>
Você está lendo...
Crônicas Aforísticas

5ª Crônica

A noite de Coqueiral de Itaparica anuncia a chegada da lua crescente. Será amanhã, dia 11. O outono apresentar-se-á daqui a dez dias e já pediu à brisa que desse alguns sinais.  Há cinco, acrescentei às cinzas do carnaval as cinzas que restaram das lembranças de desventuras trazidas do Rio de Janeiro, cremadas na parte da minha vida psíquica da qual não tenho consciência. Uma ave pernalta aquática, desgarrada, sobrevoa o meu reduto de reflexão e segue em direção da Ilha das Garças. Outras centenas de garças, em formação graciosa, tornaram esbranquiçado o céu de Itaparica minutos antes. A espuma da cor de neve, deixada na areia pelas ondas do mar de Itaparica, completava o quadro. A infinita beleza da natureza me seduziu e induziu a contemplá-la. Os últimos suspiros da lua nova obrigaram-me a interromper a leitura do livro “O homem à procura de si mesmo”. Da página 121, lida repetidamente, extraí um magnífico texto e o reproduzo, abaixo, em razão da sua mensagem imperante. Em seguida eu o comento.

O homem que foi colocado numa gaiola

Certa noite, o soberano de um país distante estava de pé à janela, ouvindo vagamente a música que vinha da sala de recepção, do outro lado do palácio. Estava cansado da recepção diplomática a que acabara de comparecer e olhava pela janela, cogitando sobre o mundo em geral e nada em particular. Seu olhar pousou num homem que se encontrava na praça, lá embaixo – aparentemente um elemento da classe média, encaminhando-se para a esquina, a fim de tomar um bonde para casa, percurso que fazia cinco noites por semana, há muitos anos. O rei acompanhou o homem em imaginação – fantasiou-o chegando a casa, beijando distraidamente a mulher, fazendo sua refeição, indagando se tudo estava bem com as crianças, lendo o jornal, indo para a cama, talvez se entregando ao ato do amor com a mulher, ou talvez não, dormindo, e levantando-se para sair novamente para o trabalho no dia seguinte.  

E uma súbita curiosidade assaltou o rei, que por um momento esqueceu o cansaço. ‘Que aconteceria se conservassem uma pessoa numa gaiola, como os animais do zoológico?’

No dia seguinte, o rei chamou um psicólogo, falou-lhe da sua idéia e convidou-o a observar a experiência. Em seguida, mandou trazer uma gaiola do zoológico e o homem de classe média foi nela colocado.  

A princípio ficou apenas confuso, repetindo para o psicólogo que o observava do lado de fora: ‘Preciso pegar o trem, preciso ir para o trabalho, veja que horas são, chegarei atrasado!’ À tarde começou a perceber o que estava acontecendo e protestou veemente: ‘O rei não pode fazer isso comigo! É injusto, é contra a lei!’ Falava com voz forte e olhos faiscantes de raiva.  

Durante a semana continuou a reclamar com veemência. Quando o rei passava pela gaiola, o que acontecia diariamente, protestava direto ao monarca. Mas este respondia: ‘Você está bem alimentado, tem uma boa cama, não precisa trabalhar. Estamos cuidando de você. Por que reclama?’ Após alguns dias, as objeções do homem começaram a diminuir e acabaram por cessar totalmente. Ficava sorumbático na gaiola, recusando-se em geral a falar, mas o psicólogo via que seus olhos brilhavam de ódio.  

Após várias semanas, o psicólogo notou que havia uma pausa cada vez mais prolongada depois que o rei lhe lembrava diariamente que estavam cuidando bem dele – durante um segundo o ódio era afastado, para depois voltar – como se o homem perguntasse a si mesmo se seria verdade o que o rei havia dito.

Mais algumas semanas passaram-se e o prisioneiro começou a discutir com o psicólogo se seria útil dar a alguém alimento e abrigo, a afirmar que o homem tinha que viver seu destino de qualquer maneira e que era sensato aceitá-lo. Assim, quando um grupo de professores e alunos veio um dia observá-lo na gaiola, tratou-os cordialmente, explicando que escolhera aquela maneira de viver; que havia grandes vantagens em estar protegido; que eles veriam com certeza o quanto era sensata a sua maneira de agir, etc. Que coisa estranha e patética, pensou o psicólogo. Por que insiste tanto em que aprovem sua maneira de viver?

