>
Você está lendo...
Crônicas Aforísticas

11ª Crônica

O peso dos anos, indubitavelmente, nos torna pessoas frágeis, sensíveis e com um grau de emocionalidade acima do que desejamos. A ausência do meu mais velho filho, Rodrigo, que foi para a Europa em busca de um futuro melhor, me abalou profundamente a ponto de esquecer momentaneamente o meu mais novo filho, Thiago, que com o seu jeito meigo, tenta conquistar minha atenção – convida-me para participar dum jogo no seu computador, ou simplesmente acompanhá-lo na Lan House próxima daqui de casa; coisas que ainda não fiz. A sua bola de basquete ele a emprestou a um colega do condomínio, há meses, e tenho a impressão que não vai pegá-la de volta pelo fato de nunca ter contado comigo no seu time.

Nada acontece por acaso. Nessas horas difíceis, tento me isolar para não contagiar os demais com minha dor e, sobretudo, para que o meu estado de espírito não os influencie de alguma forma. Foi assim bisbilhotando uma gaveta do armário que encontrei o texto de autoria do jornalista Hélio Fraga (Belo Horizonte – MG), transcrito abaixo, que além de preencher o meu vazio interior, me fez acordar e enxergar melhor à minha volta. O amor não tem fronteiras.

O equilíbrio necessário

O pai moderno, muitas vezes perplexo e angustiado, passa a vida inteira correndo como louco em busca do futuro e esquecendo-se do agora. Nessa luta, renuncia ao presente. Com prazer e orgulho, a cada ano, preenche sua declaração de bens para o Imposto de Renda. Cada nova linha acrescida foi produto de muito trabalho. Lotes, casas, apartamentos, sítio, casa da praia, automóvel do ano – tudo isso custou dias, semanas, meses de luta. Mas ele está sedimentando o futuro da sua família. Se partir de repente, já cumpriu sua missão e não vai deixá-la desamparada.  

Para ir escrevendo cada vez mais linhas na sua relação de bens, ele não se contenta com um emprego só – é preciso ter dois ou três; vender parte das férias; levar serviço para casa. É um tal de viajar, almoçar fora, fazer reuniões, preencher a agenda – afinal, ele um executivo dinâmico não pode fraquejar.  

Esse homem se esquece de que a verdadeira declaração de bens, o valor que efetivamente conta, está em outra página do formulário do Imposto de Renda – naquelas modestas linhas quase escondidas, nas quais se lê: relação de dependentes. São os filhos que colocou no mundo, a quem deve dedicar o melhor do seu tempo.  

Os filhos, novos demais, não estão interessados em propriedades e no aumento da renda. Eles só querem um pai para conviver, dialogar, brincar. Os anos passam, os meninos crescem e o pai nem percebe, porque se entregou de tal forma à construção do futuro, que não participou de suas pequenas alegrias; não os levou ou os buscou no colégio; nunca foi a uma festa infantil; não teve tempo para assistir à coroação de sua filha como Rainha da Primavera. Um executivo não deve desviar sua atenção para essas bobagens. São coisas para desocupados.  

Há filhos órfãos de pais vivos, porque estão “entregues” – o pai para um lado; a mãe, para outro, e a família desintegrada; sem amor, sem diálogo, sem convivência. É nessa convivência que se encontra fraternidade entre os irmãos, abre caminho no coração, elimina problemas e resolve as coisas na base do entendimento. Há irmãos crescendo como verdadeiros estranhos, que só se encontram de passagem em casa. E para ver os pais é quase preciso marcar hora.  

Depois de uma dramática experiência vivida, pessoal e familiar, a mensagem que tenho para dar é: não há melhor tempo aplicado do que aquele destinado aos filhos.

Dos 18 anos de casado, passei 15 absorvido por muitas tarefas, envolvido em várias ocupações e totalmente entregue a um objetivo único e prioritário: construir o futuro para três filhos e minha mulher. Isso me custou longos afastamentos de casa; viagens, estágios, cursos, plantões no jornal, madrugadas no estúdio da televisão… Uma vida sempre agitada, atormentada e apaixonante, na dedicação à profissão – que foi, na verdade, mais importante do que minha família.   

Agora, estou aqui com o resultado de tanto esforço: construí o futuro, penosamente, e não sei o que fazer com ele, depois da perda de Luiz Otávio e Priscila.  

De que vale tudo o que juntei, se esses filhos não estão mais aqui, para aproveitar isso com a gente? Se o resultado de 30 anos de trabalho fosse consumido agora por um incêndio e, desses bens todos, não restasse nada mais do que cinzas, isso não teria a menor importância; não ia provocar o menor abalo em nossa vida, porque a escala de valores mudou e o dinheiro passou a ter peso mínimo e relativo em tudo.  

Se o dinheiro não foi capaz de comprar a cura do filho amado que se drogou e morreu; não foi capaz de evitar a fuga da minha filhinha, que saiu de casa e prostituiu-se, e dela não tenho mais notícias, para que serve? Para que serve? Para ser escravo dele?

Eu trocaria – explodindo de felicidade – todas as linhas da declaração de bens por duas únicas que tive de retirar da relação de dependentes: os nomes de Luiz Otávio e Priscila. E como doeu retirar essas linhas na declaração de 1986, ano base 1985. Luiz Otávio morreu aos 14 anos e Priscila fugiu um mês antes de completar 15.  

Nada, absolutamente nada, acontece por acaso. Instantaneamente ao término da leitura do texto de Hélio Fraga, o meu filho Thiago invade o meu quarto: Pai, esta mensagem trago guardada comigo há quase dez anos. Em agosto de 1994, no Dia dos Pais, queria entregá-la a você pessoalmente e lhe dar um beijo. Era só o que eu queria, mas mamãe me falou que você estava viajando a serviço e regressaria apenas no final do mês. Aquele simples pedaço de papel ficou manchado com algumas gotas de lágrimas que caíram dos meus olhos sobre ele naquele momento – ainda bem que não apagaram a singela dedicatória ‘Para o Pai’ e a minha minúscula assinatura ‘Thiago’. Pai, vendo você do jeito que está, entendo que esta é a melhor hora para entregá-la. Eu só acrescentaria mais uma frase: Quando teu filho disser que te ama – acredite. Esta foi a mensagem:

A bela tarefa do pai

 Quando teu filho te busca com seu olhar, olha-o.

Quando teu filho te estende seus braços, abraça-o.

Quando teu filho te busca com sua boca, beija-o.

Quando teu filho te falar, escuta-o.

Quando teu filho se sente desamparado, ampara-o.

Quando teu filho se sente só, acompanha-o.

Quando teu filho te pede que o deixes, deixa-o.

Quando teu filho te pede para voltar, receba-o.

Quando teu filho se sente triste, consola-o.

Quando teu filho estiver em dificuldades, anima-o.

Quando teu filho estiver no fracasso, protege-o.

Quando teu filho perder toda a esperança, alenta-o.

Augusto Avlis

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Trackbacks/Pingbacks

  1. Pingback: Um cavalo chamado “Heury” « Opinião sem Fronteiras - 31/10/2012

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 154 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: