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Crônicas Aforísticas

8ª Crônica

Meu filho. Há um mês, quando a Ubiracina, funcionária da Caixa Econômica Federal, me telefonou para dar a notícia da liberação do empréstimo, com o qual compraria a sua passagem para a Itália, forte emoção começou a tomar conta de mim. Este dia foi 03 de setembro de 2003 – caiu numa quarta-feira.

Marcamos para depois do almoço a assinatura do contrato de empréstimo especial na agência de Itapoã, aqui em Vila Velha. Dentro do ônibus, comecei a sentir um nó na garganta, um aperto no peito, e me deu uma vontade incontrolável de chorar. Não é só de tristeza que se chora; de alegria também. Não tenho nenhuma vergonha de chorar. No entanto, tentei disfarçar porque temia que alguém me visse naquele estado emotivo, sem que soubesse o motivo. Já naquele instante, os meus olhos impossibilitados estavam de distinguir as imagens, em face de pouca nitidez causada pelo acúmulo das lágrimas nos cantos dos olhos. Antes mesmo de receber o dinheiro do empréstimo, e de comprar a passagem, já estava amargando a dor da sua partida, antecipadamente ao fato consumado.

Engraçados os pensamentos que tomam conta da nossa cabeça. Certa vez eu vi num filme infantil um pequeno pássaro que, seduzido pela natureza, alçava o seu primeiro vôo. Somente a liberdade de conquistar os céus – o verdadeiro direito de decidir e agir segundo a sua própria vontade – o fez sair do ninho. Aquele pequeno e frágil pássaro, valendo-se da sua condição de livre, se distanciava cada vez mais daquele que um dia foi seu lugar de nascimento e abrigo, mas ele não se importava porque o seu instinto a qualquer momento podia trazê-lo de volta. Ele voou por muito tempo, sem destino determinado, apenas seguia em frente. Ao longo do caminho se juntou a uma revoada e decidiu acompanhar aquele bando de aves, com as quais permaneceu boa parte da sua vida. Um dia percebeu que estava adulto. Resolveu então voar voltando ao ponto de partida. Encontrou o seu antigo ninho ocupado por outros pequeninos pássaros. Nenhum vestígio do seu passado resistira ao tempo. Fortalecido pela experiência adquirida naquela primeira aventura, não teve receio de migrar novamente.

Para um pai, os seus maiores ídolos passam a ser os filhos depois que nascem. Nossa vida passa a ser a vida deles e nada, absolutamente nada, substitui isto. Não há como, nem porquê. Cumprindo responsavelmente o papel de pai, ajudei você, meu filho, a fazer a escolha, mesmo sabendo que seria uma decisão difícil, acredite. Nunca nos separamos dessa forma. Ficaremos por algum tempo separados pelo Atlântico, apenas fisicamente. Não existe distância que consiga desunir as nossas mentes e os nossos corações; estes permanecerão mais ligados do que nunca. O desafio é grande e a conquista muito maior.

De certa forma a gente fica um pouco fragilizado. Como fuga, buscamos na leitura um tipo de consolo. Revirei alguns escritos e encontrei este pensamento de Baha’i: “No mundo da existência não há maior poder do que o poder do amor”. Por sua vez, Pascal tinha como idéia: “Nada é tão insuportável ao homem como uma situação sem tarefas, sem objetivo”. Por isso, meu filho, eu peço a você para não desistir, para não recuar, para não se intimidar – nunca. Aquelas pessoas que voltam atrás na metade de um caminho já percorrido, se arrependem, ficam se cobrando o tempo todo e mergulham num processo de conflito interior. O mundo dos fortes contrasta com o dos fracos e oprimidos, estabelecendo entre eles uma grande diferença. Faça de tudo para valer a pena o seu sacrifício empenhado e procure sempre acreditar no “ser possível”, no seu potencial; isto, sem dúvida, motiva o crescimento do indivíduo, não só como profissional, mas, essencialmente, como pessoa. Só os bons de espírito conseguem sobreviver.