Nos dias seguintes, quando o rei passava pelo pátio, o homem inclinava-se por detrás das barras da gaiola agradecendo-lhe o alimento e o abrigo. Mas quando o monarca não estava presente o homem não percebia estar sendo observado pelo psicólogo, sua expressão era inteiramente diversa – impertinente e mal-humorada. Quando lhe entregavam o alimento pelas grades, às vezes deixava cair os pratos, ou derramava a água, e depois ficava embaraçado por ter sido desajeitado. Sua conversação passou a ter um único sentido: em vez de complicadas teorias filosóficas sobre as vantagens de ser bem tratado, limitava-se a frases simples como: ‘É o destino’, que repetia infinitamente. Ou então murmurava apenas: ‘É’.  

Difícil dizer quando se estabeleceu a última fase, mas o psicólogo percebeu um dia que o rosto do homem não tinha expressão alguma: o sorriso deixara de ser subserviente, tornara-se vazio, sem sentido, como a careta de um bebê aflito com gases. O homem comia, trocava algumas frases com o psicólogo, de vez em quando. Tinha o olhar vago e distante e, embora fitasse o psicólogo, parecia não vê-lo de verdade.  

Em suas raras conversas deixou de usar a palavra ‘eu’. Aceitara a gaiola. Não sentia ira, zanga, não racionalizava. Estava louco.   

Naquela noite, o psicólogo instalou-se em seu gabinete, procurando escrever o relatório final, mas achando dificuldade em encontrar os termos corretos, pois sentia um grande vazio interior. Procurava tranquilizar-se com as palavras: ‘Dizem que nada se perde, que a matéria simplesmente se transforma em energia e é assim recuperada’. Contudo, não podia afastar a idéia de que algo se perdera, algo fora roubado ao universo naquela experiência. E o que restava era o vazio.

______

A voz do silêncio, inimaginável, rompe a barreira da razão. A faculdade com que o homem reflete, compara, conhece e julga, o torna senhor absoluto nas atitudes, mas o distancia da revelação e domínio do seu próprio eu. O que é que levou o soberano a tomar aquela atitude? É transcendente procurar entender isto primeiro para depois tentar decifrar as reações de um simples mortal diante das privações e martírio impostos por um ser semelhante – mas com poder de fazê-lo – e, na paralela, com a mesma curiosidade, analisar o comportamento do psicólogo contratado, já que o rei, o tempo todo, demonstrou-se indiferente, ou melhor, não se importou com a vontade, com a opinião e o livre-arbítrio do prisioneiro. Provavelmente, um simples capricho motivado pelo instinto. Fugir da sua própria rotina queria o rei. Queria, talvez, sentir-se em outro cenário, vivendo e sendo ator principal de outros tipos de experiências. A necessária coragem faltou-lhe – uma cobaia encontrou. Com algo que o fizesse também diferente, de alguma forma nova, tinha que ser ocupada a sua mente. O emprego duma gaiola, no sentido literal, como objeto de tortura, de tormento físico e mental, não passou de mais um meio para se chegar a um fim. A virtualidade de outros meios disponível estava.

Uma vez confinado, aquele homem da classe média externou preocupação com suas responsabilidades – cumpridas na lide diária, maquinalmente, até então. Na busca de respostas racionais são comuns questionamentos racionais. Nascem sinais de revolta pelo fator “impedimento”, anulando ações pessoais. Deixar-se manipular por outrem torna frágil a personalidade. Situação repetitiva de domínio, sem chances de alternativas ou fugas, faz aumentar a ira, a sanha e desnuda o lado primitivo do homem. Suprir o indivíduo de comida, de cuidados especiais e dar-lhe abrigo, não é o suficiente para mantê-lo feliz e ou recompensado. Castrar o seu direito de ir-e-vir, de trabalhar, de lutar, de conquistar a sua própria sobrevivência é o mesmo que sentenciá-lo à morte. Quando a saída parece impossível e a luz da esperança começa a diminuir de intensidade, o processo de autoflagelo emudece as súplicas. Um fio de razão expulsa um sentimento de ódio através dos olhos – estes deixam escapar o brilho. Quando se perde a força, com o passar do tempo, o estágio das dúvidas entra em evidência naquele contexto. Por momentos, convencer-se de que tudo não passa de normalidade apenas para construir positivamente o julgamento alheio pode ser uma estratégia fatal. Enganar a si próprio em nada ajuda no resgate da identidade – só contribui para desencadear o processo de destruição interior.

