>
Você está lendo...
Crônicas Aforísticas

24ª Crônica

24ª Crônica

O Devasso – 4ª e última parte

A expectativa era geral. Tudo indicava que a manifestação seria um sucesso, não fosse um carro de som que passou no meio da multidão anunciando um festival Funk na praia de Itaparica com direito a gratuidade de duas latas de cerveja, para quem fosse acompanhado, independente da opção sexual. Os casais começaram a se formar. Mulheres que nunca tinham visto os homens já estavam de braços dados com eles – as feias eram apedrejadas.

Uma puritana não se conteve:

Nasce um filho e o pai diz: ‘Nasceu um burro de carga’. Nasce uma filha e a mãe logo fala: ‘Nasceu uma carga para um burro’. Cambada de interesseiras; prostiranhas; quengas.   

Não teve jeito, o movimento começou a se esvaziar. No caminho da praia um dos desertores foi flagrado em frente a uma vitrine admirando os seios e a bela bunda de um manequim. Aí, passa um desocupado e pergunta:

E aí meu chapa, está apaixonado?

E ele responde:

Que Mané apaixonado! Eu acho que toda mulher deveria ser igual a este manequim. Uma vez sem cabeça, não tem cérebro. Uma vez sem cérebro, não pensa, portanto, não fala besteira e também não me pede dinheiro toda hora.

O ocioso retruca:

O foda é se ela também não tiver os dois braços e as duas pernas e acima de tudo for gelada como essa porra aí.

Quem foi, foi. Quem ficou, ficou. Permaneceram no local umas 84 pessoas das 842 presumíveis, inclusive um mendigo que não arredou pé, entendendo que aquela seria uma excelente oportunidade para melhorar o seu faturamento. O esmoleiro aumentou o piso das contribuições espontâneas, cravando o valor em R$ 1,00 cada uma. Segundo ele, os 10% dos amotinados que restaram detinham cerca de 90% da renda total dos condôminos – nada desprezível.

Sou pedinte, mas não sou burro. Aprendi com os técnicos do IBGE a fazer tais projeções, porque o meu ponto fixo fica localizado bem na frente daquele Instituto. Completou ele. Deixa o Ministro da Fazenda saber disso.

Será que estaremos invadindo a privacidade da nossa vizinha pervertida com essa proposta de caça à bruxa? Considerou um manifestante mais comedido.

Você não tem idéia do que seja invasão de privacidade. Colocou o irritadiço do apartamento 102.

Não sei uma ova. Minha mulher invade diariamente a minha privacidade quando abre a minha carteira e tira todo o dinheiro de dentro dela. Reconsiderou o agora ‘menos calmo’ manifestante.

Tentando amenizar o clima, o biriteiro que trabalha na administração do condomínio me sai com essa:

O Lula deve ter brincado muito com aquele brinquedo chamado bilboquê porque ele está acertando em cheio o cu do pobre.

O seu colega de escritório não deixou a peteca cair, deu a contribuição dele também:

Toda mulher gosta que o seu companheiro prevarique só pelo prazer de chamá-lo de cachorro, safado, canalha e sem-vergonha. No momento, a minha mulher só me chama de safado. O meu colega biriteiro tem razão: não existe dia pra beber; existe motivo.

Um pouco de humor negro cai bem nesses minutos que precedem o holocausto, por isso, falou um estranho que se comoveu com a causa da viúva, não com a sua história:

Na África existe uma mosca chamada TSÉ-TSÉ que transmite a doença do sono – isto mesmo, do sono. Naquele continente, os flagelados pela fome se deixam morder por ela, portanto, dormindo, eles não sentem fome e, não sentindo fome, não precisam comer!

As horas foram implacáveis. Alguém gritou:

Já é uma hora da madrugada e o que vamos fazer agora?

