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Crônicas Aforísticas

7ª Crônica

Pequena, porém, contundente. Foi deste modo que qualifiquei a matéria intitulada “Jogue fora suas batatas!”, lida, relida, e extraída do alternativo “Metamorfose”, órgão de divulgação do Centro de Desenvolvimento Integral Metamorfose, em Alto Goipaba-Açú, no município de Santa Teresa, Espírito Santo.

Um dia desses entrei numa loja de artigos exotéricos com o propósito de comprar incenso – eu gosto muito do cheiro da queima de resinas aromáticas tiradas de plantas –, e me topei com aquele jornaleco jogado numa prateleira. Comprei o incenso e pedi de brinde o jornal julgado sem importância, apenas ajuizado sem valor. Não devemos desprezar a leitura – não importa o nome do autor ou o conteúdo do texto, porque a gente sempre sai ganhando alguma coisa. Foi assim que aconteceu.

Jogue fora suas batatas!

O professor pediu aos alunos que levassem uma bolsa cheia de batatas para a sala de aula em determinado dia. Em cada uma delas, ele pediu que fosse escrito o nome das pessoas de quem não gostassem, que lhes magoaram ou fizeram sofrer em algum momento da vida. Eles começaram a pensar e foram lembrando uma a uma. As bolsas ficaram pesadas, com muitas batatas. Como os alunos tinham que carregar a sacola para todos os lugares, algumas batatas acabaram amassando, ficando pastosas, estragando e ficando com mau cheiro.

Ao colocar toda a sua atenção na bolsa, os alunos deixavam de observar outras coisas que estavam à sua volta, inclusive a aula. O objetivo da atividade era mostrar o peso espiritual diário que a mágoa ocasiona. Ao se incomodar com os outros, a pessoa acaba se esquecendo de si mesma, de sua própria história, de sua própria vida, e sofre. Pense nisso e jogue fora as suas batatas!

“Quem bate esquece; quem apanha, nunca…” Justapor esta máxima na prática de vida é absolutamente aceitável. As duas pontas da ação, de um lado o agressor e do outro o agredido, estabelecem comportamentos díspares, cada qual a seu modo, segundo a gama de valores por eles acumulados. Os seres humanos – sensíveis por natureza – são movidos por sentimentos, emoções, por qualidades morais e estímulos dos mais variados, portanto, são suscetíveis na capacidade de receber impressões externas. A rigor, normas de conduta geralmente são aceitas desde que não firam a integridade do próximo. Para os homens, o instinto é a mãe da razão – e em nome da racionalidade adotam por preceito, por doutrina, outra máxima: Cada ação corresponde a uma reação inversamente proporcional. Esta reação geralmente vem acompanhada de maior intensidade, por vezes fatal.

Temos a faculdade de armazenar no subconsciente experiências boas e ruins, processadas no decurso da vida, mas, só as más afloram facilmente à consciência quando temos que julgar alguém – nesta hora, palavras que exprimem contemporização não têm ressonância, independente dos credos seguidos. O vitimado Luther King disse: “Não permita que nenhum homem o faça tão baixo a ponto de sentir ódio”. Chagas na carne levam algum tempo para sua completa cicatrização, uma vez provocadas na alma, dificilmente se curam. Apagar da memória as injustiças sofridas; fazer desaparecer as injúrias, os insultos, os agravos e ofensas recebidas; extinguir os sofrimentos causados por atos de covardia; obscurecer as dores provocadas por agressões e violência imposta; deslustrar as humilhações vividas; limpar os momentos de angústia, aflição, agonia, medo, apreensão, pavor; enfim, eliminar as ações de opressão, são atos com um ônus muito pesado. Passar simplesmente por cima de tudo isso também não é tarefa das mais fáceis, tampouco tentar esquecer, ainda que queiramos nos enganar.

Segundo a afirmativa de Camilo Castelo Branco, “Há momentos na vida em que a mais leve contrariedade toma as proporções de uma catástrofe”. Como aditivo, afirmo que palavras mal proferidas ferem mais do que punhais e quando doces demais soam como poemas ao vento. Errar é humano, perdoar é divino. Tem gente que persiste no erro não por simples ignorância, mas por maldade premeditada, e ainda surge à frente da sua vítima com asas de anjo e recomendando bons conselhos. Fazer o bem sem olhar a quem, cedendo lugar a fazer o mal seja a quem for. Pessoas há que juram por Deus que não vão mais cometer nada de errado contra seus semelhantes, contudo, quando saem da posição de joelhos, fazem tudo de novo, na certeza de sempre serem perdoadas por alguém – o perdão, concedido aleatoriamente, alimenta a hipocrisia. Homens convivendo com homens, compartilhando uma realidade imutável: somos todos pobres mortais pecadores; por tolerância assistida.

