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Crônicas Aforísticas

28ª Crônica

28ª Crônica

Bodas de Pérola

Segundo o livro “Guia dos Curiosos”, vinte e cinco datas de aniversário de casamento, específicas, marcam a comemoração das Bodas. A divisão é a seguinte: 01 ano (Bodas de Papel); 02 anos (Bodas de Algodão); 03 anos (Bodas de Couro); 04 anos (Linho); 05 anos (Madeira); 06 anos (Ferro); 07 anos (Lã); 08 anos (Cobre); 09 anos (Cerâmica); 10 anos (Estanho); 11 anos (Aço); 12 anos (Seda); 13 anos (Renda); 14 anos (Marfim); 15 anos (Cristal); 20 anos (Porcelana); 25 anos (Prata); 30 anos (Pérola); 35 anos (Coral); 40 anos (Rubi); 45 anos (Safira); 50 anos (Ouro); 55 anos (Esmeralda); 60 anos (Brilhante) e 75 anos (Diamante).

De acordo com a tradição, os casais devem se presentear com objetos feitos do material correspondente ao da Boda a ser comemorada, mesmo que um dos dois seja chamado, pelo outro, de pão-duro ou miserável. Você já imaginou o que é dar à pessoa amada uma folha de papel, um chumaço de algodão, um pedaço de pau, uma barra de ferro, um parafuso de aço, um novelo de lã, enfim, algo extremamente barato? A despeito de todo simbolismo que cerca a cerimônia, a reação do presenteado não deve ser das melhores. Acredito. No entanto, existe certa coerência, e relação, entre os períodos das Bodas e os materiais correspondentes que são sugeridos como presentes. Para se ter uma ideia, os jovens casais, nos primeiros cinco anos de união, permanecem duros, por isso, não é difícil comprar papel, algodão, couro, linho e madeira. Do sexto ao décimo ano, melhoram um pouco de situação financeira. Durante os quinze anos seguintes, vivem de empréstimos bancários. Daí pra frente não se preocupam em comprar absolutamente nada porque afirmam que, a qualquer momento, podem morrer juntos ou separados. Seguro de vida, então, nem pensar – vivem da esperança de acertar na loteria.

Hoje, 31 de agosto de 2003, estamos completando 30 anos de casados, portanto, em plena comemoração das Bodas de Pérola. Há exatos 30 anos, 31 de agosto de 1973, estava me casando com dona Mara, em Vitória, Espírito Santo – nos casamos no cível e o religioso ficou pra depois, que até hoje não aconteceu. Eu, com 22, na época, e ela com dezoito anos. Com muita coragem, sem emprego, sem lenço, com documentos e, por honradez, assumi tamanho compromisso, após três anos entre namoro e noivado. O amor sobreviveu.

Minha sogra providenciara uma discreta festa, com bolo de fubá que ela mesma fez, além da vaquinha pra arrecadar dinheiro para a compra das nossas passagens pro Rio de Janeiro. Fomos morar na casa dos meus pais, ou melhor, junto com eles. O meu tio Belmiro, ex-combatente da FEB, providenciou uma recepção digna de um jovem casal perdido: comprou pastéis no boteco da esquina e produziu uma chuva de arroz de terceira, com bastante marinheiro (grãos com casca). Naquele tempo não se tinha o hábito de varrer o arroz do chão para o seu reaproveitamento na panela – também não comíamos só arroz nas refeições.

A Lua de Mel aconteceu no apartamento dos meus tios, Belmiro e Zulmira – com eles dentro – na Ilha do Governador (bairro Jardim Guanabara), Rio. Naquele tempo, os jovens de família tinham um sonho de consumo; proferir a tradicional frase “Enfim, sós”. O pior que eu a disse.  O tabu da dita cuja virgindade começava a ser questionado e rompido, como a própria.

A crise dos sete anos é verídica. Não é prerrogativa só nossa. A cada sete anos ela se renova. Já passamos pelas crises dos sete, dos quatorze, dos vinte e um, dos vinte e oito e faltam cinco anos para chegarmos à crise dos trinta e cinco. Se não houver um motivo plausível para se deflagrar a crise, um dos dois dará um jeito de arrumar. O mais importante é arranjar uma maneira de sair dela com equilíbrio, sem cometer loucuras e sem deixar fraturas expostas ou sequelas. O suicídio coletivo está descartado.

A estabilidade emocional é fundamental para a qualidade de vida das pessoas. Segundo a opinião de alguns terapeutas – profissionais que estudam os métodos de tratamento das doenças – as pessoas que amam mais adoecem menos. Ao pé da letra, não quer dizer, necessariamente, que sejamos obrigados a conquistar uma namorada nova, ou ela um, toda a semana. O importante é ficarmos mais tempo com as pessoas que amamos.

Outros segredos se deixam revelar: a presença participativa; o espírito de renúncia; a cumplicidade; o respeito mútuo e a sinceridade de amigos ajudam a temperar a relação a dois e são fatores primordiais na sua durabilidade – se fazer de cego, mudo e surdo, também.

O gostoso é você poder falar o que pensa ou o que sente pra pessoa amada, pra sua companheira. Noutro dia, disse à minha mulher que concordava com a opinião do Nelson Rodrigues, extraordinário dramaturgo. Segundo ele, “O tanque é a salvação da mulher”. Fui tentar me explicar melhor e me custou quatro pontos na testa e um mês de greve de sexo.

