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Educação

Uma questão de Educação

Uma questão de Educação

Todo dia é dia de se comemorar alguma coisa. Se bem que ultimamente as pessoas não estão fazendo questão de trazer à memória datas e fatos que as levem celebrá-los, como nos velhos tempos, com o espírito patriótico e arrepio na pele. O dia 28 de abril passou como qualquer outro do calendário. Não em brancas nuvens, porque piadas fizeram parte do cardápio de lembranças. As sogras, comemoradas nesse dia, roubaram, no bom sentido, a cena. Uma cena, apenas comum, entre tantas, encenadas no teatro da vida. Meu filho Rodrigo fez aniversário neste dia, e eu o abençoei.

Discreta, quase que nenhuma, a saudação dedicada ao “Dia da Educação”, naquele dia 28 de abril. Talvez estejamos dando muita importância ao assunto, na medida em que outros temas mais palpitantes como violência urbana, aumento dos índices de criminalidade, tráfico de drogas, Elias Maluco, Fernandinho Beira-Mar, corrupção nas polícias, FMI e o fatídico empréstimo de US$ 30 bilhões ao Brasil, escândalos financeiros, pobreza versus miséria, eleições 2002, crises políticas, processos de cassação de políticos corruptos e não corruptos, sexo e impotência, casamento de Gays, viagens interplanetárias (tem lugar para mais um milionário), enfim, tudo isto aí ocupou a mídia comercial e deixou pouco espaço para que se falasse, pelo menos jornalisticamente, como matéria de livre vontade, sobre o tema Educação. Contando o tempo, falta menos de um ano para o próximo 28 de abril. Quem sabe a ordem de prioridades mude e os atores principais entrem no palco no segundo ato.

Meu pai um dia me falou que “O Brasil está carente de ídolos e de heróis”. E continua. No passado, isso eu me lembro muito bem, reverenciávamos os personagens das revistinhas em quadrinhos – não havia deturpação das mentes; até porque o processo educacional da época era sólido. As nossas crianças e jovens não têm muito em quem se espelhar, mas precisam de valores referenciais para a formação dos seus padrões culturais, cada vez mais imperativos com a globalização, tão difícil de entender o seu significado. A figura dos pais aparece neste contexto para suprir a lacuna existente; muito embora saibamos que fica difícil competir, de igual pra igual, com a televisão, com o computador (Internet, Intranet e demais contatos de 5º grau), com o vídeo game e, sobretudo, com a rua, local onde os “pais marginalizados” estão ávidos para adotar os nossos filhos.

Meus avós me ensinaram a respeitar os meus pais e vice-versa. A educação, e seus processos, não se restringem tão somente aos bancos das escolas institucionalizadas. O seu campo de grandeza não tem limites, não obstante, tem um começo: na própria casa, no seio da família – primeiro educandário, onde o desenvolvimento integral e harmônico de todas as faculdades humanas acontece (capacidades físicas, intelectuais e morais). É tarefa obrigatória dos pais promoverem no educando (filho) a verdadeira missão de educar, na essência da palavra. Portanto, o exercício deste papel é fundamentalmente indispensável nos grupos de convívio. A responsabilidade não é delegável.

A carga excessiva de “informações mecânicas”, exigência deste terceiro milênio, tem contribuído para que os ouvidos dos nossos filhos fiquem cada vez mais seletivos, criando condicionamentos robotizados. Na maioria dos casos, por falta de experiência no assunto, os pais estão transferindo para a escola a responsabilidade primeira pela educação dos seus filhos, muito embora admitamos que a participação direta dos professores no processo de “complementação” da formação moral dos alunos é plenamente factível, desde que haja ambiência. Também, num processo inconsciente, esses mesmos pais não compreendem que é obrigação número um da escola a tarefa de ensinar, ou seja, transmitir conhecimentos; instruir; ministrar o ensino em consonância com o currículo ministerial. O álibi vai ser sempre o mesmo: falta de tempo. Porém, pesquisas mostram que a realidade é bem diferente daquela que se pressupõe. Os pais de hoje estão dando menos atenção aos seus filhos.

Um perigo à vista: a qualidade do ensino formal não é o bastante para parametrizar personalidades. Ainda mais associada às mensagens subliminares decorrentes da indústria cultural manifestada através de várias fontes eletrônicas. A mídia desempenha uma função de realce na sociedade moderna no que tange, sobretudo, ao seu poder de influenciar juízos de valores. O magnetismo de que é dotada a indústria da informação carece de melhor interpretação por parte dos receptores. As variáveis empregadas pelos processos de comunicação que privilegiam e estimulam o consumismo exacerbado, que cultuam o materialismo, que despertam atitudes desagregantes, precisam ser reavaliadas o quanto antes.

A despeito da seletividade auditiva, um grito de vez em quando e uma cobrança mais contundente fazem bem para a educação dos nossos filhos. Pé de galinha não mata pinto. A bem da verdade, o ser humano, por origem, precisa ter a sensação de ser importante para alguém; aquela tal estória de “eu existo”. Eles, os nossos filhos, precisam de uma voz de comando e de acompanhamento constante. Demonstração só de amor não basta. Até porque, a nossa casa, espaço familiar sagrado, não deve ser bombardeada por programas sem fundamento educacional e embasamento pedagógico. Mensagens carregadas excessivamente de ações brutais, onde a violência se destaca, cenas de sexualidade desenfreada, e, sobretudo, com o uso indevido da língua portuguesa, acarretam desvios de comportamento ao longo do tempo em que são decodificadas.

