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Crônicas Aforísticas

14ª Crônica

Resolvi seguir um catador de papéis, sem intrometer-me; até porque, se quisesse, não poderia, mesmo que fosse bem de perto. Um tosco carrinho, com dois metros cúbicos de espaço, aproximadamente, apoiado sobre um eixo com duas rodas, que antes pertenceram a um veículo sucateado qualquer, e movido pelas mãos do homem, é o principal instrumento de trabalho do catador de papéis. O combustível é a força de vontade, vinda donde, não se sabe. Aquele pequeno carro, utilizado para o transporte de recicláveis, também serve de abrigo, sob o qual o recolhedor de materiais usados passa as noites ao lado do seu inseparável e fiel cão, Bacana, assim por ele chamado. Há quem se deite numa cama macia, se cubra com um cobertor feito de pele de alpaca e se sinta literalmente no relento.

Longe de ser muito bonito ou Grã-fino, o cachorro já provou que é um bom companheiro e excelente farejador de latas vazias, dando a sua valiosa contribuição para a limpeza da cidade, por isso, conquistou o direito de receber a metade de um salgado frio ou do resto de um prato de comida, deixado sobre a mesa por alguém que segue à risca as boas regras de etiqueta, seja qual for o nível do restaurante – se a regra fosse a obrigação de dividir o pão com um miserável, certamente comeria até o último grão. O apanhador de “lixo produzido pela sociedade do capital” já tentou dar toda a sua ração para o Bacana, quando este lhe mostra o caminho de casa, mas o danado se nega a comer antes do dono – senta e espera.

O catador de papéis, nem de longe, tem a idéia da importância do seu trabalho, do desempenho do ofício, bem como da função social que ele representa. Entretanto, a necessidade desperta o senso de obrigação, mesmo que a atividade seja exercida mecanicamente dentro de condições sub-humanas. Todavia, contar com a sorte ou com a indulgência do comércio e da população, ele espera. Só lhe resta rezar para que ambos, mercado e gente, continuem com a prática de sujar o meio ambiente – e que vivam permanentemente na sujeira. Tanto ele, quanto o Bacana, sim, os dois, têm que se manter no seu devido lugar, porque assim querem os membros sociologicamente corretos, que se nutrem da submissão dos mais fracos e necessitados. O dia de ontem foi igual ao dia de anteontem, o hoje prenuncia ser uma mera repetição e o amanhã será uma cópia de tudo que passou. Nada muda. O catador de papéis murmurava:

Eu juro que nesses últimos vinte anos, não tive ainda a oportunidade de experimentar novas rotinas, diferentes entre si, só a indiferença das pessoas.

As orelhas do Bacana permaneciam em pé; ouvia aquele desabafo em silêncio, manifestando respeito; fixava os seus olhos esbugalhados no perfil do seu dono, como se, na verdade, também quisesse falar alguma coisa. E aquele homem continuou:

Se aparecesse alguém na minha frente com uma arma na mão, apontando-a bem na direção do meu peito, eu imploraria para que apertasse o gatilho, sem piedade. Não tenho mais nada a perder. Perdi tudo na vida – família, amigos, dignidade. Não sei como resgatar a honradez na condição de um pobre ser humano reduzido a farrapos.

O catador de papéis chorou!

Qual seria a reação duma pessoa, considerada normal pela maioria comum, ao ouvir uma declaração como esta? Difícil de responder, com certeza. No entanto, na frente desse pobre infeliz vejo-me – alguma coisa, além disso, ele pretendia dizer, pressinto. Ouçamos outras vozes, se possível for. Esta é mais uma história verídica, entre milhares, que a gente garimpa nas ruas; a maioria delas passa despercebidamente; cenas chocantes não nos comovem porque não há tempo para sentirmos emoções deste tipo – futilidades e banalidades estão priorizadas no nosso cardápio; consumi-las tem mais importância. De alguma forma, todos, estamos sendo colocados à prova, testados ou provavelmente resguardados momentaneamente para o julgamento no tribunal da consciência, num determinado momento.

O quê fazer, então, por esse homem? Pagar um preço melhor pelo quilo da sucata? Valorizar o seu trabalho, enfim, dar-lhe um pouquinho de atenção? Quem sabe dentro dos nossos dois metros cúbicos de capacidade de armazenamento cerebral encontremos as devidas respostas.

Quem não teve escolha foi ele; opções faltaram-lhe. Às vezes a gente é empurrado a fazer determinadas coisas das quais não gostamos. O nosso amigo catador de papéis não está nem aí para saber que tudo aquilo que ele busca, procura, colhe, pega por toda a cidade será reciclado, reaproveitado pela indústria do capital – materiais usados, sobras do consumo, substâncias feitas de matérias fibrosas, metálicas ou plásticas, etc.

A sua verdadeira virtude está em não saber. Eu acho até que no seu íntimo, ele gostaria de ser “catador de esperança”, esperança esta que pode se transformar de uma hora pra outra em pedras ou metais preciosos. A infelicidade é substantiva.

Infelizmente, na condição primeira, ele permanecerá por muito tempo ainda. Aquela caixa de papelão que um dia serviu para acondicionar uma televisão, e que hoje ele usa como colchão, certamente será trocada por outra quando for molhada pela água da chuva. Ele continuará acordando sobressaltado no meio da noite, com medo de ser queimado vivo pelos jovens marginais da alta classe. Ele persistirá pedindo um lençol rasgado, ou um velho cobertor, pra se proteger do frio. Ele acordará, sabendo que não tomará o café da manhã numa mesa – os seus olhos correrão pelas calçadas até encontrar uma sacola com restos de hambúrguer do McDonald’s, jogada por alguém que passou de carro, e fará o seu desjejum sentado no meio-fio. Descalço, ao lado do Bacana, ele caminhará pelas ruas da cidade, a qual ele chama carinhosamente de “minha catedral do sonho”. À noite, ele preferirá contemplar as estrelas do céu a olhar dentro dos olhos das pessoas que passam, socialmente perfeitas, porque, há muito, já perderam o seu brilho.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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