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Crônicas Aforísticas

6ª Crônica

Esta quinta-feira foi tranquila. Tirei o dia para cuidar de assuntos igualmente amenos. Dei uma caminhada na praia de Itaparica no final da tarde – esperei o sol de outono se esconder por detrás dos prédios, já que não vejo montanhas, e voltei pra casa com o intuito de comer algo leve e me deitar cedo, sem pensar em nada que pudesse me roubar o sono, até porque tinha programado para esta sexta-feira a revisão de algumas matérias que comporão o meu livro.

O meu filho mais velho, Rodrigo, veio me dar boa-noite no quarto – também ia se recolher antes do costume. Mara e Thiago ficaram na sala assistindo televisão. Percebi que Rodrigo trouxera algo na mão e fez questão de me dizer: “Pai, concentre o espírito para meditar e refletir sobre este texto que destaquei do jornal interno que circula na faculdade, de nome Momento Psicologia, sob o título A Renovação, de autoria desconhecida”.

Este breve texto, relatado abaixo, foi responsável por me fazer mudar todos os planos – fui direto pro computador, dormi tarde e continuei meditando e refletindo sobre a mensagem proposta durante todo o dia de sexta-feira. Resolvi inseri-lo no sumário do livro.

A Renovação

A águia é a ave que possui a maior longevidade da espécie. Chega a viver 70 anos. Mas, para chegar a essa idade, aos 40 anos ela tem que tomar uma séria e difícil decisão. Aos 40 anos ela está com as unhas compridas e flexíveis e não consegue agarrar mais as suas presas, das quais se alimenta. O bico alongado e pontiagudo se curva. Apontadas contra o peito estão as asas, envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas e voar já fica difícil.

Então, a águia só tem duas alternativas: primeira, morrer; segunda, enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar 150 dias. Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e se recolher num ninho próximo a um paredão onde ela não necessite voar. Então, após encontrar esse lugar, a águia começa a bater com o bico numa parede até conseguir arrancá-lo. Após arrancá-lo, espera nascer um novo bico, com o qual vai arrancar suas unhas. Quando as novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. E, só após cinco meses, sai para o famoso vôo da renovação, para viver, então, mais 30 anos.

Tem uma idade na nossa vida que a gente acha que tudo é definitivo. Terminante é a própria vida – seu fim é irrevogável. Todo ente vivo se agarra à existência por instintividade, sendo assim, a vida, ou a maneira de viver, segue a ordem regular da eternidade aparente –, isto é verossímil; não a própria morte. Esta sede, esta vontade ardente de viver, nos conduz a procedimentos de autodefesa e preservação; a efemeridade do tempo cronológico, independente da sucessão dos acontecimentos, é a que menos importa na decisão consciente, no processo psíquico. A natureza, através do conjunto de fenômenos físicos e suas causas, se encarrega de alterar, de modificar, de transformar os seres que a formam, e ao mesmo instante, de dotá-los da suscetibilidade da mudança, por livre arbítrio.

Mudar para sobreviver significa muitas das vezes romper circunstancialmente com o passado, deixar pra trás a casca da desesperança, sem produzir sequelas atormentadoras; tem o sentido de abrir caminho no meio de trilhas desconhecidas; denota imperiosidade na quebra de obstáculos; expressa uma irresistível necessidade de se abrir mão de subjetividades, anulando qualquer ação ou efeito de submissão a valores inconstantes, irrefletidos. Ainda que o dorso se curve pelo peso dos anos que passaram, nunca é demasiadamente tarde para se tomar coragem, sobretudo quando a questão é fazer cessar, de repente, a rotina improdutiva, a repetição das mesmas coisas frustradas, dos mesmos atos improfícuos – se o preço pago por tudo isso for a espera de longos 40 anos, assim como a águia, até então vale a pena. Por conseguinte, tornar-se novo, mudar para melhor, tornar a fazer, refazer e repetir, segundo escala de avaliação pessoal, é o mesmo que se revigorar, rejuvenescer-se – isto é renovação. Juízos antecipados, sem fundamento, não passam de meras superficialidades.

Renovar transcende a simples ação de trocar objetos usados ou antigos por novos; supera o ato de modernizar o guarda-roupa; ultrapassa a maneira de radicalizar a aparência, enfim, de ser diferente em algum aspecto, ainda que só no ponto de vista. O ser renovador inicia o processo de transformação a partir do seu interior, do seu íntimo – ele precisa, acima de tudo, persuadir-se dessa necessidade e “acreditar” na real possibilidade da mudança. Os seus semelhantes, coincidentemente, podem estar pensando a mesma coisa, porém, cada qual sabe exatamente o seu timing – esse senso de oportunidade relativo à escolha do momento adequado para agir, no sentido de conseguir o resultado máximo, é o fator de distinção. Por outro lado, compreenda-se que nenhum processo de mudança acontece de graça. Tornar-se diferente do que era; passar para um novo estado de vida; converter-se noutra pessoa, são estágios que exigem abdicação voluntária, sofrimento, autoflagelo, capacidade para aguentar pressões, abandono de habitat e, sobretudo, superação das adversidades.

Aquela ave de rapina de grande porte demonstrou que tem tudo isso, todas essas qualidades, e provou que quem lutar contra a morte recebe como prêmio a continuidade da vida. De volta à natureza, a águia alçou seu renovado vôo, sabendo de antemão e por força do instinto, que durante o seu segundo tempo de vida, sem prévio conhecimento da hora exata, levantará um vôo derradeiro. Por impulso também do poder supremo, que supostamente predetermina o curso dos acontecimentos, ela voa bem alto, cada vez mais alto, até não mais avistar os animais racionais que embaixo ficaram – estes, por sua vez, considerando-se “imortais”, mesmo achando-se renováveis, continuarão os seus vôos rasteiros, até que o imponderável os pegue de surpresa.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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