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Crônicas Aforísticas

10ª Crônica

Pai, o que você fez foi “pura maldade”, deixando aquela carta na mala! Todo o meu esforço mental e físico para não chorar desabou por completo quando li sua carta; e pude perceber, verdadeiramente, a nova realidade que iria enfrentar.

Comecei a trabalhar dia 08/10, numa quarta-feira, como ajudante de pedreiro – minha carga horária é de oito horas por dia, de segunda a sábado, podendo haver acréscimo de horas, a depender da necessidade, como já houve várias vezes. Hoje, dia 20/10, segunda-feira, não estou trabalhando por consequência da chuva, pois estamos fazendo um trabalho externo numa casa, e aproveitei este momento para escrever-lhe.

O trabalho é um pouco pesado, e as pessoas aqui exigem muita “rapidez” – estou dando o melhor de mim na realização das tarefas. Até o momento não houve conversa a respeito de salário, nem adiantamento. O Ciro, namorado da Tânia, foi o responsável por me conseguir este emprego, e ele tem me ajudado muito; é um cara bom, dotado de um senso de solidariedade e altruísmo fantástico.

Ainda não sei quanto irei receber de salário, nem quando, mas deve ser em torno de 800 Euros, talvez. Minhas tias estão me ajudando bastante, em especial a Tânia, o que está me surpreendendo, mas preciso acomodar-me em outro lugar o mais rápido possível, pois não me sinto totalmente à vontade, o que é absolutamente natural. Estou seguindo todas as suas recomendações, e procuro ajudar ao máximo na realização de pequenas tarefas as duas tias; e é natural que ajude mais na casa de Tânia, mas procuro equilibrar minha relação com as duas – elas realmente se odeiam.

É inefável falar da dor causada pela saudade que sinto de vocês; pretendo voltar o mais rápido possível, e dentro desse tempo adquirir alguns bens materiais que me garantam moradia e sustento próprios aí no Brasil. Com esse objetivo em mente, pretendo voltar somente depois de concretizado, por isso, vou precisar muito da sua ajuda na administração do dinheiro para realização desses objetivos, mas antes de tudo, quero pagar a passagem, em segundo lugar comprar um carro para a família, e em terceiro lugar uma reforma no apartamento e compra de utensílios domésticos. Somente depois dessas três primeiras etapas é que iremos para o quarto e último objetivo: uma moradia e uma forma de sustento para mim, e quem sabe, meu irmão também. Calculo, e pretendo conseguir a concretização desses objetivos no máximo em quatro anos. Darei o máximo de mim para isso!

A Europa é realmente linda. Conhecer lugares e culturas diferentes é maravilhoso, mas quero voltar para minha casa, para a minha família! Estou descobrindo uma força em mim que eu mesmo desconhecia, força essa provinda unicamente de você, meu pai; você é a minha base de sustentação psicológica – a base de tudo, a base da existência de todo o meu complexo e enigmático ser! Eu te amo!

Não posso deixar de falar de minha mãe, que também é responsável pela minha formação, e que eu tenho amor tão profundo, que não se pode medir, nem sequer expressar por palavras… Meu pequeno-grande irmão, o meu melhor irmão – o único que eu poderia ter! Enfim, vocês são o motivo da minha vida, eu os amo mais do que a mim mesmo, e tenho um imensurável orgulho de tê-los como família – a única família que eu poderia ter!

Não se preocupem comigo, estou bem e me sinto preparado para esta etapa da minha vida.

O que é bom?

A vontade de potência.

O que é ruim?

Tudo que advém da fraqueza.

O que é felicidade?

O sentimento de que a potência cresce.

Friedrich Nietzsche

 

Pisa, Itália, 20 de outubro de 2003.

Rodrigo Pontara

Quem passa por essa vida, sem vivê-la, não consegue compreendê-la, tampouco interpretá-la. A experiência tem o seu preço; se quisermos adquiri-la temos que ter disposição e condições psíquicas para assumirmos a dívida – o mundo nos cobra. O prejulgamento formado quase sempre reflete imagens distorcidas – o gume da navalha ao entrar na carne só causa dor à vítima. Pessoas há que saem fortalecidas, aprendem, revigoram-se, transmitem ensinamentos, superam desafios e partem renovados para novos rumos. Outras pessoas há que se entregam, simplesmente desistem, acovardam-se, intimidam-se, deixam pra trás os seus sonhos, pedras largadas ao longo do caminho. Verdade que a vida também nos pede um tempo; ocasião para corrigirmos desvios de rota, avaliarmos as escolhas, refletirmos sobre o que queremos de fato – sem interferências, sem cobranças, sem sentimentos de piedade.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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