Lembro que num desses dias você me perguntou se compensaria trabalhar na Europa e eu lhe respondi, e continuo afirmando, que só vai depender única e exclusivamente de você. Esta é uma questão de chance – todos os jovens da sua idade queriam tê-la. A ocasião é favorável, portanto, agarre-a e não a desperdice. Faça por onde merecer. É aquilo que eu lhe digo, procure evoluir, busque aprender, ainda que com os seus erros, e não deixe de tomar as pílulas de motivação que eu lhe receitei – uma diariamente antes do café da manhã. Já ia me esquecendo: “pare de fumar e durma de lado para diminuir a intensidade do seu ronco, tão maravilhosamente dantesco que poderá ser tombado pelo patrimônio histórico italiano”.

Dentro de cada um de nós estão a competência, a aptidão e o talento para a superação dos problemas, para passar por cima dos descrentes e invejosos, para transpor barreiras, para ultrapassar limites, para vencer desafios, para dominar o medo, enfim, para sobrepujar as nossas dúvidas. Fé, otimismo, determinação, espírito combativo, lealdade e companheirismo são outros componentes do sucesso. Uma boa dose de sorte é importante, mas não é tudo. Saiba que o trabalho honesto – independente da atividade desempenhada –, aliado à garra e perseverança, adianta sobremaneira a realização dos sonhos.

Rodrigão, você reúne todas as condições necessárias para ser um grande vencedor, um campeão de verdade. Você é um bom garoto, de alma pura, de mente sã. Eu e a sua mãe, com as nossas limitações, procuramos transmitir a você o que de melhor tínhamos a oferecer – é claro que o seu irmão Thiago, embora oito anos mais novo, também dava a sua colaboração no seu aprendizado, notadamente como conselheiro. Acho que preparamos você para a vida, lhe demos educação e relativa formação cultural; daí a base da sua destacada inteligência. Faça uso dela. Confiamos em você. Ninguém caminha sozinho. Precisamos uns dos outros. Fazemos parte deste mundo maravilhoso – somos peça integrante. O respeito aos semelhantes e às suas diferenças é uma saudação à vida.

Filho, procure carregar na bagagem somente as boas lembranças. Quando bater a saudade, inevitável, é só telefonar – se trocarmos o número comunicaremos a você. Da mesma forma se houver mudança de endereço. Cumpra a sua missão e atenda ao clamor do seu destino que se desenha promissor, sabendo que esperamos você de braços abertos a qualquer tempo. Vá ver qual é. Chegue à Itália como turista (a sua passagem de volta ao Brasil está marcada para o dia 30 de dezembro, lembrando que o horário de embarque mudou para as vinte horas, não mais às 20h40min). Analise bem a situação, pese os prós e os contras, faça uma avaliação consciente e decida racionalmente. Não se esqueça do que conversamos: “Em terra de estranhos, primeiro você passeia com os homens para depois passear com as mulheres”.

O tempo é implacável. A contagem regressiva está prestes a cessar. Conforme prometi, vou arrumar a sua mala, aproveitando a minha experiência de trinta anos entre aeroportos e estradas. Dentro dela estou colocando esta mensagem. Uma mensagem escrita com meu corpo e com a minha alma. Talvez não contemple tudo que gostaria de dizer, mas resume, qualitativamente, os meus sentimentos.

A algumas horas da sua partida, gostaria de fazer tudo aquilo que não fizemos nesses últimos tempos, como pescar, jogar bola, torcer mais pelo nosso Vasco, beber uns copos de chope, discutir sobre política e religião, brigar sobre nossas preferências sexuais, enfim, fazer qualquer coisa que sirva para confirmar o quanto nos amamos. Sei que não será possível. Também sei como me arrependo por ter passado a minha vida toda adiando tudo isso, privando-me da sua companhia – simples ações que valem tanto. Peço a Deus que me permita recuperar os momentos não vividos com você, que cresceu sob os meus olhos e eu não vi.

