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Crônicas Aforísticas

15ª Crônica

Atravessei este primeiro decêndio de agosto como todos os outros mortais, ou melhor, como a maioria dos brasileiros. Não consegui fazer as duas principais refeições do dia. Garanto que não foi por falta e tampouco economia de ração. Muito pelo contrário. É comum, quando trabalho, colocar um pedaço de carne que sobrou do jantar dentro de um pão dormido – um ovo também cai bem e, na ausência da carne ou do ovo, uma das duas latas de sardinhas (sem a lata) que a empregada esquece no fundo da despensa – só para enganar o estômago. Quem não pode enganar o estômago é o meu pobre irmão trabalhador braçal. Essa história de fome ainda vai dar muito pano pra manga no nosso Brasil varonil. Podem apostar. O pior, é que a fome passa, mas volta, e não larga a necessidade física – a desgraça não sai do lugar; pacientemente, aguarda a próxima vítima.

Pensando nessa possibilidade, com a permissão do “Conde de Sandwich”, vou patentear o seu invento junto com meu sócio japonês, Takufomi, e cadastrá-lo em Brasília para participar do cardápio dos presidenciáveis, já antevendo o futuro. Está na moda patentear o que é propriedade dos outros, assim como explorar o tema combate à fome dos eleitores (vai virar jargão do candidato barbudo). Dentro da minha casa reservo a prerrogativa de não pagar os direitos autorais para nenhum lorde ou nobre e esse tal de royalties. Aportuguesando o termo, o nome sanduíche fica melhor. Vamos logo parar de frescura e adotar “sanduba” porque cai muito melhor ainda com o padrão da classe média brasileira, mais pra lá do que pra cá.

Escritor quando começa a escrever não quer parar. Parece que tem uma comichão nas mãos, nos dedos, no cérebro, enfim, no corpo todo. Hoje mesmo, antes de sentar ao computador, providenciei o cozimento de algumas salsichas de cachorro quente de boa marca, porque assim a propaganda me convenceu. Hot Dog é pra veado. As putas das salsichas cresceram tanto que entornou quase todo o molho, sujando o fogão da patroa que, ao sentir o cheiro de queimado, me deu um esporro danado. Permaneceu no sofá fazendo o seu crochê, e simplesmente mandou eu me virar. É por isso que escritor não come; só escreve e faz amor.

Para tudo existe uma explicação. Meus horários estão todos embaralhados desde que comecei a escrever. Fui obrigado a mudar de hábitos radicalmente. Deixo o sexo fora desse comentário porque pra mim sexo não é hábito, é religião; portanto, sigo à risca como qualquer devoto. Eu, um cinquentão, não dou a mínima para a quantidade de trepadas. Qualidade é fundamental – é isso que está faltando na praça; salsicha de qualidade. Também não sou galo.

Outro problema que tive de enfrentar foi quanto à adaptação ao computador do meu filho Thiago, um micro Atlon 1.1 GHz. Na verdade, estava acostumado com um Note Book marca Toshiba de última geração, pertencente à empresa, porém, tive que devolvê-lo quando fui demitido – ninguém gosta de admitir que um dia foi demitido de alguma empresa –, porque a direção entendeu que estava velho demais para ficar ocupando a moita e caro o bastante para justificar a substituição por um jovem despreparado e barato. Senti só a falta do Note Book; usava-o exclusivamente, ao passo que o micro doméstico tenho que dividi-lo com mais duas pessoas. Posso me considerar um usuário dentro da média aceitável. Qual? Bem, não sou catador de milho e julgo o Windows XP uma maravilha, até o sistema travar e, quando isto acontece a cada dez minutos, passa a se chamar Windows “FDP”. Não manjo muito de configurações, mas o pouco que domino de informática não me deixa passar vergonha no meio da galera. Nunca mandei material pornográfico usando o correio eletrônico da empresa, na qual fui estuprado intelectualmente – só recebia “entradas francas”, como vítima passiva.

No decorrer de doze dias produzi quatro matérias. Acho que para quem está esquentando as turbinas foi razoável o desempenho. Dá uma tremenda vontade de sair mostrando os escritos para os outros na tentativa de colher opiniões.  A gente parece um menino querendo mostrar para os colegas o brinquedo novo que ganhou de presente. Quem nunca teve esta sensação que se manifeste. Porém, não é sempre que podemos agir dessa maneira. Minha patroa largou do crochê e puxou as minhas orelhas, dando prova de gozar de um juízo quase perfeito; pelo menos melhor do que o meu. “Pega leve”, “segura a onda”, “baixa a bola”, dizia ela. Enfim, ela queria que eu comesse o mingau quente pelas beiradas. Inveja seca pimenteira, segundo minha avó e a dela também. A minha companheira capixaba pensa longe.

Especialistas dizem que a comunidade literária está bem mais repartida nos últimos tempos.

Os clãs de escritores estão espalhados por todos os centros culturais do planeta. Talvez não se proliferem assim como o crescimento geométrico, matemático, enfim, aritmético da própria humanidade, devido à falta de incentivos permanentes ao processo de produção cultural.

O talento é inato; nasce com o indivíduo. Afirmam os estudiosos do comportamento humano. Ele vai além do dom natural; da qualidade inata de inteligência; do engenho; da capacidade. O talento é absorvente, é transformador, e transformista ao mesmo tempo, e, sobretudo, difuso. Quem acha que o tem, se prepare para se submeter a constantes provas de avaliação. Todo o escritor sabe que não há vacinas contra críticas. Quanto a mim, já tomei alguns cuidados: manter a humildade, aprender sempre e nunca parar de escrever.

Vou continuar abordando assuntos dos mais variados possíveis. Não vou me ater tão somente à criação da fantasia, aos fatos imaginários – muito embora tenho consciência que escrever sobre generalidades passa ser a tônica, com pitadas de lirismo, abstração, ilusão, fantasia e irreverência; tudo isso ajuda a temperar os textos, sobremaneira –, paralelamente, com a mão esquerda, desenvolverei também enredos políticos, econômicos, religiosos, ideológicos ou sociais. Ser um escriba ou um escrevinhador, jamais me passou pela cabeça. Portanto, peço permissão pra tentar.

Não há limites definidos para uma crônica ou para um conto. Na relação tempo e espaço uma simples palavra pode representar a plenitude da compreensão. Há também quem acredite na complexidade em resumir uma idéia – outros não. Seja qual for o procedimento adotado, a elasticidade da memória e os dons polivalentes do pensamento criativo, não possam, e não devam ser contrariados, ainda que pretextos não faltem.

Começar a escrever não é tarefa difícil; difícil, é parar de escrever.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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