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Crônicas Aforísticas

27ª Crônica

27ª Crônica

A escolha certa

Dormir atravessada na cama e permitir que as suas cadelas Poodle passem a noite debaixo da nossa cama são apenas duas manias que eu reprovo na minha amada mulher. Mas, pra tudo, existe a contraparte – me acostumei a dormitar, imóvel, nos vinte por cento do leito conjugal que me foram destinados e, com relação às cachorras (também duas), evito colocar os pés no chão durante a madrugada para que não rosnem ou tentem me morder. Juro pelo Deus da minha mulher que não é picuinha.

Na verdade, ela, minha mulher, tem outros maus costumes dos quais fui autorizado a divulgar quatro: primeiro, deduzir as coisas e colocar certas palavras na minha boca, interpretando tudo segundo a sua ótica; segundo, deixar destampadas, ou semi, as panelas de comida e abertas as embalagens; terceiro, pedir cigarro sempre que está ao telefone – as tragadas e os impulsos telefônicos crescem em progressão matemática e quarto, quando ela me pede pra pegar alguma coisa, diz o lugar, porém, o que me pediu, nunca, mas nunca mesmo, está no local onde ela afirmou antes – e, o que é pior, ainda levo um esporro danado porque não procurei pela casa toda. Diga-se de passagem, não adianta arranjar testemunhas porque serão desqualificadas.

Para alguns, apontar defeitos nos outros causa drama de consciência. No meu caso não, até porque a digníssima deve fazer o mesmo com respeito à minha pessoa. Não estou aqui pra julgar ou prejulgar seja quem for. O importante é saber que todos nós temos virtudes que nos levam a compreender as “imperfeições das perfeições”, a perceber a distinção entre gostar e odiar, entre amar e deixar de amar, entre aprovar e condenar. O convívio e o relacionamento se encarregam de ajeitar tudo, dependendo da atmosfera estabelecida. Da mesma forma, os sentimentos acomodam os ânimos – inevitavelmente.

Viver com hipocrisia é pior do que a própria traição. Muitas das vezes as aparências escamoteiam a realidade. Nem um, nem o outro, deve viver na dúvida. Ambos devem jogar aberto, só assim construirão bases sólidas a partir da confiabilidade mútua e da decorrente cumplicidade. A relação melhora mil por cento quando um se abre com o outro, sem restrições, sobre qualquer assunto, mantendo o nível de respeitabilidade. Cada qual tem o livre arbítrio para a aceitação ou não, ainda que o pragmatismo seja pouco ou nada considerado na questão – o processo é contínuo.

Não existem fórmulas definidas para se alcançar o fator ‘durabilidade da relação a dois’. O fato é que prevalecem procedimentos consensuais entre o casal para se chegar a isso. Além de tudo que já se conhece a respeito, ao longo de pouco mais de três décadas acumulamos uma sucessão de experiências que ora transmitimos devidamente rotuladas de “dicas” (só 16, como foram os meus “pecados políticos”) e não simples conselhos.

  • Evite falar da sua mulher para os seus amigos e jamais fale demasiadamente dos seus amigos para a sua mulher. Comentários desnecessários podem gerar – eu disse podem – surpresas indesejáveis. Todo ser humano é curioso por natureza, portanto, despertar curiosidades não é nada inteligente. Bom também não é.
  • Se jovens, o importante é crescer e aprender juntos. Se maduros, procurar viver um dia de cada vez.
  • Os opostos se atraem, contudo, os extremos certamente se destroem. Chegar ao cúmulo do perfeccionismo, como enxugar o sabonete após o banho, é o mesmo que formalizar o pedido de separação. Não existe sabonete impermeável.
  • Usar o outro pra justificar suas decisões desagradáveis, simplesmente queima o filme dos dois.
  • Se sentir vontade de chutar o pau da barraca, somente o chute se a barraca não se tornar um “barraco”, ou que não ocorra o risco de cair sobre você.
  • Dependendo da posição da lua, concorde com tudo.
  • Não dê ouvidos aos solteiros e descasados quando afirmam que o casamento é uma maneira cara de se ter uma mulher disponível para o sexo.
  • Não seja dissimulado, não minta e não proíba nada enquanto estiver acordado.
  • Mulher é igual a passarinho: se você aperta na mão, ele morre; se você afrouxa os dedos, ele foge.
  • Invista na felicidade presente para que no futuro reste alguma coisa para ser lembrada, caso contrário, nem a amizade sobreviverá.
  • As mulheres têm uma habilidade inigualável: todas falam ao mesmo tempo, assuntos completamente diferentes, e no final, todas acabam se entendendo. Moral da história: não as interrompa para o seu próprio bem.
  • Jamais formalize uma união só pela beleza física sem levar em consideração as qualidades intelectuais do outro.
  • As mulheres nunca exigiram dos seus companheiros profundos testes ou exames de masculinidade, como sentar na farinha de trigo, por exemplo. Vocês homens, querem uma opinião amiga? Não as estimulem.
  • A “TPM” chega de mansinho, sem pedir licença e transforma a vida do homem num tremendo inferno. Este turbilhão de sensações, do qual são acometidas as mulheres, para nós homens, não passa de “frescura da modernidade”. No tempo das nossas mães, elas afogavam as depressões no tanque, lavando uma belíssima trouxa de roupa. Conceitos à parte, é prudente nesse período o homem inventar uma doença crônica e se internar num hospital que proíba as visitas diárias.
  • Algumas reconciliações são como café requentado, que perde o sabor original e não satisfaz.
  • Só ultrapasse com segurança.