Saber envelhecer juntos, e com sabedoria, torna-se peça-chave da engrenagem da própria vida, sobretudo quando a probabilidade do casal ficar sozinho novamente, da mesma forma como começou, parece inevitável. Criamos os filhos para o mundo e não podemos, ou não devemos, segurá-los pra sempre. Um dia, certamente, a primavera das nossas vidas cederá lugar ao inverno das nossas existências. O apogeu curvando-se para o fim. A propósito, uma frase de Jacobina Rabelo nos faz refletir um pouco melhor: “Prepara na primavera as flores que irão florir no outono e inverno da vida”. Espero que não decorem o meu túmulo.

Antes de pensar em morrer, um amigo da família, viúvo, com mais de setenta anos e que só gosta de verão, resolveu se casar pela terceira vez. Defensor emérito da tese que “Cavalo velho gosta de capim novo”, se casou com uma menina de 26 anos – foi ela quem quis. Ele fez questão de passar a primeira noite no mais alto hotel da sua cidade, hospedando-se no décimo segundo andar.

No saguão, colocou sua noviça no elevador e foi concludente:

– Pegue as chaves, suba e me aguarde nua e deitadinha, meu amor. Eu vou pelas escadas.

Ela retrucou:

– Por que meu amor? Você vai se cansar!

Antes mesmo que o elevador fechasse as portas, ele saiu com essa:

– Porque, quando eu chegar lá em cima, estarei com a língua deste tamanho, olha.

É, foi ela quem quis assim; então, aguenta a língua.

As mulheres são infinitamente mais românticas e poéticas do que os homens. Nisto não tenho a menor dúvida. Minha mulher, saudosista, no começo deste mês de agosto, mês do desgosto, lembrou do teste de fogo que fez comigo na primeira semana de casados.

Ela: – Amor, eu queria que você me desse uma grande prova do seu amor por mim; que você me ama de verdade.

O idiota aqui perguntou sem pensar: – Qual?

Ela: – Olha, aconteça o que acontecer, você não pode tirar a cabeça debaixo do cobertor. Tá legal?

Continuando idiota, eu respondi: – OK querida.

Segundos depois, ela soltou um peido daqueles de fazer defunto dar cambalhotas e me obrigou a permanecer lá embaixo, do cobertor, até que todo o oxigênio do quarto acabasse.

Pouca gente sabe disso; a Lua de Mel não se resume só na primeira noite, pós-núpcias. Na realidade, a lua de mel corresponde ao primeiro mês ou aos primeiros dias de vida conjugal. Como meu pai me ensinou que a melhor lua pra se plantar mandioca é a Lua de Mel, e como sou especialista na atividade de adubação da mulher, perdão, da terra, suportei os gases mortíferos expelidos pela minha jovem esposa. Vê-la defecando seria demais.

Ontem, foi sábado, 30 de agosto, véspera do nosso aniversário de 30 anos de casamento. No nosso quarto; na nossa cama; manhã fria e nublada; o vento brando e fresco do mar de Itaparica entrava pela janela entreaberta, que deixava eriçados os pêlos da minha bunda destapada, enfim, um quadro perfeito para o ensaio de movimentos eróticos até chegarmos ao clímax, ou melhor, ao (s) finalmente (s). Só chego a um final – não há plural.

Ela: – Não é de hoje que conheço todos os seus movimentos e falas. Portanto, pare de falar e me toque. Quando você me toca, mesmo que mudo, eu sinto.

O idiota ao quadrado pergunta: – Sente o quê, meu amor? Prazer?

Ela: – Não, querido, sinto nojo e cócegas.

O idiota elevado à quinta potência propõe: – Acho que a gente deveria adiar a trepada, né?

Ela: – Talvez possamos transferi-la pra depois do almoço. Eu tomo um banho caprichado, me lavo todinha, e a gente faz aquele amor gostoso. Por outro lado, fazer amor não é coisa pra se programar; tem que acontecer.

O menos sandeu agora querendo se fazer de gostoso: – Eu acho que você tem toda a razão, meu bem.

Ela: – Até porque eu acho que a minha xereca está atrofiada, seca e murcha.

Comecei a aumentar o meu grau de parvoíce: – Que nada! Ela está mais gostosa do que nunca e já está toda molhadinha.

Ela: – Tira logo o dedo dela porque estou suja. Deixa-me cheirar o seu dedo.

O tolo máximo pergunta inocentemente: – O que foi querida?

Ela: Ai, que nojo!

A minha tentativa acabou ali. Naquela hora, eu poderia ser comparado a uma ovelha tosquiada, tentando disfarçar a minha carinha de inocente.

No dia seguinte, dei um pulo na praia de Itaparica pra ver se comprava uma ostra e, com sorte, encontrar uma pérola dentro dela. Trouxe-a e presenteei a minha mulher pelos nossos 30 anos de casamento. Não achamos absolutamente nada no interior da ostra, mas, nos contentamos em degustar o molusco. Voltamos pra cama – pintou um clima – e, enfim, conseguimos fazer um amor maravilhoso nessa manhã de domingo. A gente merece.

Ela, depois do orgasmo: – Benzinho, eu acho que já tinha dois meses que a gente não trepava, não é mesmo?

Perdendo, definitivamente, a minha condição de idiota, respondi: – Dois não, minha querida, quatro. Caso continuasse esse meu jejum por mais oito meses eu me transformaria numa hiena, aquele mamífero carnívoro, que só fode uma vez por ano.

Caso isso acontecesse de fato, pelo menos, levaria uma grande vantagem no momento da transformação: não paro de rir o tempo todo ao lado da minha mulher, assim como a hiena, longe dela.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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