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Crônicas Aforísticas

26ª Crônica

26ª Crônica

Mestre das reflexões

Certa ocasião, viajando pelo interior do Estado de Minas Gerais, coisa que fazia com regularidade, cumprindo programa de visitas aos clientes da empresa na qual trabalhava. Lembro-me que almoçara, maravilhosamente, numa pensão à margem da estrada, que servia comida caseira – não dava pra resistir à boa refeição mineira, feita por mineiras, ainda mais preparada em panelas de ferro e fogão à lenha.

Abusei de três pratos deliciosos e tentadores: torresmo, linguiça de porco e feijão tropeiro, mas também tinha frango ao molho pardo, polenta, aipim, ovos fritos, arroz com legumes, salada crua, carne seca desfiada, macarrão à moda, costela de boi ensopada, etc. Comi igual a um cavalo, ou melhor, igual a um animal faminto, porque cavalo não gosta de comida feita em panela de ferro. Paguei a conta, esqueci-me de pegar a nota (tem vendedor que jamais esquece e ainda manda aumentar inescrupulosamente o valor da despesa, e tenta comprar o dono do estabelecimento ofertando-lhe um brinde vagabundo, que nem para Merchandising serve) e pus-me novamente na estrada a dirigir, seguindo o roteiro de visitas.

Meia hora depois estava com a barriga roncando mais alto do que uma porca prenhe. Resumo da ópera: deu-me uma tremenda vontade de cagar – acho que foi o cafezinho. Sorte ou azar, à frente uns dois quilômetros, um pequeno posto de gasolina, sem combustíveis, me aguardava. Lá estava ele, o “cagódromo” bem no meio do matagal. Na verdade, nem me lembro se tinha porta, o fato é que corri até ele e só deu tempo pra baixar as calças e dar início ao serviço de evacuação das matérias fecais, interrompido pela leitura obrigatória de uma sessão de piadas, pensamentos, enfim, coisas do gênero, escritas com cuidado na parede (do chão ao teto) à frente do vaso sanitário e numeradas como as fichas dos clientes no meu livro de rotas.

A primeira piada estava escrita no lado inferior esquerdo da parede, rente ao rodapé, e uma seta indicava a segunda, outra seta a terceira piada e assim sucessivamente. Por fim, a última piada estava localizada no lado inferior direito e dizia o seguinte:

– Meu bom amigo pensador, mestre das reflexões, você já reparou que está cagando fora do vaso?

Era verdade, acompanhei atenciosamente aquelas setas em ziguezague, desloquei a bunda das bordas do vaso sanitário e me caguei todo. Antes tivesse me dado uma forte prisão de ventre e deixado pra cagar noutra hora e noutro lugar, até porque naquele fedorento mictório sequer tinha papel higiênico – a água para a descarga tinha que pegá-la, aos baldes, a uns cinquenta metros de distância.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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