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Crônicas Aforísticas

23ª Crônica

23ª Crônica

O Devasso – 3ª parte

Os ponteiros do relógio marcavam 21h30min. O acotovelamento era nítido, todos se tocavam com os cotovelos. Segundo estimativas, cerca de 540 pessoas se encontravam no pátio da 7ª Etapa – foram levar o seu apoio e solidariedade à viúva do 301. Os manifestantes não paravam de chegar. Por todos os cantos havia gente. Aderidos à causa, hastearam a bandeira da moralidade, dos bons costumes e da família tradicional. Entre um grito e outro de “Morte à pecadora!”, comentários dos mais estapafúrdios tomavam conta do recinto.

Em março do ano que vem teremos novamente eleição pra síndico. O atual não está fazendo absolutamente nada a favor dos condôminos. Tenho a impressão que os bueiros estão entupidos. Numa próxima chuva forte é muito provável que alague tudo. Só espero que as piranhas não apareçam por aqui. Falou o mordaz morador do apartamento 102.

Outro carioca não se conteve:

Piranhas? Pelo amor de Deus… nem pensar! Quando eu morava na região amazônica elas me deram o maior prejuízo da história; ao constatarem que o boi de piranha estava doente, foram comer o rebanho sadio.

O vizinho do AP 402, que também estava na roda, completou:

Meus amigos, eu não lhes conto nada… as piranhas já me deram muita dor de cabeça! Por aqui eu também tive sérios problemas com elas; peguei dois anos de cadeia por agressão.

A propósito, noutro dia não era você que estava espiando a minha mulher trocando de roupa pela fresta da sua janela? Perguntou o maledicente morador do 102 ao ex-prisioneiro do 402, que não teve outra saída:

Eu não, seu maluco, deve ter sido o pintor. Já o peguei outras vezes em situações suspeitas e só não o dispensei porque estou lhe devendo dinheiro.

E por falar em dinheiro, puta merda, tenho que me esconder daquele cara. Estou devendo R$ 15,00 a ele há seis meses e o filho da puta é mais miserável do que o Tio Patinhas. Esse unha de fome é defensor daquela filosofia lusitana: ‘embora ganhes muito, nunca gastes tudo!’ Falou o enrolador que mora no prédio ao lado.

Ao escutar este pensamento português, o faxineiro da 6ª Etapa mandou ver:

Quem ganha muito faz festa, pode cagar à vontade. Quem ganha quase nada como eu, além de cagar o mínimo, tem que se contentar em ter o seu salário chamado de ‘menstruação’ porque só dura três dias.

Tem outro filho da puta no 4º andar que não tem merda no cu pra cagar e não perde a sua, dele, mania de grandeza. Eu não aguento mais as suas mentiras grandiosas. Em todo jogo do Flamengo ele diz que come caviar, mas, um vascaíno espião me confirmou que ele come, na realidade, azeitonas verdes, que estão sempre em promoção no supermercado Boa Praça. Desabafou um botafoguense de plantão.

Então deve ser o mesmo ‘FDP’ que joga caroços de azeitonas pela janela e de vez em quando algumas caem na minha careca. Concluiu o morador calvo do 3º andar.

Um jogador no bicho, contumaz, frustrado porque há exatos 10.000 dias não acerta no milhar, veio contar uma novidade:

Vocês lembram-se do Bené? É aquele magrelo que trabalhava no bar Escritório na época em que o Guimarães era vivo. O Bené agora é bicheiro. Descobri que ele não tem quatro dedos do pé esquerdo – só restou o dedão. Quando o vi sem os sapatos me assustei e presumi que tivesse sido um acidente numa obra qualquer, todavia, o Bené me confidenciou que foi por causa de uma pisada de elefante por época em que era domador de sapos num circo do interior. Um dia desses contei-lhe que sonhei com porco e ele me mandou jogar no porco – resultado, deu avestruz. Sonho com avestruz, jogo no porco e dá cavalo. Já vi que sonho de pobre não dá em nada. Eu só queria ter o prazer de dizer pra Etelvina, minha mulher, que acertei no milhar. Descobri mais tarde que o filho da puta do Bené, sempre que jogava no elefante, dava burro na cabeça.