Outra conduta da minha querida esposa que já está virando obsessão: ela fica o tempo todo me jogando na cara que eu tenho que arrumar um emprego porque estou jovem demais pra ficar em casa coçando o saco (ela ainda não percebeu que me tornei escritor) e acredita piamente no meu potencial de trabalho, sobretudo na imensa capacidade que eu tenho de aturar cavalgaduras em ambientes capitalistas. Ela não percebe que eu dei um tempo para mim mesmo, até porque não preciso mais colecionar humilhações e já basta o estoque formado durante trinta e sete anos de vida profissional. Puta que o pariu, chega. Quero viver em paz – acho que fiz por merecer.

Para me livrar daqueles sermões, prescritos pela sogra a cada intervalo de três horas, resolvi de uma vez por todas garimpar alguns anúncios naquele caderno de empregos – fictícios – que acompanha os jornais dominicais. Destaquei um deles (vide abaixo) e mandei o meu advogado anexá-lo ao meu pedido de divórcio. Olha só no que deu.

“Empresa contrata aposentado com experiência em organização de documentos de RH, contábil, financeiro e outros. A empresa oferece salário de R$ 261,00. Comparecer nesta segunda-feira munido de currículo”.

Vão pras putas que os pariram, no plural, para ser mais explícito. A minha mãe não tem uma carreira de maminhas. Prefiro ficar em casa à disposição da minha mui amada mulher e, temporariamente, da mui amada sogrinha (mãe legítima dela) – que não me enche o saco, só me torra a paciência!

Os primeiros passos de uma criança são sempre os mais dolorosos. Tropeçadas e quedas fazem parte do seu aprendizado. Também são assim os primeiros dias de “trabalho doméstico formal” de um homem aposentado. Toda mulher sonha, como sempre sonhou, com um homem completo, aquele do tipo “cama, mesa e banho”, com especialidade em “forno, fogão e tanque”. Depois de tudo que eu passei na vida, acho até que não me incomodaria em assumir definitivamente o papel de homem objeto – abjetos são os nossos políticos. Fazer comida, lavar, estender e passar a roupa, limpar a casa e executar mandados e, sobretudo, nas horas vagas fazer amor, por “convocação” da mulher, são experiências profissionais atualmente exigidas no currículo masculino. Ainda bem que eu gosto de participar dos afazeres caseiros, mesmo que debaixo de xingamentos generalizados.

A propósito, todos esses “acidentais contratempos” não são maiores do que os prazeres que eu desfruto; lógico, proporcionados pela minha mulher. Um deles é o mexido dela (não é o rebolado) – trata-se da mistura das sobras de comida, esquentada na frigideira, com dois ovos estrelados e uma lata de sardinha por cima (sem a lata). Este nosso prato predileto, sempre degustado na própria frigideira, também é comido na cama; antes da sobremesa viva. Ah! Já ia me esquecendo: faltou a cebola.

Há certas coisas interessantes na vida. Ultimamente, a minha mulher tem usado tanto a expressão “Ah meu Deus!” em quase tudo que fala (“Ah meu Deus, como você está horrível meu marido!”“Ah meu Deus, vai fazer logo esta barba!”“Ah meu Deus, a minha coluna está em pandarecos!”“Ah meu Deus, não aguento mais continuar dormindo neste colchão duro!”“Ah meu Deus, toma vergonha na sua cara meu marido!”), que acabei achando que Deus é propriedade dela. Sendo assim, pedi a ela o seu Deus emprestado, por uns minutinhos, para fazer alguns agradecimentos, pessoalmente:

– Obrigado Deus, por ter colocado esta maravilhosa mulher no meu caminho. Obrigado Deus, por tê-la dotado de uma bela e pura alma; por tê-la provido de dons naturais como alegria, sinceridade, simplicidade, humildade, criatividade e companheirismo. Obrigado Deus, por ter concedido a ela a dádiva da maternidade. Obrigado Deus da minha mulher, por me fazer amar todos os seus defeitos e a venerar as suas qualidades, com a certeza de que fiz a escolha certa.

É como diz aquela famosa música:

Viver sem ela… Será o meu fim!

Ah, já ia me esquecendo:

Meu amor, pegue o seu Deus de volta.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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