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Naturismo

Cru e Nu

Cru e Nu

Todos nós nascemos com uma veia cômica. Não falo do vaso que reflui para o coração o sangue distribuído pelas artérias. Refiro-me à ‘veia’ como meio de comunicação, que libera a ironia delicada, a disposição do espírito. Pois bem, quando divulguei o texto “Nu e Cru” para o meu amigo Evandro Telles, presidente do GNC – Grupo Naturismo Capixaba, que o tornou público, causando-me imensa satisfação e deleite – confesso que ia falar ‘gozo dos sentidos, intenso e prolongado’ –, tive o cuidado de tirar para fora alguns excertos, por dois motivos: por julgar que a crônica ficaria longa se os mantivesse nela inseridos; depois, achei que deveria considerá-los em momento burlesco. Essa ocasião oportuna chegou. Mesmo sem roupa, ninguém é de ferro!

Comecei a praticar uma espécie de “nudismo oficioso” aos onze anos de idade, ao me submeter, por necessidade, à cirurgia de fimose. Lembro-me que foi uma operação complicadíssima porque o estreitamento da abertura do prepúcio do meu pinto (pênis) era mais estreito ainda, daí a recuperação se processar demoradamente, o que me obrigou a andar pelado pela casa durante uns vinte dias. Acredito que aquele também foi o primeiro contato das minhas duas irmãs com um ‘cacete enfaixado’ – embora minúsculo, por motivos óbvios: assustado, dor, aparência, necessidade de se esconder, enfim…

Minha inclinação ao nudismo começou mesmo a ter um “caráter oficial” no quartel, no banho coletivo com os outros setenta e três recrutas da Polícia da Aeronáutica, que formavam o meu esquadrão. Eu só tinha duas preocupações: primeira, não descolar a bunda da parede; segunda, não pegar o sabonete no chão. Ainda existia uma terceira preocupação, que, por falso pudor, já ia omitindo: não ficar olhando muito pro ‘pau’ do recruta “Maguila”, para não dormir impressionado, porque o seu bastão, em estado de morbidez, tinha, em centímetros, o mesmo número da sua identidade militar (cinquenta e dois) – imaginem vocês em estado de graça. Tô fora! Bom prato pra quem gosta. O filho da puta do Maguila era um negão de dois metros e meio de altura e magro igual ao Gangazumba. No mesmo ano da incorporação (1969) este afrodescendente fez uma muda (que não fala) falar literalmente. Ao comer o c@#$u da infeliz, a própria murmurou: “Ah! Mamãe”.

Nossos avós faziam amor pelo buraco do lençol, com a vela apagada – e só para “produzirem” os nossos pais. Os nossos pais também faziam amor com todas as luzes do quarto apagadas e quando o orgasmo acontecia – o que era raríssimo –, proibia-se veementemente a sua propaganda, tanto durante o ato quanto depois dele. Da minha geração pra baixo, a nudez total, ou parcial, não importa, passou a ser encarada com outros olhos, o corpo passou a ser visto como fonte inesgotável de inspiração e prazer, portanto, não devemos ter vergonha dele, seja qual for o seu sentido estético.

Isso me faz lembrar um papo que rolou numa mesa de jantar entre amigos, mais ou menos uns cinco casais, e uma das mulheres – extraordinária e maravilhosamente fêmea –, depois do décimo copo de vinho, pegou o fio da meada e me saiu com essa:

– O que vale o nosso corpo? Vocês querem saber mesmo o que vale o nosso corpo? Então sugiro que façam uma visitinha ao IML ou DML. Vocês vão perceber de perto que o nosso corpo não vale absolutamente nada.

Eu não preciso dizer, já dizendo, que rolou um tremendo bafafá na mesa; o tempo fechou e foi um ‘salve-se quem puder’ danado. Se alguém pensava em se dar bem, ou seja, arrastar alguma moçoila para a cama depois do evento, teve que esperar outra ocasião. Um amigo do lado mandou de primeira:

– Com licença do seu marido, se você acha que o seu corpo não vale nada, antes de pensar em jogá-lo fora, eu lhe peço, por Deus, dê ele pra mim. Prometo que vou cuidar muito bem dele.

Resumo da ópera; a mulher desse cara deu-lhe um tremendo cachação que acabou desvalorizando ainda mais o corpo alcoolizado do babaca – vestido não valia nada; despido, muito menos ainda.

Eu me aceito como sou, nu e cru, praticante do naturismo por religião e sou seguidor da sua doutrina. Que os “pintos” e as “xerecas” sintam a brisa e a força do vento como as orelhas e os narizes. Que as nádegas e os seios sintam o contato direto da água do mar como o restante da pele. Que os galhos das árvores me açoitem por andar vestido quando na realidade poderia andar nu. Continuo tirando a roupa com a maior naturalidade e fico sem ela até na presença da minha querida sogrinha que, por pena do tamanho, nem olha mais pra mim – que pena!

Tenho um último pedido a fazer àqueles que um dia vão me enterrar (cru):

– Quero ser enterrado nu. Caso eu esteja de pênis ereto, coloquem flores sobre ele, junto com a bandeira do Vasco. Se, por um acaso, o bilau estiver totalmente murcho, por favor, cubram-no imediatamente com a bandeira do Brasil antes que o PT consiga pintá-la com as cores do partido.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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