Permanecer na vigília até duas horas, até porque é estratégico. Estou aguardando o regresso de um agente do FBI (Fofoqueiro Brasileiro Infiltrado) que me trará a correta localização do prédio e do apartamento onde a corrompida mora com o libertino do seu companheiro, co-autor da depravação. Ordenou a viúva do 301.

Com pontualidade britânica – o relógio da portaria marcava uma hora e cinquenta e cinco minutos –, o tal agente do FBI chega dando o sinal positivo:

Sigam-me membros desta comunidade recatada. Vamos botar aquela vagabunda pra fora junto com o ordinário do seu parceiro. Vamos dar a eles o que eles bem merecem! Bradou a viúva do 301, espumando como um siri quando sai do mar.

Outros clamores se misturaram ao som das pisadas frenéticas:

Desgraçada, deixe-nos em paz.

Puta escandalosa, volte pro seu antro.

Sua vergonhosa, aqui não há espaço pra quem quer viver na devassidão, na obscenidade e na libertinagem.

Suma coisa-ruim.

Respeite as virgens do condomínio.

Um silêncio mortal pairava em todas as etapas do condomínio Village de Itaparica – ninguém ousava chegar à janela. Uma vez localizado o prédio e o ninho de sacanagens, perdão, o apartamento da perdição, os algozes estabeleceram o plano macabro:

Você, você e você, e você também sua bicha raivosa, subam até lá e tragam-nos os dois, vivos ou mortos, vestidos ou despidos, enfim, como estiverem.

Ratificando a sua liderança do grupo, a viúva do 301 determinou ainda:

Ficaremos aqui embaixo preparando o linchamento, literalmente. A indecente terá o seu dia de limpeza espiritual – será imolada, oferecida em sacrifício.

A bicha raivosa colocou o ouvido na porta:

Estou ouvindo gemidos amorosos. Todo homem é mesmo como animal selvagem. Veja só o exemplo do leão, que só caça quando está realmente com fome. Esse aí de dentro vai acabar comendo a sua presa e dá a entender que está faminto. A respiração dos dois está cada vez mais ofegante. Sinto arrepios colegas. Agora estão suspirando forte. Ela está dizendo pra ele que sente um desejo ardente tomar conta das minhas entranhas – dela, lógico. Eu imagino que a louca da minha concorrente vai começar a gritar. Por todos os santos, ah que inveja!

Arromba logo e de uma vez por todas esta porta sua bicha filha da puta. Ordenou aquele estranho comovido.

Porta arrombada, tamanha não foi a decepção dos invasores sedentos por sangue. No lugar do casal espalhafatoso, encontraram um solitário maníaco sexual – réu confesso depois de uma sessão de tapas –, recém-separado da mulher, que se masturba três vezes por semana assistindo filmes eróticos no seu computador, via Internet, e no volume máximo. Desceram com ele assim mesmo, completamente alheio ao que estava de fato acontecendo do lado de fora do seu prédio – parecia mais um cachorro de pobre quando cai dum caminhão de mudança.

Depois de passar por um corredor polonês, ao coro de “Devasso, devasso, devasso, devasso”, o punheteiro jurou diminuir o volume do seu equipamento e para compensar foi autorizado pelas mulheres mais conservadoras a aumentar a frequência das punhetas; de três, passaria para seis vezes semanais, com descanso obrigatório aos domingos, quando assistirá aos cultos religiosos – juntinho com elas, e devidamente de pau mole. Houve quem sugerisse substituir essa pena pela simples castração.

A frustração só não foi maior porque os vassalos descobriram, com a ajuda do punheteiro, o morador que mandou importar da África as moscas TSÉ-TSÉ, que seriam vendidas aos condôminos que não conseguiam dormir, a preços exorbitantes, e enfiaram porrada nele.

Augusto Avlis

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Trackbacks/Pingbacks

  1. Pingback: Um cavalo chamado “Heury” « Opinião sem Fronteiras - 31/10/2012

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 152 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: