>
Você está lendo...
Política

Polítitica – 8ª Crônica

Bem, se não me falha a memória – que já não anda muito boa –, lá por volta das décadas de 70 e 80, empreiteiras brasileiras ganharam concorrências internacionais para a realização de grandes obras no Oriente Médio e adjacências. Noventa por cento da mão-de-obra com “especialização braçal” saíram do nordeste, reconhecidamente grande celeiro de profissionais do cimento – e do humor também. Como essas tais “empreiteiras brasileiras”, de capital estrangeiro e sangue verde e amarelo, ganharam as concorrências públicas? Oh! Como? São sempre as mesmas; da mesma forma; com subornos compactuados e pactuados. Deixa pra lá! Façamos uma nova pergunta; contemos uma nova…

Certa vez eu li uma piada num desses jornais vespertinos de segunda linha – eu tinha essa mania – que dizia mais ou menos assim: Um Paraíba, entre os duzentos pedreiros que estavam sobrevoando o Iraque, ao constatar a enorme quantidade de areia que o estava esperando lá embaixo, exclamou com os olhos esbugalhados: “Puta que o pariu seu bichinho, quando chegarem o cimento e a água tô fodido!”. O volume de areia do deserto estava para o Paraíba assim como o tamanho dos abacaxis estará para o novo Presidente do Brasil. A contragosto, “Paraíba” é todo aquele que nasce na região Nordeste. Uns até que aceitam na brincadeira; outros querem comer você no facão. O bode já se lascou faz tempo, independente de fronteiras regionais. O melhor desse colóquio é que o meu amigo Paraíba é detentor de um considerável nível cultural, preserva as concordâncias verbal e nominal, sabe quando falar e, sobretudo, calar – ao contrário do Lulinha paz e amor.

Essa história de obra é fogo, principalmente para quem mora dentro dela. Uns se sentem incomodados com a poeira, outros com o barulho. Há também pessoas que se irritam quando algo tem que ser refeito várias vezes; pra variar – o que não falta é retrabalho no Brasil. Quando se começa a mexer em obra, por regra, o indivíduo tem que estar preparado para dar tropeçadas em algum pedaço de pau deixado no chão, dar marteladas nos dedos, furar o pé com um prego enferrujado, ser chamado de burro porque a parede está torta, enfim, tem que se sujeitar a todo o tipo de sacanagens e contrariedades. O importante é fazer bem feito, ou quase, quando se sabe.

Um dia desses encontrei o dito cujo Paraíba na Feira Nordestina, localizada no Campo de São Cristóvão, aqui no Rio de Janeiro. Pelo fato de ter ficado alguns anos no Iraque tirando areia dos olhos, parecia um pouco deslocado mesmo nesse ambiente familiar; o que era uma reação normal. Anormal foi o convite dele pra comer uma buchada de bode, com chifre, e tudo o mais que tinha direito. Areias à parte, por aqui eu só enxugava as lágrimas – e continuo.

Está na moda falar em reformas, sobretudo neste período de campanhas político-eleitorais. Nada melhor do que conversar com alguém especialista nesta matéria. Segurei o Paraíba pelo braço e o arrastei para dentro do botequim – uma espécie de armazém ordinário; mas isto não importa, porque o dono não era. Pedi uma cerveja e o Paraíba uma cana. A cada meia hora de bate-papo invertíamos os nossos pedidos. Segundo o seu Manel, dono da espelunca, ninguém ficou bêbado – só o bode da feira, ontem, antes de ser abatido.

Mesmo se considerando uma pessoa não suficientemente politizada (consciente de todos os seus deveres e dos poucos direitos de cidadão brasileiro) o meu amigo Paraíba concordou comigo num ponto: ele também acha que o passaporte para a cidadania depende da satisfação de cinco necessidades primárias e que todo o governante, com um pouquinho só de sensibilidade, e grande dose de vergonha na cara, deveria hastear esta bandeira democrática. No conceito dele, todo político age habilmente; é sagaz; astuto. Por isso não vê, em médio prazo, a mínima perspectiva de que algo de concreto seja realizado neste país para o efetivo bem-estar do povo – em alguns casos, nem em longo prazo.

Preferindo ficar no anonimato, me confidenciou que ao longo de toda a sua vida ajudou a construir centenas de casas para os outros e hoje não tem casa própria, paga aluguel e mora num barraco na periferia da cidade. Tratamento de esgoto, água encanada, fornecimento de energia elétrica, nem pensar. Saneamento básico só no papel, ou em discurso de palanque.

Sem ter onde morar, o indivíduo não consegue construir uma família; primeiro núcleo social.  Afirmou ele.

Todo cidadão tem direito a um endereço definido, a um teto digno para se abrigar das intempéries e que não seja a ponte, por falta de opção. Complementou.