A família, portanto, continua sendo o fórum adequado para a discussão de determinadas matérias, sem a interferência das ondas externas de comunicação, num processo interativo, numa mesa redonda. Há quanto tempo toda uma família não se senta para jantar, sem ausências? A dinâmica de grupo deve ser exercitada entre os seus membros e o diálogo entre todos estimulado. Não raras são as crises de ansiedade movidas pela “solidão da multidão” e o “gelo do concreto”. Que o absolutismo da ausência das palavras fraternas não vire epidemia, sob pena da educação se tornar um processo fragilíssimo e perecer aos pés da mediocridade cultural que vem cercando a atual geração. Vide o exemplo na música.

Os nossos poderes, politicamente constituídos, certamente já estão pensando em alternativas que minimizem os impactos da “dominação cultural”, mola propulsora do mercado de consumo imediato, máquina de fazer dinheiro, cabeças em completa metamorfose construindo verdadeiras massas de manobra. Não existem fórmulas mágicas para a mudança do cenário. Cada qual tem que fazer a sua parte. A escola, por si só, não educa o suficiente, dentro daquilo que os pais esperam. Educar e ensinar são tarefas diferentes. Os pais devem reagir a estímulos e colocar de lado a displicência no acompanhamento dos seus filhos. O contato sensorial com eles é indispensável na formação do seu caráter e da sua dignidade, enfim, na preparação do cidadão. Fica para todos nós uma lição. E que o aprendizado seja rápido. A nova ordem política se esforça para acabar com as desigualdades raciais no processo educacional. O direito de acesso às escolas, em especial as de terceiro grau, não pode ficar restrito a determinadas camadas sociais, mas que esta prerrogativa seja natural e democrática.

O ensino, antes de tudo, é um direito constitucional de todos, assim como a educação recebida dos pais, assim como o exercício da religião, o direito a um prato de comida e uma roupa para cobrir o corpo do frio. As elites culturais deste país, cada vez mais concentradas – porque estão intimamente ligadas ao poder do capital – devem buscar a consciência plena para que, através de um ensino não excludente e de uma educação adequada, nós, filhos desta terra, deixemos de exercer a cidadania passiva e tenhamos orgulho do futuro. Quero continuar abençoando o meu filho Rodrigo nos próximos 28 de abril, porque, uma vez educado no berço de sua família e ter recebido os ensinamentos condignos nas instituições apropriadas, abrirá caminho para o crescimento da nação, mas, como cidadão preparado e livre.

Sou capaz de lembrar o nome da minha primeira professora, a que me alfabetizou no antigo Jardim de Infância: chamava-se Adília – pronunciava com dificuldade “Adilha”. Também pudera, tinha eu cinco ou seis anos. Uma senhora de uns trinta e poucos anos, gorda, austera, com buço. Dona Adília tinha muita penugem no lábio superior, indicando um começo de bigode. Aquilo me assustava mais do que a usual palmatória, as ameaças de castigo (ir pro quarto escuro, ficar de joelhos no milho, permanecer de cara virada para a parede, copiar cem vezes uma frase qualquer, enfim…). Tinha pesadelos diários com ela. Achava até que ela era de outro mundo. Estou falando do ano de 1955. Se hoje tenho uma caligrafia boa, devo isso a ela. O Jardim de Infância funcionava na mesma rua onde morava – Major Conrado, Cordovil, RJ. Essa casa fantasmagórica era também residência da Dona Adília e sua família. Todos morreram, mas a casa permanece lá, caindo aos pedaços. De vez em quando apareciam alguns fantasmas nas salas de aula – não faziam mal a ninguém; só cobravam notas boas.

Tenho muitas lembranças dos cursos Primário e Ginasial; o que hoje é considerado o Ensino Fundamental. Entre outras tantas matérias, estudava Latim, Canto Orfeônico, Francês, Inglês, Desenho Artístico e Geométrico, Estudos Sociais. A Educação Física, além de matar, era obrigatória e reprovava. Gildete Fiorani, Djara Garrido Salgado e Lúcia Cardoso Ávila foram minhas professoras nos quatro anos de Primário. Deixo de escrever os nomes dos mestres do curso Ginasial porque passam de vinte. Todos, indistintamente, sabiam ministrar as aulas e, sobretudo, cobrar desempenho, aplicação, aprendizado. Nada de moleza. Base educacional sólida, futuro promissor. Devo muito a eles, pelo que fui e por aquilo que eu sou.

Hoje, o que se vê é quase toda uma geração não querendo nada com a hora do Brasil, porque não há acompanhamento, a cobrança inexiste, o respeito perdeu totalmente o sentido. O futuro se desenha preocupante; não há compromisso absolutamente com nada; bons exemplos sendo jogados no lixo como se descarta uma embalagem vazia. O processo cultural está do avesso – fala-se no resgate de dívidas passadas com os excluídos, ao tempo em que o sistema deteriora importantes valores.

O tempo passa e com ele caminhamos todos juntos, cada um pro seu lado. O ano de 2003 foi igual ao de 2002; o ano de 2004 foi igual ao de 2003… O ano de 2012 será igual ao de 2011. Nada, absolutamente nada, muda; continuamos reféns do sistema de dominação. Em coro: “Pra frente Brasil, Brasil, salve a Seleção…”. Futebol tem mais importância! Educação está no banco de reserva.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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