Se você não dosar os pensamentos emocionais a respeito das pessoas que ficaram no Brasil, certamente terá problemas para se adaptar e, sobretudo, faltar-lhe-á ânimo para ir à busca dos seus objetivos. Todavia, se você quiser uma boa dose de estímulo para conseguir o que tanto deseja na Itália, o mais rápido possível, procure se lembrar das inúmeras vezes que fecharam as portas pra você, da imensa quantidade de vezes que você ouviu a palavra “NÃO” – até de parentes mais próximos – e das promessas não cumpridas por eles e pelas empresas sempre que você se lançava à procura de emprego no Brasil. Pense nisso.

Deixar pra trás eventuais frustrações é sábio – fica mais fácil construir o futuro dessa maneira. Caminhos não há sem pedras e espinhos. Somente os inteligentes conseguem transformar cenários negativos em positivos e totalmente favoráveis a eles. Diante das agruras e adversidades da vida, perante a falta de horizonte e oportunidades, o homem deve mostrar a sua plena capacidade de reação visando preservar a autoestima, o seu amor próprio e, sobretudo, para que não perca jamais a sua dignidade.

O seu irmão perde, momentaneamente, um companheiro, um confidente, um parceiro de computador. Eu prometo que vou tentar junto a ele preencher o vazio causado pela sua ausência. O seu irmão Thiago vai se juntar a nós e torcer pelo seu sucesso e por sua felicidade. O Thiago tem dito que “… a minha casa é o meu corpo”. Sinceramente, eu acho que ele tem toda a razão. Com respeito, neste momento, tomo para mim as palavras de Santo Agostinho: “Sem te desviar, sem voltar atrás, sem marcar passos, canta e caminha”. Eu, sua mãe e o seu irmão sentiremos muito a sua falta, sobretudo das suas rabugices. Não que você seja impertinente, mas pelo seu aparente mal-humor. As pessoas têm diferentes maneiras de externar os seus sentimentos – ainda que reprimidos – e você tem a sua forma especial de fazê-lo, que só nós que convivemos com você todos esses anos conhecemos. Amamos muito todos os seus defeitos e veneramos as suas qualidades.

Vou continuar por aqui, do mesmo jeito, fazendo as mesmas coisas. Não abrirei mão de um sonho antigo: um dia morar numa colônia de nudismo – o conceito de pudor para mim é “andar nu” (os nossos vizinhos daqui de Coqueiral de Itaparica já se acostumaram a me ver pelado andando pelo apartamento). Não posso afirmar a você que deixarei o meu cabelo crescer, como todo cidadão irreverente, porque ele já está me incomodando bastante e o verão está chegando depressa. Tomarei conta da mangueira que você fez nascer – daqui a pouco ela vai florir. Quanto a muda de abacateiro, cuidarei bem dela e será replantada no jardim do condomínio conforme sua orientação. Assim que o meu livro sair do prelo, faço uma dedicatória e mando um exemplar pra você dar boas risadas com temas sérios ou se emocionar com assuntos banais.

Filho, perdão por não tê-lo deixado ir a mais tempo. Os pais são mesmo egoístas, não percebem que o seu inconsciente poder de dominação e o exagerado sentimento de proteção são prejudiciais para a formação e o crescimento dos seus filhos. Em nome desse egoísmo, os pais – e você pode ter a certeza que é a maioria deles – impedem os seus filhos de seguirem o seu próprio caminho, porque querem tê-los eternamente ao seu lado, e não se dão conta que um dia terão de deixá-los sozinhos pela força maior da separação causada pela morte ou por outra situação inesperada. Coube ao destino cortar o segundo cordão umbilical.

A visão dos nossos rostos, no momento da despedida no aeroporto de Vitória, não deve ser guardada por você como se fosse a última. Ela é, simplesmente, a primeira de uma série delas. Amanhã, acontecerá a mesma coisa com seu filho. Guarde esta mensagem para ele.

Filho, um dia, você me fez um pedido: “Pai, vê se você não morre enquanto eu não voltar!”.

Rodrigo, eu prometo a você que não morrerei. Que Deus o abençoe.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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