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Crônicas Aforísticas

13ª Crônica

Mal tinha amanhecido, quando vi um homem solitário caminhando em direção a um jambeiro. Notei que carregava uma escada articulável, um rolo de arame farpado e uma pequena caixa de madeira, igual àquelas que servem para guardar ferramentas. O jambeiro acabara de florir, deixando rosado o chão, contrastante com o verde da grama – a diferença das cores era simplesmente notável.

Aquele homem abriu a escada, começou a desenrolar o arame farpado e em seguida tirou de dentro da caixa um martelo e uma lata contendo pregos. De certo, não iria construir nenhuma cerca porque ao redor não tinha qualquer estaca ou moirão fincado no solo. Sua aparência era de uma pessoa da classe média, com certa instrução, talvez. A expressão carrancuda desenhava os traços desfigurados do seu rosto – o que pensava ou sentia era manifestado através de gestos ou atitudes sequenciais.

Uma passagem estreita e comprida, feita de cimento bruto, corta o gramado entre os edifícios. Ela é usada pelos moradores como corredor de acesso à principal portaria. Costuma a ficar congestionada nos dias úteis, em horários específicos, sobretudo nas entradas e saídas do trabalho e rush escolar. Como era manhã de domingo, apenas meia-dúzia de pessoas tinha passado para comprar pães frescos da primeira fornada. Ninguém percebera o que estava acontecendo, até então. Aquela cena inusitada chamou a atenção de um velho que voltava do jornaleiro. Movido pela natural curiosidade, aproximou-se, dirigiu-se àquele homem e perguntou-lhe:

Bom-dia amigo! O que você está pretendendo fazer com todo esse aparato?

Sem pestanejar, até porque não queria perder tempo dando maiores explicações a quem quer que fosse, respondeu-lhe incontinenti:

Vou enrolar e pregar este arame farpado no tronco e nos galhos mais grossos do jambeiro para impedir que as crianças subam nele e arranquem os jambos ainda verdes. Esses moleques não estão deixando os frutos amadurecerem no próprio pé!

O velho não se conteve, mediante aquela decisão imperativa:

Dessa forma, ninguém terá acesso aos frutos. Eles acabarão apodrecendo no próprio pé e cairão no chão.

Aquele homem se limitava a dizer:

Eu sei o que estou fazendo!

A cada volta do arame no tronco, já machucado, ele pregava um prego – queria ter a plena certeza de que o arame farpado não se soltaria. O martelo zunia no ar, emitia zunido, como o vento sibilando. Cada prego empurrado para dentro do tronco do jambeiro lembrava a crucificação de Jesus Cristo, tamanha a tortura imposta a um vegetal lenhoso, indefeso, estático e que não pode mudar espontaneamente de estado. O homem batia, batia sem cansar e aos poucos ia construindo uma verdadeira coroa de espinhos. Aquele homem não se importava em demonstrar a sua irracionalidade. Estava totalmente cego, tampouco não conseguia discernir as súplicas dos que testemunhavam os seus atos. Respondia para si mesmo, entre os dentes, uma infinidade de vezes:

Eu sei o que estou fazendo!

A indignação, naquela altura, já tomara conta de todos. As pessoas não queriam acreditar no que estavam vendo. Os questionamentos ficavam menos frequentes. Ninguém ousava mais abrir a boca. A perplexidade provocava a impotência involuntária – este processo é absolutamente contaminador.

Terminado o trabalho, o homem foi embora, solitário. Já não havia nenhuma pessoa por perto. Um clima sepulcral pairou sobre a área – nuvens cinzentas se formaram com rapidez, começou a chover forte e continuou assim por todo o dia de domingo. Curiosamente, a uns dez metros do jambeiro, o que restou de uma antiga figueira – alguns galhos secos e retorcidos –, completava o macabro cenário.

No dia seguinte, aproveitando-se da ausência daquele homem, um grupo de seis meninos conversava – não com a mesma descontração de sempre – debaixo daquele jambeiro, tentando juntar as pedras do quebra-cabeça, ao seu particular modo, para então tentar decifrar o ocorrido. Cada um fez questão de externar a sua opinião a respeito:

Eu penso que ele não poderia ter feito aquilo com a árvore. Ele não tinha esse direito. A árvore não era dele, não era só nossa, era de todos nós, inclusive dos pássaros e dos outros bichinhos também.

Da minha parte eu fico muito triste, e até me dá vontade de chorar. Vejam vocês como ela deve estar sofrendo. Parece que chora, porque um líquido transparente escorre pelo seu tronco.