Promover mutirões não resolve o problema; fazer especulação com moradia causa revolta; a proliferação das favelas, que hoje já invadem as áreas centrais das grandes cidades, é prova do descaso das autoridades nessa questão e, é bem verdade, ninguém mora mal porque quer. Voltou a frisar o Paraíba.

É, pelo visto, este primeiro quesito foi muito importante para a continuidade do nosso bate-papo. Aprendi com ele que a habitação, com o devido saneamento básico, deveria ser a prioridade número um em qualquer programa de governo. Não é difícil prever que a falta de um amplo projeto nacional para a construção de unidades habitacionais, que atendam às necessidades de uma boa parcela da população carente, provocará tremenda comoção social. Os “descamisados” de ontem viraram os “sem-teto” de hoje. A tendência é a sociedade, que se diz organizada, presenciar incitações, manifestações e invasões de prédios, sobretudo públicos, pelo uso da força braçal, espiritual e carnal.

Seu Manel traz mais uma.

Acabamos de comer uma suculenta pacuera, por isso, estamos raciocinando melhor, mesmo com a ingestão de álcool, explicou o Paraíba, que foi categórico ao dizer que “a comida é o sagrado alimento para o corpo”.

Se o corpo não estiver nutrido convenientemente, a mente não funciona. Só Cristo fez a reprodução dos pães e dos peixes. Os futuros políticos, que sairão das urnas em 2002, tentarão imitar este milagre divino implementando programas sociais para o combate à fome. Ele mesmo, o governo, só vai gastar dinheiro com propaganda, instigando as pessoas a se ajudarem mutuamente, nada mais. Sob o olhar atento do filho de Deus, só pobre ajuda pobre, só miserável é que ajuda miserável, só faminto é que divide o pão com seu igual.

É isso aí, Paraíba, mandou bem. Seu Manel traz mais uma.

Veja só o escabroso caso da saúde pública neste país. Tudo caminha, de forma premeditada, para a falência do Sistema Único de Saúde; o SUS que todo mundo conhece, sobretudo os Secretários Municipais e Estaduais de Saúde, quando têm que “administrar” vultosas verbas. Não é mesmo? Notícias dão conta de que nos hospitais universitários (das instituições públicas) há um déficit projetado da ordem de 20 mil empregados. Dos 38 mil funcionários existentes, 20 mil são terceirizados, o que correspondem a mais de 50% dos ativos e, o que é pior, são pagos em sua maioria com verbas do SUS. Este procedimento é ilegal, pra quem não sabe. As pessoas, infelizmente, continuarão morrendo nas portas dos hospitais por negligência no atendimento e faltarão leitos para a internação de pacientes graves. Há uma clara tendência à privatização dos serviços de saúde. Quem tem dinheiro pode esticar um pouco mais a sua vida; quem não tem, só resta rezar para a virgem – Maria, ou não. Ora, se o indivíduo mora como gente e se alimenta de forma sustentável, sem dúvida alguma o Estado minimizará os custos na área da saúde e, por conseqüência, sobrará dinheiro para outros importantes projetos. Esta é, portanto, uma questão lógica; não precisamos pensar muito. Parece que os políticos, com saúde perfeita, só querem comer dinheiro, não comida.

– Calma Paraíba! Seu Manel traz mais uma, perdão, mais duas.

Escola para todos. Lugar de criança é na escola. Duas brilhantes frases, que só o Marketing do governo federal é capaz de criar quando se precisa mostrar trabalho. Marketing quase perfeito, não fosse a imperfeição dos seus programas voltados para a área do ensino. Pra se ter uma idéia, os governantes querem segurar e ao mesmo tempo atrair novos alunos para as escolas, mas deixam faltar merenda escolar em muitas delas; as campanhas para uniformização inexistem; o transporte escolar é precário onde é bancado pelas prefeituras e, sobretudo, não disponibilizam a totalidade das vagas esperadas pela população. Dá pra acreditar que além de tudo isso também faltam professores? Esses mesmos burocratas pretendem baixar os níveis de repetência, que hoje são alarmantes, mas não fazem nada para melhorar o currículo escolar. Comumente se questiona a qualidade do ensino em praticamente todos os graus, notadamente no fundamental. Escrever caxorro com “x” ou assúcar com “ss” é prática que passa a ser encarada como “nova cultura” – as provas de redações bem ratificam este quadro preocupante. Tudo parece ter uma relação e uma interdependência. A incapacidade de absorção das matérias curriculares pelos alunos também pode ter como causas a falta de uma moradia decente; a desnutrição; enfim, a saúde debilitada. O que esperar de uma criança que se esconde num charco, que não tem nada o que comer em casa; que tem a sua saúde enfraquecida; que anda descalça e vai a pé até a escola, em farrapos, enfim, como esta criança, de sã consciência, vai aprender alguma coisa, ou melhor, como ela pode frequentar o banco da escola?

