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Crônicas Aforísticas

9ª Crônica

Vinte e seis dias se passaram da partida do meu filho Rodrigo para a Itália. No café da manhã de hoje, eu e minha mulher, com o coração apertado, comentamos sobre isso, e que a qualquer momento receberíamos uma carta dele, já que no último contato telefônico confirmara o envio.

Mal nos levantamos da mesa em direção à sala, e lá estava ela, a carta do Rodrigo, cuidadosamente colocada na fresta da porta social. Desta vez, a funcionária do condomínio não tocou a campainha, como de costume, anunciando correspondência nova. Acredito que tenha sido melhor assim, porque poderíamos até causar um acidente doméstico, na corrida para ver quem pegava primeiro a carta do filho distante. Parar de tomar o café não faria mal algum. Dividimos a leitura daquela carta – não saberia precisar por quantas vezes –, porque a nossa voz ficava mais embargada a cada mudança de parágrafo.

O Thiago, nosso filho mais novo, estava dormindo naquele momento, já que ficara toda a noite no computador consultando a Internet. Foi melhor assim, vez que o “baixinho”, ao seu modo, se emocionou reservadamente quando leu, mais tarde, a carta do irmão. Instantes depois, estávamos os três abraçados e chorando copiosamente.

Um dos principais traços na personalidade do nosso filho Rodrigo, sem dúvida, é a discrição, portanto, não revelarei, na íntegra, o conteúdo da sua resposta – por enquanto. Até que poderia, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado. Conhecendo-o bem, jamais me perdoaria, por julgar a sua escrita estritamente pessoal e não publicável. A última coisa que quero é causar indignação seja a quem for. Vamos respeitar a privacidade das pessoas. Por outro lado, acho que comentar uma frase aqui, outra ali, não constitui prova de violação de correspondência, até porque ela foi endereçada a mim.

“Comecei a trabalhar dia 08/10, numa quarta-feira, como ajudante de pedreiro…”.

A despeito do orgulho que os pais possam sentir quando os filhos demonstram coragem e, sobretudo, humildade, sempre fica aquela sensação que não fizemos o bastante por eles; no nosso julgamento. Com certeza foi o primeiro trabalho que apareceu, muito embora a gente se ilude quando pensa que poderia haver outra melhor alternativa lá fora. Também não lhe foi concedida outra opção no momento em que foi obrigado a trancar a matrícula no terceiro período do curso de Psicologia na Universidade Gama Filho, RJ, porque não suportamos pagar as mensalidades.

“É inefável falar da dor causada pela saudade que sinto de vocês; pretendo voltar o mais rápido possível… mas, quero voltar para minha casa, para a minha família!”.

Laços de sangue são extraordinariamente mais fortes do que qualquer ideologia de conquista. Um pequeno e frágil pássaro sai do ninho, por direito de sentir necessidade, entretanto, o seu instinto pode, a qualquer momento, trazê-lo de volta.

“Não se preocupem comigo, estou bem e me sinto preparado para esta etapa da minha vida”.

Dificilmente o coração de uma mãe e de um pai se engana. Na mais pura intimidade dos nossos pensamentos, construímos presságios e tentamos adivinhar o futuro, porque assim queremos. Sofremos, ambos calados. Por que temos que nos privar da companhia de um filho numa situação dessa? Se pelo menos o Brasil oferecesse oportunidade para todos e não desamparasse esta geração que aí está, provavelmente muitos jovens como o nosso filho Rodrigo não fossem resgatar a dignidade, a autoestima e o respeito em outro país.

Aquela mesma porta, que serviu de amparo para a primeira carta escrita pelo nosso filho que está na Itália, permanecerá destrancada, porque o nosso coração diz que a qualquer hora ele entrará por ela.

O Natal se aproxima…

E que o novo ano traga boas notícias, paz nos corações e alento para todos nós.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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