Relacionar nomes de pessoas pelas quais temos e sentimos raiva, aversão instintiva, repugnância, antipatia, desafeição, desafeto, desamor, ódio, desgosto, desaprovação, desprazer; elaborar um rol de nomes de pessoas que nos causaram mágoas, desagrados, pesares, aborrecimentos; preparar uma lista com os nomes daqueles que nos fizeram sofrer intensamente, provocaram feridas na alma, que nos subjugaram a ponto da humilhação; enfim, que nos obrigaram a sentir desonra, são atividades que não exigem muito esforço da nossa parte, além da natural facilidade da colocação desses nomes em ordem alfabética, porque estão pré-gravados no nosso “HD”. Por outro lado, não podemos e não devemos negligenciar um fato importante: o revés da moeda – temos que pensar no infortúnio, no contratempo, na vicissitude do nosso nome estar presente na relação feita por outra pessoa, ainda que gratuitamente, segundo o que achamos. Jesus Cristo não agradou a todo mundo na época em que viveu na Terra. Quando a pimenta deixa de ser refresco nos olhos dos outros é momento para reflexão profunda.

Todo problema tem um lado conceitual – não dá pra fugir à regra. Seja quem for que estiver direta ou indiretamente envolvido nele, precisa refletir muito antes de perpetrar atrocidades e de praticar atos impensados (o que é comum). Toda situação carece de avaliação responsável e como saída tentar acreditar em si próprio como fonte exclusiva de superação sem perder a confiança. Espíritos malignos habitam o planeta e a todo instante estão cruzando os nossos caminhos, nos admoestando, nos perturbando, nos insuflando, nos roubando a paz. Como entender o estupro de uma filha, o assassinato de um filho, os maus tratos à nossa mulher, a tortura a um amigo, as ameaças de morte e tudo aquilo de ruim que nos é decretado? O sentimento de vingança decorre de um processo consciente – muito embora alguns não admitam –, de modo que esta ação de desforra, de retaliação, se torna a única opção no tribunal da vida. A pessoa não sossega enquanto não se sentir devidamente vingada, como nos tempos das cavernas, o que traria a sensação de alívio para o espírito do século XXI. Cada um mede o tamanho da compaixão conforme a sua conveniência – isto é real.

Jayme Torres uma vez disse: “Ressentimento é como infecção: não se guarda, porque acaba contaminando o organismo todo…”. Amargo na boca, calafrios, sensação de frio na espinha, contrações dos músculos estomacais, são os primeiros sintomas no surgimento de doenças crônicas decorrentes. A introversão não deve ser ministrada como remédio. Ficar se remoendo, ou seja, encasquetar-se com ideias fixas, com problemas aparentemente sem soluções, também não adianta de nada. Na reconquista da honra, na “lavagem da alma”, na volta da vergonha na cara, fazer justiça com as próprias mãos é um procedimento extremamente perigoso, na medida em que deixa herdeiros, em ambos os lados, na sua prática. Nesta linha de raciocínio, os homens precisam se conscientizar quanto à importância do desapego aos bens materiais e à necessidade de analisar um pouco melhor todos os expedientes por eles empregados para a sua conquista, como golpes, traições, roubos, enfim, manobras das mais diversas, em detrimento do trabalho honesto e das pessoas que o fazem assim. Talvez, dessa forma, evitem que muita desgraça aconteça e que mais batatas sejam lançadas no saco, ou melhor, na bolsa.

Sadi também estabeleceu um pensamento: “Usar de misericórdia com os maus é prejudicar os bons; perdoar os opressores é fazer mal aos oprimidos”. Depois de tudo aquilo que foi dito, esta frase soa paradoxal. Pode parecer ironia, todavia, em certos casos, é preferível trocar as batatas por pedras – a despeito do seu maior peso, não ficarão podres e, portanto, não exalarão mau cheiro – e as quais poderão ser carregadas pelo resto da vida. Mas, se formos parar pra pensar, o fardo mais pesado são as lembranças, o exame que cada um faz de si mesmo, e o maior castigo, não é suplicar perdão, e sim, sentir remorso.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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