É Paraíba, a coisa tá preta. Seu Manel traz mais duas canas, no capricho.

Com relação a trabalho, fala-se desde já na criação de empregos na ordem de oito a dez milhões de novos postos, contudo, isto primeiro precisa ser combinado com os empresários, com aqueles depositários do capital produtivo. Quem detém o capital especulativo já está com o seu quadro de pessoal lotado. Olhando por outro ângulo, o Brasil, neste momento, necessita de mais gente “trabalhando” do que “empregada”. Isto pode parecer estranho, a princípio, mas não é. Do jeito que as relações capital x trabalho vão ficar por conseqüência das medidas que o novo governo tomará nas áreas econômica e previdenciária (já estamos sabendo), não só os atuais postos formais de trabalho vão diminuir em número como a demanda aumentar substancialmente – com a excessiva procura de emprego a qualidade da mão-de-obra tende a cair e com isso surgirá a temida frustração do trabalhador porque este será obrigado, pelas circunstâncias, a mudar de carreira ou simplesmente aceitar qualquer salário e qualquer atividade não compatível com a sua formação e especialização. O Brasil precisa de mais gente trabalhando; isso mesmo. Os governos estaduais e municipais, com supervisão federal, poderiam se transformar nos maiores contratantes indiretos, bastando para isso criarem as condições e os mecanismos necessários visando a utilização da mão-de-obra disponível a partir do campo – estratégia que diminuiria o êxodo rural e evitaria que fosse empurrada para a informalidade nos grandes centros de consumo. Isto pode gerar bom dividendo para as economias regionais. Se apenas 20% do dinheiro público desviado por políticos desonestos fossem empregados em programas de geração de trabalho – com todos os direitos assegurados em lei –, o problema estaria resolvido. O restante é balela. Da mesma forma que se pretende banir o trabalho escravo e por fim ao trabalho infantil, deva-se, como compromisso, repensar nas relações com os sindicatos de classe. Sem investir em infra-estrutura a geração de empregos formais mais me parece carolice.

É, parece que o Paraíba tem razão. Seu Manel traz mais uma cerveja, e veja o que o Paraíba quer.

O meu amigo Paraíba até que poderia se lançar candidato, fundando um novo partido político com filosofia e tendência próprias. Não seria nem de direita e nem de esquerda, tampouco de centro. Nessa altura do campeonato, para se ganhar o jogo só dando uma de gandula – só tem bola fora. Em pouco mais de uma hora este meu amigo Paraíba discorreu sobre as cinco necessidades rudimentares do indivíduo: casa, comida, saúde, ensino e trabalho. Até que insinuei a sua candidatura real, porém, corri o risco de levar um safanão, ainda mais depois de tanta bebida ingerida democraticamente. Segundo ele, os poderes constituídos deste país têm, ou deveriam ter como meta básica, a obrigação da promoção desses recursos primários para todas as famílias necessitadas deste país, mesmo que em longo prazo, independentemente do estabelecimento de “fictícios níveis de renda”, que só interessam aos manipuladores da desgraça alheia. Uma vez construída esta “meia-água”, aí sim, outros projetos mais arrojados poderiam ser levados adiante para que todos possam almejar uma casa melhor e mais confortável no futuro. Qualquer dia desses as crianças vão se reunir lá em casa pra “brincarem de casinha” (sem essa de papai e mamãe, brincadeirinha de médico, enfim) e pedi ao Paraíba que deixasse seu filho ir até lá.

Seu Manel traz mais uma.

Se os candidatos têm dúvidas quanto à ordem de prioridades no tocante aos seus programas de governo, é só falar com o Paraíba e, além disso, o fundamental é que se ponha a mão na massa para o início imediato das obras. E o Paraíba saiu com mais essa:

Eu até que topo, mas só com uma condição: eu não costumo ensinar o meu ofício de pedreiro pra conterrâneo nenhum; se quiserem, os dois, dos quatro candidatos a Presidente da República, o Lula e o Ciro, têm que aprender sozinhos, até porque eles já demonstraram que não entendem porra nenhuma e gostam de gozar com o pinto dos outros. Não vou dar mole não! O Garotinho e o Serra têm a mão muito fina; o negócio deles é outro.

Seu Manel traz a saideira e passa a régua.

Depois dessa, é por minha conta. Respondeu o portuga, se convidando pra tomar um copo conosco. Esse papo vai render; começar é fácil, terminar é que é difícil!

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Trackbacks/Pingbacks

  1. Pingback: Livro Polítitica « Opinião sem Fronteiras - 29/07/2012

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se aos outros seguidores de 160

%d blogueiros gostam disto: