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Naturismo

Nu e Cru

Nu e Cru

Tal como é, sem disfarce ou rebuço, sincero, de corpo e alma. É assim que eu me sinto, resguardando o sentimento de vergonha pelo que pode ferir a decência ou a honestidade, a pudicícia, o recato – pudera, nunca perdi a minha qualidade de pudoroso. A propósito, certa vez me perguntaram o que eu achava sobre pudor e, simplesmente, respondi que era desfrutar do direito de andar nu. A pessoa já nasce com esse “direito adquirido”, porque ela vem ao mundo (dos vestidos) sem roupa, despida, exposta, descoberta. Naturalmente esplêndida.

De certa forma, eu me preparei para o nudismo, ou seja, para este sistema de viver, de praticar esportes, etc., em estado de nudez, completamente nu, dos pés à cabeça, com simplicidade e singeleza, curtindo a total ausência de enfeites. De modo que, assumi a condição de nudista convicto, de fato e de direito, a partir do verão de 1990, na praia Brava, em Cabo Frio, litoral do Rio de Janeiro, quando tive a primeira “experiência oficial” ao lado de umas três ou quatro dezenas de pessoas, já há algum tempo adeptas.

Se bem que comecei a praticar uma espécie de “nudismo oficioso” aos onze anos de idade, ao me submeter, por necessidade, à cirurgia de fimose. Lembro-me que foi uma operação complicadíssima porque o estreitamento da abertura do prepúcio do meu pinto era mais estreito ainda, daí a recuperação se processar demoradamente, o que me obrigou a andar pelado pela casa durante uns vinte dias.

Minha inclinação ao nudismo social era determinante… O verão de 90 foi decisivo. A partir dele trabalhamos a favor de novos encontros em praias oficiais, sítios, clubes especializados e em residências de amigos naturistas. Naquela altura, minha mulher – cabeça feita – tinha passado pela iniciação da saudável prática da nudação, do desnudamento. Para nós, o ato de pôr-se nu, de despir-se, enfim, de pôr-se a descoberto, era, e continua sendo tão natural quanto dar bom-dia, sem qualquer inibição. Recebemos, então, as primeiras noções sobre Naturismo, segundo a FIN – Federação Internacional de Naturismo: “Naturismo é um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizada pela prática do nudismo em grupo, com a intenção de encorajar o autorrespeito, o respeito pelos outros e pelo meio ambiente”.

Quem um dia não sentiu aquela vontade de tirar toda a roupa do corpo porque alguma coisa incomodava, de romper com os padrões convencionais, de quebrar barreiras, de acabar com os preconceitos e de jogar os tabus por água abaixo? O nudista se incorporando à natureza e ela interagindo com ele. A ação ou efeito de desnudar-se coloca todo mundo em pé de igualdade, no mesmo nível; a indústria da moda perde o sentido; a descarga de forças negativas, acumuladas no nosso corpo, é absorvida pelo solo igualmente nu – é a força cósmica se manifestando. Somos um universo à parte.

Por que os crescidinhos não podem brincar despidos com a mesma inocência dos menininhos pelados? Talvez porque os seus pêlos pubianos cresceram. Por que é difícil entender que um adulto pode ter na sua nudez a mesma pureza de uma criança nua? Talvez porque a maioria dos adultos queira exibir, ofensivamente, as suas partes pudendas com segundas intenções. A bem da verdade, as pessoas que assim julgam são hipócritas na medida em que não têm coragem para mostrar o seu próprio corpo despido, ao tempo em que se excitam com os corpos nus dos outros. Essas mesmas pessoas se declaram tão pudentes como os anjos até na imoralidade cometida por elas, a rigor.

No início, a libido – desejo sexual, ou o instinto sexual como força vital –, sem dúvida alguma é estimulada, ainda que não se queira, no convívio direto com nudistas; isto é subliminar, não há como fugir desta realidade aparente, tão volátil como o éter. Um tanto melhor, porque prova que não passamos de um monte de carne fresca (fora da geladeira) que se move com o auxílio de uma bateria carregada de emoções. Mas, como em qualquer sociedade, existem regras de comportamento, e estas devem ser efetivamente cumpridas, para que tenhamos perfeito entrosamento e equilíbrio. Não façamos aos outros coisas que não gostaríamos que fizessem conosco. O Naturismo fez da nudez, total ou parcial, não importa, fonte inesgotável de inspiração, parte indissolúvel da natureza, seja qual for o seu sentido estético, harmonioso. Ao longo dos anos de prática naturista eu depreendi que o convívio reforça o respeito mútuo, a igualdade, e você acaba se transformando naquela criança nua, com toda a sua pureza, singeleza, inocência e candidez.

Eu me aceito como sou, nu e cru, praticante do naturismo por religião e sou seguidor da sua doutrina. Que o meu corpo absorva a brisa e sinta a força do vento… Que a água do mar banhe a minha pele… Que os galhos das árvores me açoitem por andar vestido quando na realidade poderia andar nu! Tenho um último pedido a fazer àqueles que um dia irão me enterrar “cru”:

“Quero ser enterrado nu, junto com a minha filosofia de pudor”.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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