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Naturismo

Mensagem a um ex-guerreiro

Mensagem a um ex-guerreiro

Ridículo! Não encontro outra palavra para defini-lo melhor. Definitivamente, você não merece a confiança que lhe depositei ao longo de todos esses anos. Eu vi você nascer, crescer, amadurecer, ficar em posição de sentido (engordou um pouco, tudo bem), e agora, sinto que o envelhecimento precoce dá sinais claros da triste realidade que se aproxima: conviver com uma doença degenerativa irreversível, até que a morte chegue, ou nos separe. Se é que podemos chamar isso de doença, até porque mais me parece falta de vergonha na cara, ou melhor, na cabeça! Você já foi campeão no passado, que deve ser esquecido. Estou falando com você, hei, olhe para mim… Não baixe os olhos! Mas parece um gato de armazém que só vive dormindo em cima do saco. E daí? E daí coisa nenhuma! É uma questão de honra.

Outrora, quando o seu coração pulsava, eu dava massagem no seu corpo, até ficar com as mãos dormentes, depois o alívio! Intimidades secretas, quantas… Éramos comprovadamente confidentes, mesmo olhando pra imagem do Tiradentes, lembra? Não deixava em momento algum você perceber que era só lazer para mim e trabalho para você, que entendia a sua missão. Ficou confiante demais, por isso, atualmente não vem cumprindo com as suas obrigações na lide diária; você é uma decepção total. Já cancelei o projeto de “Certificação de Qualidade ISO”. Os ensinamentos não foram bem assimilados por você e todo o dinheiro que gastei com as melhores “escolas explícitas de 1º grau” de certo foi em vão – só despesa, e nada de retorno satisfatório. Mas, isso não tem tanta importância assim diante da vergonha que venho passando em público, sobretudo em áreas naturistas. Sacanas de plantão chegaram até a me recomendar clínicas especializadas; liguei para uma delas e uma voz em “OFF” murmurou aos meus ouvidos: “Se você tem problema de ereção ou de ejaculação precoce, nos procure ou troque de mulher”. Dá pra acreditar?

Lembro-me que quando você foi educadamente apresentado a um jovem mineiro, novato na prática do nudismo em grupo, no primeiro encontro naturista de 2012 no sítio São João, não fez outra coisa senão se esconder covardemente, você tremia mais do que vara verde em tempos de ventania, ficou entocado todo o dia, demonstrou complexo de inferioridade e somente deu o ar da graça depois que o visitante foi embora; obrigou-me até a vestir um avental que me foi presenteado pelo Grupo Naturismo Capixaba. Coisa do Evandro, mais preocupado em manter limpos os seus panos de prato do que me proteger das possíveis faíscas do braseiro. Amigos e amigas mais chegados dizem até que um simples pote de maionese (vazio) poderia ser usado por você como guarda-mata, enquanto o mineiro precisaria do túnel Rebouças. Sorte minha é que não fui pra Itália. Hoje, Pisa marca 2 graus negativos. O pote de maionese seria grande demais, usaria provavelmente um dedal da vovó sob aquela temperatura desagradável para os vestidos.

No campo de batalha, sob as mais severas condições de tempo (cavernas apertadas, buracos escuros, calor intenso, frio, território molhado, enfim, odores desagradáveis), você sempre desempenhou o seu papel com galhardia e senso de patriotismo. Hasteou a bandeira da conquista e da liberdade. Hoje, até os seus compatriotas mais chegados tentam estender-lhe as mãos na tentativa de erguê-lo, e, depois de algumas horas, chego à conclusão que é mera perda de tempo. Você não reage, está sem vida, de cabeça baixa, totalmente abatido! Vamos, cante o Hino Nacional, se não for por bem, que seja por amor à Pátria. O triste disso tudo são as comparações inevitáveis, e o melhor a fazer é desertar. Não se preocupe, ninguém irá atrás de você para prendê-lo, muito pelo contrário, as pessoas deixarão você em paz merecida.

Você será posto à prova em muitas outras situações – isso eu não tenho a menor dúvida –, prova disso é que o amigo Geraldo está nos convidando para irmos à Barra Seca, e caso eu identifique alguma sensação de fraqueza da sua parte, pedirei ao Ernane que vá até lá e o decepe no cepo, talvez eu faça isso aqui mesmo no Sítio São João, sem qualquer cerimônia, sem qualquer sentimento de culpa ou pena. Sinceramente não conheço ninguém que afie uma faca melhor do que ele. Feijão ele prepara mais pra mais do que pra menos. Taí uma excelente idéia: Quem sabe o Ernane, com um pouco de boa vontade, aproveite você para colocá-lo na próxima feijoada! Caraca, eu estou falando com você empregando verbos no passado e você não reage! Acorda pra vida cara! O dia 10 de fevereiro está chegando, teremos uma prévia de Carnaval e já estou pensando em algumas opções de fantasia pra você: “A morte do cisne”, “Náufrago”, “Esqueceram de mim”, “Maracujá de gaveta”, “Cadê você”, “Era uma vez”, “O avião sumiu”, enfim… Não adianta reclamar, a bola da vez é você. Empurrar a responsabilidade para a inocente bunda não o exime de culpa, tampouco achar que os ovos se compadeçam.

Não é de hoje que você se assusta, é um assustado por natureza. Lembra da época da FAB, mais precisamente do Esquadrão de Polícia, onde você serviu no final dos anos 60 e princípio dos anos 70? Pois é, o soldado Maguila, o 052, foi o mineiro da época, tá lembrado? Pelo menos, experiência você adquiriu, já era pra ter aprendido com as adversidades. Ô Bilau, o pior disso tudo é que você não deixará saudades! Um ex-guerreiro será sempre um ex-guerreiro. Eu sei que a sua destacada humildade o fará devolver as medalhas que recebeu em tempos de glória. Isso não lhe pertence mais! Porém, caso aconteça um milagre, de uma hora para outra inesperada, eu só lhe peço uma coisinha, de coração, em nome do pouco respeito que ainda tenho por você: Não vá se manifestar em lugar errado, no tempo errado e na presença de pessoas erradas, porque eu posso não contar com o avental ou com a bandeira do Vasco. Nesse caso, quem pedirá para ser decapitado sou eu. Cadê o Ernane?

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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