O hóspede do 302 pediu a palavra:

Essa história aí, pra mim, é café pequeno. Vocês não viram nada! Tem um babaca no prédio onde estou que sofre de insônia e um belo dia resolveu trabalhar com uma furadeira às três horas da madrugada.

E o que é que você fez? Perguntou o vigia da noite.

Bem, como ele era visivelmente mais forte do que eu resolvi ajudá-lo pra ver se o serviço acabava mais cedo.

Há pouco, ouvi de longe alguém falando mal do síndico, meu marido. Que culpa ele tem se falta água com frequência e os moradores não param de lavar os seus carros dentro do condomínio nos finais de semana? Que culpa tem o síndico se os seus funcionários levam os seis primeiros meses do ano plantando árvores novas e nos outros seis derrubando as que já existem? Que culpa eu tenho se as madamas levam os seus vira-latas pra defecarem na grama, e que pela quantidade de merda, ela, a grama, não pode ser aparada, simplesmente é arrancada? Que culpa nós temos se somos obrigados a conviver com um condômino que não trabalha, mas que troca de carro todo ano e que também é chegado a libidinosidades; eu acho até que ele vive com um veadinho rico que lhe banca?

Atrás dela, despercebidamente, encontrava-se um veado explícito que se manifestou em respeito à ordem:

Olha aqui boneca, quem dá o que é seu não é desonra não!

A revolta do veado não parou por aí; continuou atacando com mais ênfase:

Além do mais, eu, sinceramente, não sei o que você veio fazer neste evento. Com certeza, jogar a primeira pedra a belezoca não pode. Imagina! Se não me falha a memória, há uns dois anos e meio, mais ou menos, fui testemunha ocular de um case (Keys’ é a pronúncia em inglês minha filha) ocorrido no segundo andar daquele edifício bem ali. Está vendo queridinha? Já passava das três da manhã quando ouvimos, eu e minhas coirmãs, um casal trepando escandalosamente e ela, aos berros, implorava ao jumento do seu parceiro que comesse o seu cu. Ai, que horror! Pediu que a rasgasse toda, que a esmurrasse, que a lançasse contra a parede, enfim, que acabasse com ela de vez por todas. Agora eu sei porque o combate a este espetáculo sexual não foi levado adiante por você e seu machão. A voz da depravada lembra muito a sua. Eu posso até jurar que é a mesma, meu bem!

Na verdade, ninguém consegue dominar uma bicha raivosa. A dita cuja mulher do síndico botou o rabo entre as pernas e sumiu na multidão.

Mudando de veado vivo pra corno morto. Nem a suspensão das leis naturais operada por uma força sobrenatural faria, até aquele momento, uma mulher confessar um segredo guardado a sete chaves. Ao pé do ouvido, um morador do bloco 101 contou esta história para o maior fofoqueiro do conjunto:

Que Deus o tenha e o guarde! O meu vizinho de porta – nem vou dizer o nome dele em respeito à sua condição de corno, até porque os chifres acompanham o espírito –, no leito de morte, antes de fechar os olhos pra sempre, fez um último pedido à sua mulher. Ele queria que ela confessasse quem era o pai verdadeiro do seu nono filho, já que nascera completamente diferente dos outros oito, motivo de achincalhe por parte de todo o município, ou melhor, do Estado. Totalmente embevecida pela luz divina, ela, a esposa, acabou confessando: ‘Morra em paz, amado marido, porque este nono filho é seu, realmente seu; os outros oito é que não são!’ E aí, a vela se apagou com o último suspiro do corno descuidado.

E a sacanagem continua…

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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