenguista e detesta o Vasco, perdão, gosta dele quando perde. Ao ir pra cama, a minha patroa firmou a aposta seguinte:

– Benzinho, se o Vasco ganhar hoje, você pode jogar o segundo tempo da partida que nós começamos no domingo; você lembra do resultado?

Já sabendo que as chances do Vasco de ganhar o Santos, em pleno Morumbi, eram apenas de 10%, tratei logo de descobrir o telefone da hiena pra me consolar com ela.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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