Pois é, mesmo sentindo dor, ao continuar crescendo, a árvore terá o seu corpo cortado pelo arame farpado. Deve ser a mesma sensação que um enforcado sente quando a corda é esticada ao redor do seu pescoço. Só que, no caso do jambeiro, a dor é mais prolongada.

O mundo já é cruel o bastante, por isso, acho que os homens não deveriam piorar as coisas. Ninguém pensa nas consequências. As pessoas grandes fazem questão de cometer maldades.

E agora, o que vamos fazer? Será que não vamos mais poder salvar as lagartas dos ataques das formigas devoradoras?

Vocês todos já falaram, portanto, não podemos esquecer que gostamos de subir nas árvores, não por travessura, simplesmente porque a gente se sente mais pertinho do “Papai-do-céu”. O que a gente mais gosta, e todo mundo vai concordar comigo, é de ter a impressão que as árvores nos ouvem, sempre que falamos com elas, ao contrário da maioria dos adultos. Além disso, falo também da emoção de experimentarmos a liberdade toda vez que necessitamos dela, sem que precisemos fugir de alguém.

A grama estava totalmente encharcada e escorregadiça devido ao excesso de chuva que caiu ontem. O sol se escondera e a fragrância de certas flores do jardim ao lado não era mais sentida como antes. Porém, a criançada não perdera o ânimo e, numa demonstração de incitamento, arranjou logo um jeito de desafiar aquele homem agressor – nenhum arame farpado impediria qualquer criança de ser criança, sobretudo quando o seu uso se deu por motivo de proibição e intimidação.

Um dos garotos se vira para o coleguinha do lado e propõe:

Se eu subir nos seus ombros posso alcançar aquele galho e, uma vez lá em cima, eu puxo todos vocês, um por um, e aí a gente arranca alguns jambos pra comer, antes que aquele homem volte.

Não deu noutra coisa. Naquele momento, iam passando duas senhoras e uma delas, ao ouvir tal proposta, balançando a cabeça, comentou prontamente com a outra:

Criança é assim mesmo. Isso faz parte da infância. Duvido que apareça alguém, no tempo em que foi criança, que nunca tenha subido numa árvore para arrancar uma fruta e comê-la diretamente no pé, ainda que verde. Existe pureza nesse gesto. A natureza não vai se sentir nem um pouco ofendida, muito pelo contrário, as árvores sentir-se-ão prestigiadas – coisa tão difícil de acontecer nos dias de hoje com tanto desmatamento ocorrendo.

A fatalidade, para acontecer, não escolhe hora, lugar ou situação. A verdade é que os garotos compraram imediatamente a idéia e foram subindo nas costas uns dos outros. A imponderabilidade é objeto da desgraça! Um dos meninos se desequilibrou e, ao cair, bateu com a cabeça na quina da calçada, entrando instantaneamente em coma profundo, motivado por traumatismo craniano, ocasionando perda total das atividades cerebrais – permaneceu nesse estado por uma semana, vindo a falecer no sétimo dia.

Por obra do poder supremo que supostamente predetermina o curso dos acontecimentos, esse menino, de doze anos, era filho único do homem que pregou o arame farpado no jambeiro.

No dia do enterro do menino, aquele velho, primeiro que questionou a atitude daquele homem, com as mãos nuas, arrancou o arame farpado que envolvia o jambeiro. Feriu-se todo. Sangrava. Falava em tom baixo:

Minhas feridas daqui a pouco estarão cicatrizadas, enquanto aquele pai sofrerá por toda a sua vida pela perda do seu único filho, exclusivamente por sua inteira culpa. Ficar vivo será o seu maior castigo e condenar-se-á por não ter morrido no lugar dele.

A mãe do menino, cardíaca, morreu quinze dias depois.

O pai suicidou-se, passados três dias da morte da esposa.

No velório, um parente próximo desabafou:

O jambeiro não precisou de escora para ter o seu tronco ereto ou de um tratamento especial para dar bons frutos. Pessoas há que necessitam de esteio, caso contrário, crescem tortas, injustas, erradas – instintos ruins se revelam durante a vida e se deixam sobressair ao lado bom. Para algumas pessoas, é bem mais fácil agredir do que conversar. Convivemos diariamente com outros tipos de guerras em cenários de aparente paz. A luta constante da insensatez contra a inocência, da intolerância contra a razão, parece que nunca terá um final. Gustavo está bem…

Decorrido um mês da morte do menino Gustavo, por obra do destino, ou celestial, os poucos jambos, que ainda restavam no pé, murcharam, perderam o viço, a cor, a beleza, a força e caíram sobre a grama seca. O jambeiro parou de florir. Os cinco meninos, que se aproximavam, viram gotas de cristal caindo do céu, deixando cintilante a copa do jambeiro, inexplicavelmente.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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