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Crônicas Aforísticas

12ª Crônica

Filho, juro que não tive a intenção de deixá-lo emocionado com aquela mensagem colocada dentro da sua mala. Confesso a você que pensei até em tirá-la no aeroporto, mas, como as chaves do pequeno cadeado encontravam-se em seu poder, iria “dar na pinta”, e todos ficariam curiosos. A proposta da carta só foi uma: motivá-lo a criar coragem, despertar o grande potencial do qual é dotado.

O fato de você estar trabalhando como ajudante de pedreiro em nada o diminui, muito pelo contrário, o dignifica ainda mais, na medida em que é um trabalho honesto, uma primeira oportunidade oferecida em outro país e, sobretudo, o simples começo de outras melhores conquistas. Convites não faltarão para o exercício de outras atividades. Pelo menos você não deve se considerar cru na atual função, porquanto acumulou boas experiências nas nossas obras na casa do Rio. Por outro lado, você sempre quis retomar os exercícios físicos na academia – boa chance essa, não é? Encare na esportiva. Lembra que lhe falei que os europeus valorizam a rapidez na conclusão dos trabalhos? Todavia, não se esqueça de que apenas imprimir velocidade nas tarefas não é o bastante. Alie o fator qualidade aos serviços. Faça rápido, mas faça bem feito.

Não se preocupe quanto a salário, por enquanto. O importante é você investir em si próprio, conquistar a confiança de todos. A valorização vem com o tempo. Os europeus, pelo menos a maioria deles, são pessoas muito boas, respeitam os seus semelhantes. Fico feliz ao saber que no seu caminho apareceu gente disposta a ajudá-lo. Conhecendo você como eu conheço, não tenho a menor dúvida que nunca irá decepcionar seja quem for. Faça amigos.

Acho que nesse primeiro momento você não deve se preocupar em demasia com uma provável mudança de casa, até porque entendo que esta decisão só deva ser tomada após outra mais importante, ou seja, após a definição quanto à sua permanência na Itália. Aguarde o término do período de noventa dias. Pelo que sei, tanto Tânia quanto Vera estão “carregando você no colo”. Por enquanto, vai administrando a situação como está. Algo me diz também que você pode se constituir no elo entre as suas duas tias, fazendo a paz voltar.

Outra coisa que me deixou deveras satisfeito e orgulhoso: você voltou a sonhar com uma visão de longo prazo; simplesmente resgatou o desejo de conquistar um futuro promissor, e, claro, nele incluem-se alguns bens materiais, fundamentais para o seu conforto e garantia de sobrevivência mais tranquila. Um pouco de ambição é bom, não obstante, precisa ser dosada. Vou começar a ajudá-lo a administrar o seu dinheiro: primeiro, consulte suas tias sobre a possibilidade de você abrir uma conta-corrente em um banco local para fazer depósitos e movimentar o seu dinheiro (parado em casa não rende dividendos e também não é prudente carregar grandes somas dentro dos bolsos); segundo, não se preocupe com a pressa de nos ajudar a pagar a sua passagem – quando der, deu; terceiro, antes de pensar em comprar um carro para a família, compre um para você, porque breve vai precisar dele; quarto, reformar o apartamento, hoje, não é prioridade, e ele está bom como está, pelo menos não chove dentro, e é muito melhor você guardar o dinheiro para coisas mais importantes; quinto, concordo que você queira comprar utensílios domésticos, mas só para o seu casamento, ou quando for morar sozinho aí na Itália; sexto, legal você se preocupar com o seu irmão; muito provavelmente vamos precisar de você quando ele estiver na faculdade, sobretudo se esta for particular.

Campeão, você está tendo a oportunidade de constatar que a Europa, além de bonita, é uma fonte inesgotável de cultura. Sempre que puder, viaje, conheça novos lugares, inclusive outros países. Esta prática é fundamental para a sua formação, porém, não se esqueça de uma coisa: aprenda a língua local e se esforce também para aprender o inglês.

Todos nós temos uma força interior extraordinária, só que algumas pessoas levam um pouco mais de tempo para descobri-la. Você teve o seu tempo, acredite. Vá fundo.

Sua mãe mudou radicalmente o visual. Cortou o cabelo bem curto. Radicalizou. Tá na onda, bicho! Ela não perdeu nem um pouquinho da sua boniteza – ainda bem que vocês nasceram com a beleza dela e com a minha inteligência (risos). A sua mãe está se firmando como empresária do crochê, porque não pára de receber encomendas. Seu irmão, neste sábado, dia 08, fará vestibular para a UVV (Universidade de Vila Velha). Eu sei que é particular, mas, a inscrição foi de graça como em todos os anos, e é uma excelente oportunidade para ele se familiarizar com as provas, ou seja, é um teste muito bom que lhe dará experiência e uma boa bagagem. Está de pé o vestibular para a UFES. Ambos os vestibulares serão para Comunicação Social. Entretanto, eu acho que a praia dele é outra.

Filhão, gostei imensamente da mensagem do Nietzsche. Como bom conselheiro, só peço a você que não perca a “vontade de potência” quando for comer uma italiana peituda e gostosa. Rodrigão, você reclama que tem um “bilau” pequeno – eu juro que não conto pra ninguém. Agora, com a chegada do rigoroso inverno europeu, você não acha que seria melhor comprar uma touca de lã para aquecer a cabeça do “bilau”? Caso contrário, como você vai conseguir mijar numa temperatura abaixo de zero?

Já ia me esquecendo; semana passada levei a terceira dedada no anus, mas não rolou nada com o médico. Tudo legal com os meus exames de próstata. Agora você também pode me sacanear, lembrando de antemão que a sua vez chegará.

Filho, eu, sua mãe e seu irmão estamos mandando um beijão, um forte abraço e desejos de muitas felicidades, sucesso e sorte. Todos aqueles com os quais falamos, desejam o mesmo pra você. Falei com a sua avó Sylvina, ontem, e ela disse estar com muitas saudades suas. Escreva para ela.

Filhão, fique com Deus, e que ele abençoe você.

Vila Velha, Espírito Santo, 07 de novembro de 2003.

Esta foi a última carta que escrevemos para o nosso filho. Dias depois de tê-la recebido, viajou para o norte da Alemanha para encontrar um grande amigo. Conheceram-se na cidade de Manaus, Amazonas, no começo da década de 90. Adriano não era mais a mesma pessoa de antes, sobretudo após a morte repentina dos seus pais, fato que acarretou drástica mudança no seu comportamento. Meu filho decepcionou-se, não encontrou apoio no amigo, voltou ao Brasil e daqui não saiu mais. Na verdade, a força do nosso pensamento o chamou de volta – os nossos corações se acalmaram. A mesa do Natal ficou completa.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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