O senso de observação, importante para a compreensão da realidade, nos transporta para dentro do problema e passamos a fazer parte dele. Em um determinado momento, observado e observador, fundem-se numa atmosfera de unicidade e sugerem a indissolubilidade. A rigor, o “eu” passou a ser os “outros”. O bem mais precioso do indivíduo é a liberdade – nada a substitui e o quanto ela é importante para a formação da dignidade e autoestima. Em qualquer situação de adversidade, o indivíduo tenta se agarrar à esperança, estimulado pelo seu sentimento de durabilidade. A expectativa otimista é a última que morre. À esperança resta o direito de espera, mesmo com as incertezas no amanhã. A conveniência da “aceitação” faz brotar a necessidade explícita do “querer se enganar” que tudo está bem – como reforço de tese, buscar argumentos onde não existem. O processo de sublevação acontece quando “cai a ficha” e promove neste ato uma reação em cadeia – estímulos dos mais variados e conturbados surgem com mais frequência – e perde-se o controle. O que nos é oferecido talvez não seja o bastante.

Quando o indivíduo pressente que a sua identidade está prestes a se deteriorar, reformula o seu modo de pensar, de agir, de interagir, enfim, adota como regra básica a vontade de não querer viver – cede lugar a outros valores que não os seus. Novas crises emocionais podem suceder qualquer proposta de consolo. A subjugação ao sistema não garante que a dor se transforme em redenção. Nascimento e morte podem ocasionar perturbações somáticas e psíquicas irreversíveis – viver como animais também. Somos o que somos, estereótipos, lugar-comum, clichês, reflexos de condicionamentos estruturados, cópias mal elaboradas de outros semelhantes. Sem referências, o que todos somos? O indivíduo preso de si mesmo numa prisão interior e não se dá conta disso. Manifestações do inconsciente revelam roubo de corpos e ladrões de mentes. Conceitos, preconceitos e vicissitudes não valem absolutamente nada.

Homens e animais não têm muitos pontos de diferenciação. Uma vez atrás das grades, com a mesma facilidade que agradecem o alimento recebido com o abanar do rabo, podem morder a mão do seu dono quando este faz algum gesto de afago. Movido pelo conflito interior, surge o silêncio. As reações são difusas – controle sobre nada não há mais. Os entes queridos lembrados não são. Os pensamentos vagueiam; o olhar está fixo no infinito. Pessoas há que deixam transparecer que estão dominadas pela loucura plena, estimuladas pela simples necessidade da fuga da realidade, do mundo palpável – seria a fuga de uma circunstância irreal para outra real, segundo sua ótica. A dor do espírito suplanta a dor física – o grito provocado pela primeira ninguém ouve.

A essência do existencialismo sinalizou que o simples homem da classe média estava totalmente louco, e que perdera a razão, que perdera o sentido, que perdera a vida. Momentaneamente, o rei sumira. Conseguiu o que talvez sempre quisesse: constatou que dera certo a experiência e ordenaria a colocação dos diplomatas que participaram daquela recepção dentro da mesma gaiola, ao som da mesma música tocada. O psicólogo, com o seu grande vazio interior, se sentira, verdadeiramente, como um algoz de uma decapitação.

Augusto Avlis

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Trackbacks/Pingbacks

  1. Pingback: Um cavalo chamado “Heury” « Opinião sem Fronteiras - 31/10/2012

  2. Pingback: As duas faces do mesmo lado | Opinião sem Fronteiras - 13/04/2017

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 159 outros seguidores

Twitter

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: